Viagem ao Mito da Garagem

A garagem da HP

Sessenta anos depois do mito ter nascido continua intacto e gerou um culto que, com o tempo, vê crescer os fiéis. A garagem é o símbolo do voluntarismo de uma geração de empreendedores que agarraram no berço a terceira vaga pintada por Alvin Toffler décadas mais tarde. A expressão 'Silicon Valley' só surgiu em 1971, e mais de vinte e cinco anos depois conta com 51 réplicas em quatro continentes.

Jorge Nascimento Rodrigues na Via Rápida 101 do Silicon Valley
Um trabalho de investigação para a revista Ideias & Negócios


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O que diz um empreendedor português do Vale


Com pouco mais de 500 dólares (atenção: na altura, era uma soma considerável) emprestados pelo seu reitor - um business angel antes do tempo -, dois jovens licenciados da Universidade de Stanford criaram numa garagem de Palo Alto, em Janeiro de 1939, uma micro empresa de «engenhocas» electrotécnicas que ficou com os apelidos dos dois - a Hewlett-Packard, a avó do Silicon Valley.

Passam, agora, sessenta anos, mas o mito está vivo; é como se fosse de hoje de manhã. A garagem no número 376 da Avenida Addison em Palo Alto tornou-se um símbolo e é monumento nacional. É um dos locais de culto do Vale. As pessoas não vão lá pousar flores nem comprar postais, mas tiram algumas fotos e enchem os pulmões de 'empreendedorismo' (termo arrevesado que traduz entrepreneurship, a expressão popularizada por Peter Drucker nos anos 80).

Frederik Terman, o reitor do Departamento de Engenharia Electrotécnica daquela Universidade, com o seu empréstimo, desencadeou um processo empresarial de cujas consequências, certamente, tinha uma pálida ideia, na altura. Mas o impulso deu-lhe gás, uma década mais tarde, para criar o primeiro «parque industrial» ligado ao campus universitário, onde esperava que os talentos académicos com espírito empreendedor criassem as suas empresas ligadas à nova tecnologia emergente.

80 kms a peso de ouro

Terman não se enganou, o conceito pegou moda e alastrou, desde 1950, como um vírus por todo o vale que vai de São Francisco a São José. É uma faixa de uns oitenta quilómetros, onde hoje habitam cerca de sete mil empresas de hi-tech. É o local dos Estados Unidos com maior capitalização de mercado. Mais de 450 mil milhões de dólares em 1997, cerca de cinquenta milhões mais do que a Wall Street. São, certamente, os 80 kms mais valiosos do mundo!

Um dos acontecimentos que permitiria ao Vale dar o salto para a industrialização da terceira vaga ocorreu em finais dos anos 50. Um grupo de oito engenheiros, liderados por Robert Noyce, e em que participavam Eugene Kleyner (mais tarde um dos primeiros capitalistas de risco) e Gordon Moore (o tal da 'lei de Moore' a que toda a indústria informática se refere), resolveu dar o Grito do Ipiranga e libertar-se do seu 'pai tecnológico', William Shockley.

OS DEZ PRINCÍPIOS DO VALE
  • Industrializar as originalidades criadas por outros é esse o métier dos empreendedores
  • Dar de comer a todos na cadeia de valor é o princípio mais sagrado
  • O ambiente 'biológico' é de grande diversidade de talentos vindos de todo o mundo
  • A indústria do conhecimento é o motor do crescimento e a meritocracia é a regra
  • Partilhar o saber e incentivar a mobilidade pessoal é o segredo do cafeeing
  • Um novo tipo de capital e de capitalistas de risco e 'anjos' surgiu para dar biberão aos projectos e às empresas jovens
  • Mas esse capital não se destina a alimentar carneirinhos para a matança, mas gazelas ágeis capazes de criar as grandes empresas do futuro
  • A informalidade é a regra de gestão número um, criada pela Hewlett-Packard que impôs o tratamento de qualquer um pelo primeiro nome nos idos anos 30
  • Os trabalhadores participam no capital da sua própria empresa, criando-se uma 'comunidade' de lealdade
  • A cultura tecnológica coloca em primeiro lugar o célebre user friendly, ou seja tudo tem de ser 'amigável' para o utilizador
  • Este grande senhor tinha sido um dos inventores do efeito do transístor em 23 de Dezembro de 1947 e fora o primeiro a perceber o seu valor de mercado. Mas foram os seus «assistentes», esses oito «traidores» como viriam a ficar conhecidos, que fundaram, dez anos depois, em 1957, a Fairchild Semiconductor, a fábrica-escola em Mountain View e Palo Alto, que viria a ser o começo do novelo da indústria dos chips, donde saíria, em 1968, um spin off chamado Intel.

    Contudo, a expressão 'Silicon Valley' só nasceu em 1971, pela pena de Don Hoefler, o editor da revista «Microelectronics News», que, entusiasmado com a indústria emergente, decidiu baptizar o vale com o silício, um dos ingredientes em abundância para o fabrico dos transístores.

    Por detrás do mito

    A garagem voltaria, justamente, a fazer das suas em meados dos anos 70, não deixando mal colocado Don Hoefler. O mito voltaria a repetir-se quando dois jovens, Stephen Wozniak e Steven Jobs, fabricaram, noutra garagem, o primeiro Apple, um computador pessoal que viria revolucionar a nossa relação com o mundo da informática. Os dois estariam, depois, na origem do conceito do user friendly, acabando com o reinado de uma aristocracia tecnológica e impondo aos informáticos criar coisas 'amigáveis' com o utilizador.

    A história repete-se nos anos 90, só que os actores deste teatro de rua mudam de palco - da garagem passaram para um atrelado no campus da Universidade de Stanford. Jerry Yang e David Filo, dois alunos completamente desconhecidos, criariam em 1994, dias a fio dentro de um atrelado, o primeiro grande directório para 'navegar' na vastíssima World Wide Web, o Yahoo!. O que começaria como um hobby de catalogação dos «sites» preferidos de Jerry, acabaria no maior 'portal' (porta de entrada) do cibermundo.

    Mas o que estará por detrás do mito que faz do Silicon Valley modelo de inspiração para os quatro continentes?

    Segundo a última contagem da webmaster Keith Dawson já somam 51 os 'valleys' de tecnologia pelo mundo fora que se reclamam do original californiano, uma listagem que ela mantém em actualização permanente em www.tbtf.com/siliconia.html.

    À primeira vista, muita gente julga que o motor do Vale são as inovações tecnológicas - pensa-se que lá se 'descobrem' coisas pioneiras. Mas não.

    Os artigos científicos que desencaderam a computação não foram lá escritos. Por exemplo, Alan Turing, o matemático inglês, produziu o memorável paper On Computable Numbers em 1936 no lado de cá do Atlântico. O primeiro computador com 15 metros de comprimido foi montado em 1943 por um grupo da IBM na Universidedade de Harvard, do outro lado da América.

    O efeito do transístor, a que já nos referimos, para muitos a maior invenção do século XX, foi descoberto nos Laboratórios da Bell em New Jersey, também na costa atlântica. Os jovenzinhos hackers apareceram primeiro no Massachusetts Institute of Techonology, em Boston. Os primeiros computadores pessoais, os Altair, nasceram no Novo México.

    A mais recente World Wide Web muito menos foi lá criada. Foi idealizada na Suíça, no CERN, por um cientista inglês de nome Tim Berners-Lee. E o primeiro browser para 'navegarmos' na Web surgiu na Universidade do Illinois pela mão de um rapazinho de uma cidade que dava pelo nome de New Lisbon.

    «O que faz a força do Vale, diz-nos Paul Romer, o mais afamado economista de Stanford e apontado como um dos permanentes de uma lista de futuros Prémio Nobel, é pegar nas inovações que vêm de fora e atrair gente de talento de todo o lado, transformando tais inovações em berços de novas indústrias. Foi assim com os chips, depois com os PC, agora com a Web e poderá ser amanhã com a biotecnologia».

    Outro dos tecnólogos americanos da moda, Peter Cohan, comenta-nos que o Silicon Valley «é o único lugar do mundo em que a alta tecnologia foi, desde os anos 30, considerada sistematicamente como negócio estruturante de uma economia regional moderna».

    Michael Porter imortalizou esta ideia de aglomeração regional com o conceito de cluster, que ele também 'vendeu' em Portugal. Quando escreveu The Competitive Advantage of Nations (compra do livro) utilizou o Vale como um dos exemplos de eleição e ainda, recentemente, repetiu o que faz a força deste género de sítios: «As pessoas que trabalham nestes ambientes conseguem com maior facilidade aperceber-se das falhas de mercado a partir das quais poderão lançar os seus novos negócios. Além disso, em tais aglomerações as barreiras à entrada são, em geral, mais baixas do que noutros locais isolados».

    Tudo isto é temperado com uma cultura empresarial muito própria. Christopher Meyer, um dos consultores mais cotados do Vale, disse-nos que este é que é «o verdadeiro produto 'made in Silicon Valley'». «Você vai ficar boqueaberto com o que lhe vou dizer. Mas o forte do Vale não é a tecnologia. Mas um modelo de cultura empresarial, um estilo original de gestão da mais velha e mais bem sucedida economia baseada no conhecimento, a tal que Peter Drucker anda a falar há alguns anos».

    Dois esquemas muito simples

    Mais prosaicamente, esta cultura baseia-se em dois 'esquemas' práticos, sem grande filosofia. Ao primeiro chamam-lhe o princípio da galinha dar de comer aos pintos. O segundo é o cafeeing.

    Diz-nos Geoffrey Moore, um dos analistas financeiros de San Mateo: «A região soube apanhar o primeiro momento da Revolução da Informação e nunca mais parou. Porquê? Porque soube tecer uma cadeia de valor, em que cada um descobre o seu lugar, o que depois lhe permite arranjar lugar para outros. Cada um vai dando de comer a outros e assim sucessivamente. Todos os pintos comem. Cada pinto só faz aquilo que sabe, o que não sabe não empata, deixa para outros fazer».

    Apesar do café americano ser uma surrapa, os cafés tornaram-se um local de cultura empresarial. Desde a descoberta do sabor de um expresso que o 'cafeeing' se tornou uma moda. Para John Kao, o ideólogo da inovação que se mudou de Nova Iorque para criar uma 'fábrica de ideias' en São Francisco, o Vale é «o local onde encontrei uma cultura muito forte de ideias, de permuta de saber ao vivo, não só nem principalmente por email ou por telemóvel, mas nos cafés».

    Muitos desses locais disponibilizam inclusive uns crayons de várias cores para você desenhar no guardanapo ou na toalha de papel os seus mais incríveis business plans de novos negócios. Isto já está a gerar outro mito: a Genentech, a pioneira da biotecnologia, ao que dizem, nasceu entre umas cervejas, como foi imortalizado em quadro; foi no Café Verona, em Palo Alto, que Jim Clark convenceu ao pequeno almoço Marc Andreessen a criar a Mosaic Communications, mais tarde o fenómeno Netscape; e foi num café de nome Marímba que a jovem Kim Polese decidiu avançar com a empresa com esse nome, que se tornou numa coqueluche da linguagem Java.

    Isto não passa de fait-divers, mas é simbólico de como funciona informalmente o Vale.

    Onde entra o capital

    Mas a pintura ficaria incompleta e sem sentido, se não lhe acrescentássemos o dinheirinho que é preciso para isto tudo. É uma finança muito especial. Deram-lhe o nome de venture capital, que nós traduzimos por capital de risco, mas que, pelas bandas do Silicon Valley, é substancialmente diferente daquilo a que estamos habituados por cá (que, regra geral, traz a marca do Estado por detrás ou é 'esquema' da banca para uns trocados).

    Sem rendilhados, a história no Vale funciona assim: os que fazem dinheiro com a vaga de tecnologia anterior tornam-se financiadores e guias espirituais dos jovens promissores da vaga seguinte.

    Eugene Kleyner, um dos fundadores da Fairchild Semiconductors, a que já nos referimos, criou a primeira firma de capital de risco, a muito afamada Kleiner Perkins Caulfield & Byers, hoje um símbolo de uma 'indústria' que assenta arraiais em Menlo Park. Na Sand Hill Road desta cidadezinha, há mais de 300 sociedades de venture capital coladas umas às outras em mansões com mais de mil Porsches estacionados à porta.

    Donald Valentino, que criou em 1972 uma das primeiras sociedades de capital de risco, a Sequoia Capital, afirmou que «o que nós fazemos não é cálculo financeiro, mas apoiar empreendedores, mesmo repetentes com falhanços, que visionam o futuro, que criam novas empresas para novas indústrias, que criam uma nova economia».

    Conta-se que, quando em 1968, Noyce e Moore criaram a Intel, um tal Arthur Rock arranjou-lhes cinco milhões de dólares em capital de risco em trinta minutos ao telefone. Obviamente que ninguém se arrependeu. Depois da Microsoft, a Intel é o maior peso pesado da bolsa actual, e é a líder do fechado «clube dos quatro» maiores em capitalização bolsista no Silicon Valley - primeiro vem a Intel com mais de cem mil milhões de dólares de valor de mercado, seguida da HP, da Cisco e da Oracle.

    Mas, é preciso tirar algum creme surrealista que é costume meter em cima do capital de risco para se perceber como na realidade funciona.

    A regra número um do capitalista de risco não é ficar deslumbrado com a ideia original que você lhe apresenta ou deixar-se impressionar pelos artefícios numéricos do seu business plan. Ele não aposta «romanticamente em pessoas com boas ideias», mas investe sobretudo «numa equipa que revele bons dotes de gestão, equilíbrio entre homens do terra-a-terra e engenheiros obcecados, que visionem um negócio para um sector emergente de alto crescimento», refere Jacques Vallée, um francês desde há muito radicado no Vale e dedicado ao capital de risco.

    Depois, é preciso levar em linha de conta que o venture capital não entra quando o seu projecto ainda está a ser gerado. Ele visa o momento da comercialização, na esperança de que as coisas corram bem e a empresa apoiada possa ir rapidamente ao mercado de capitais, abrir-se ao público ou a alguns tubarões, e permitir aos capitalistas de risco fazer uma boa maquia.

    A pensar no empreendedor no momento de arranque está outra raça de gente. Chamam-lhe os business angels, sem dúvida também ricaços bem sucedidos em vagas anteriores, que avançam, agora, com capital 'semente', ou 'alpista', aconselhamento e apoio aos novatos. Este grupo de financiadores despende inclusive mais do que as capitais de risco, cerca do dobro. Segundo um estudo recente, deverão existir mais de 300 mil pessoas nesta actividade só nos Estados Unidos.

    O Silicon Valley é todo este mosaico e está de volta como sex symbol. Ele vai desalojar a Wall Street como fonte de inspiração de filmes marcantes do final de milénio. Robert Altman e Garry Trudeau estão a preparar uma comédia que talvez venha a ser baptizada de «Killer App» (aplicação mortal, o nome que se dá àquelas inovações que saltam para o mercado e ganham esmagadoramente), a parodiar o título de um bestseller do Verão passado da autoria de Larry Downes, um escritor do Vale. Steven Jobs ao que parece vai aparecer nos écrans através de Noah Wyle num filme que terá o nome sugestivo de «Piratas do Silicon Valley».


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