O guru do Design na Web

Clement Mok é um dos mais conceituados 'designers' do Silicon Valley. Começou na Apple, nos tempos áureos do 'amigável com o utilizador', como director artístico da empresa e acabou criando um gabinete de design em São Francisco que tem uma metodologia de trabalho original de total 'envolvimento do cliente', juntando a estratégia, a marca, o design, a interactividade e até a logística.

Jorge Nascimento Rodrigues falou com ele nos escritórios
da Studio Archetype, que fundou há dez anos

Cartão de Visita de Clement
Considera-se ainda um jovem com 40 anos, mas com um percurso cheio no Silicon Valley californiano, que vai da equipa original dos primeiros Macintosh, até director artístico da Apple Computer, imbuído do célebre espírito guia do design informático que ficou conhecido pelo 'amigável com o utilizador'. Este conceito de simplicidade da interface geraria uma revolução no design industrial nos anos seguintes. Mok criaria, depois, em 1988, um pequeno gabinete de design, que se tornaria, uma década depois, numa empresa com mais de 150 artistas (90 dos quais permanentes) alojados em pleno centro do Multimedia Gulch - a zona de São Francisco de concentração da emergente economia digital.
O Studio Archetype, nome porque é conhecido desde 1996, é classificado com cinco estrelas entre as 20 melhores casas de design para a Web da América. Entre os clientes, contam-se a IBM, a UPS, a American Express, a Intel, a Kodak, a Netscape, a Johnson & Johnson, a Revo, a NBC, a Nintendo, a 3Com, o Bank of America e o NationsBank.
De etnia chinesa, Clement é tido como um guru das novas estratégias de design industrial, desde que escreveu, em 1996, Designing Business - Multiple Media, Multiple Disciplines (compra do livro), um livro que ganhou o lugar de melhor livro 'prático' de negócios pelo Prémio do Financial Times/Booz-Allen & Hamilton para aquele ano. Define o seu «estúdio» como de 'arquitectos da identidade e da informação da empresa', e soube fazer uma migração rápida do grafismo em papel, para o vídeo e a TV, e desde 1994 para a Web. Tem uma série de «hobbies» - para além da própria profissão, como ele gosta de salientar - em volta da arquitectura e das antiguidades, e curiosamente, na sua casa de estilo vitoriano, não tem um único computador...
É fundador também de uma outra empresa do Vale, a NetObjects, dedicada a ferramentas autorais para a Web, e da CMCD, uma editora de imagens fotográficas. O Studio Archetype foi em Agosto deste ano adquirido pela (Sapient), uma empresa de consultoria em sistemas integrados de informação, de Cambridge, na costa atlântica dos EUA, com escritórios em diversas cidades americanas e em Londres, na Europa. Mok passou, então, a chefe de criativos do grupo.

Qual foi a principal herança dos seus tempos do Macintosh e da Apple?

Grande parte da cultura da Studio Archetype veio do baú da Apple, de facto. Ou seja, não nos vemos como uma empresa de design. Encaramo-nos como um típico 'empreendimento' do Silicon Valley, apesar de estarmos aqui em São Francisco. Ficámos 'mordidos' por aquela atitude típica do Vale - tudo está sujeito a mudança; tudo é possível. Creio que a maior influência que trouxemos do 'gene' da Apple foi a posição de princípio de darmos todo o poder ao indíviduo para lidar com as novas tecnologias.

Quer explicar melhor esse colocar do homem (do utilizador, diz-se no «informatiquês») no centro do digital?

Repare, a minha empresa foi criada em Abril de 1988 com a designação de Clement Mok designs, em que este último 'designs' (em letra minúscula) era assumido como um verbo e não como 'desenhos', coisas. E, neste trocadilho, está a distinção essêncial do que eu quero dizer com esse palavreado humanista. Não se trata de desenhar 'coisas'. Falo de desenhar experiências. Falo de qualidade do processo. Design não é só parecer bem. É ser bom. E para tal é preciso colocar as preocupações humanas no centro da nossa actividade.

Mas, continua a ser um bocado filosófico esse seu conceito de design industrial. O 'amigável com o utilizador' era um «slogan» que todos nós entendíamos na época dos PC. Agora, na era digital, como é, trocado por miúdos?

Continua a ser o desenho da compreensão. Independentemente do meio ou da forma, o design da compreensão não é só grafismos, cartas, mapas e diagramas. Fornecer o conteúdo e um ponto de vista que inspire, provoque e empurre as ideias para a acção, é o que entendemos por esse «design da compreensão». Não é ciência pura. É ciências sociais - é perceber as necessidades humanas e a sua relação original com o mundo que nos rodeia. O acto do design é estruturar e criar esse equílibrio. Não é só comunicação. Deve ser mais do que isso - é criar as pontes que tornam as coisas desenhadas úteis e utilizáveis. E numa óptica multi-plataforma, pensada para diversos tipos de «media».

Mas como é que explica a um grupo de directores de uma empresa esse desafio agora na era digital?

Que não se deve abordar a questão do design pelo lado técnico. Mas - sempre - pelo lado do utilizador. É preciso fazer uma integração criativa da estratágia de negócio do cliente, do design com uma forte preocupação de grafismo e interactividade, e da engenharia propriamente dita. Em suma, a mensagem é esta: se náo é fácil de usar, por melhor tecnologia que tenha ou melhores efeitos de design, não interessa. A minha concepção é que se deve desenhar para a experiência, mais do que para a recordação. O nosso objectivo ao trabalhar com uma empresa é não só ajudar a articular o que eles vendem, mas também os seus fins, valores e princípios. É de tudo isto que sairá a tal identidade. A tecnologia é uma ferramenta para isto. Desempenhamos o papel de 'facilitadores' entre esse terreno imaterial, das ideias, com o mundo pragmático.

Aliás, a escolha de «Arquétipo» para o nome do vosso estúdio é curiosa...

A nossa missão é ajudar os clientes a tornarem-se arquétipos das suas indústrias.

Como é que o Studio Archetype fez a transição do design do papel e da TV para a Web, algo que muitos designers reconhecem não ser um caminho fácil?

A nossa transição do papel impresso para o CD, e depois para a TV interactiva, e agora para a Web, sempre se fundou numa atitude de mudança. Nós procuramos clientes que estejam na ponta da viragem, e pretendemos ajudá-los a definir e visualizar estas novas possibilidades tecnológicas. Pretendemos fazer parceria com os clientes, e isso significa perceber o negócio deles e dar-lhes a nossa opinião, e isso facilita as coisas. Sempre nos mantivemos a par da indústria de computadores e do software, e como que crescemos ao lado deles. A única saída, aqui, é entrar no jogo para poder ser considerado também um jogador.

Qual foi a mensagem que quiz transmitir no seu livro Designing Business?

Escrevi o livro para convencer os responsáveis de marketing, os directores-gerais e os decisores de sistemas de informação, para reexaminarem o papel do design como arma de vantagem competitiva no chamado mundo digital. O livro começa por fazer o leitor viajar por conceitos e ideias de marketing tradicionais, para depois passar a identificar novos desafios e novos atributos que temos de encarar num «medium» deste tipo, baseado num écran que nos abre ao mundo da conectividade. Em suma, o livro procura aplicar a prática do design, da observação e do refinamento aos negócios.

Entre os mais recentes projectos para a Web que levaram a cabo, qual vos deu mais gozo? O da criação em parceria com a IBM do «site» para os Jogos Olímpicos de Inverno deste ano em (Nagano)?

É dificil destacar assim um projecto. Os desafios criativos que todos nos trazem são tão diversos e tão originais que todos nos dão gozo, sejam pequenos ou grandes, complexos ou simples, para falar sinceramente. É a diversidade que nos agrada. Mas agrada-nos particularmente trazer empresas tradicionais, bem estabelecidas no mundo analógico, para o digital.

Como vê o futuro do Studio Archetype?

A cultura e os valores do Studio Archetype permanecerão. Os desafios vêm do lado do aprofundamento das nossas competências e serviços - mais desenvolvimento na área das aplicações, do comércio electrónico e dos serviços «on-line».

A que se deve a recente aquisição do Studio pela Sapient?

Tinhamos uma abordagem semelhante. O modelo de negócio que a Sapient desenvolveu é inteiramente centrado no cliente e parte da mesma atitude - o 'envolvimento total' do cliente no processo e uma postura de total subordinação à óptica do utilizador. Casámos a nossa 'expertise' em estratégia de marca e design amigável do utilizador (que a Studio tem) com o saber e a experiência em integração de sistemas e desenvolvimento de estratégias na Web (da Sapient). Oferecemos uma solução única, sem o cliente ter de lidar com diferentes fornecedores, em matéria que vai do design inicial à integração dos sistemas de suporte. Nós chamamos a isto um 'integrador de conteúdo transactivo', que impele à transação por parte do utilizador. Trata-se de um só interlocutor para a sua firma que oferece a estratégia, o marketing, a política de marca, o conteúdo do design, e a integração dos serviços aos utilizadores. Este mercado de integração de sistemas na Net poderá crescer de pouco mais de 3 biliões de dólares no ano passado para mais de 29 biliões daqui a três anos! Com esta junção, poderemos, também, alargar a nossa própria globalização. A Sapient está apenas em Londres e nós estamos em Sydney, na Austrália, e em São Paulo, no Brasil.

Para a jovem geração de designers da Web, o que é que lhes diria?

Que não é preciso reinventar tudo de novo para a Web. Sem dúvida que é um novo «medium» e que temos de rever todas as nossas convicções mais arreigadas sobre os «media». Mas há muita coisa do passado que é boa. O desafio é fazer um julgamento equilibrado e integrar o velho com o novo.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal