Tecnologia lusa no planalto dos deuses

Entre ruínas de pirâmides ao Sol e à Lua e escavações para descobrir a antiga capital dos aztecas destruída pelos "conquistadores" espanhóis, o cartão de visita das competências em soldadura e qualidade portuguesas tem-se afirmado no México

Jorge Nascimento Rodrigues em Santiago de Querétaro, cidade mexicana património da Humanidade, na pele do Repórter M da revista portuguesa Ideias & Negócios, Fevereiro de 2003

Processos de soldadura e tecnologias de união são o cartão de visita de Portugal no planalto sagrado do México, por mais paradoxal que possa parecer ao leitor. O planalto está hoje polvilhado de cidades com centenas de milhar ou milhões de habitantes, de filas intermináveis de veículos e de nuvens de poluição, de zonas industriais apinhadas e de "pueblos" muito pobres nas bermas das auto-estradas que o cortam em várias direcções. Mas a meseta central mexicana foi no milénio anterior palco de civilizações que deixaram uma marca muito forte que hoje é assumida como uma herança indígena distintiva para os mexicanos.

O roteiro é impressionante para qualquer leigo e vale a pena percorrê-lo em poucas linhas, antes de revelarmos como os portugueses "redescobriram" o planalto em finais do século XX. A meia centena de quilómetros da capital mexicana ergueram-se as famosas pirâmides de Teotihuacan, a cidade dos deuses, criada por povos pré-aztecas, que foi considerada, séculos depois, pelos aztecas como lugar de peregrinação e origem do mito da criação do cosmos. Os aztecas - conhecidos por "mexicas" - construiriam no local da actual capital do México uma espantosa cidade em cima de uma laguna, baptizada de Tenochtitlan, que os espanhóis de Hernán Cortés arrasariam, e que hoje está sendo redescoberta por escavações.

É neste planalto que hoje se distribuem diversas instituições tecnológicas e muitas empresas de vanguarda. Numa das suas pontas, no Estado de Puebla, edifica-se hoje não uma pirâmide ao Sol ou à Lua, mas o maior telescópio milimétrico, em que a tecnologia e o controlo de qualidade da soldadura portuguesa darão cartas (ver caixa). No centro da proeza está o Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ), uma instituição tecnológica portuguesa sediada a muitos milhares de quilómetros na área metropolitana de Lisboa, do outro lado do Atlântico. O instituto português é aqui considerado "referência mundial" nesta área de competência, como nos refere Victor Lizardi Nieto, o director geral do Centro de Tecnología Avanzada - CIATEQ, ao receber-nos no complexo principal do centro em Santiago de Querétaro, a velha cidade colonial fundada pelos espanhóis em 1531 em que a herança indígena é muito forte.

A aventura dos irmãos Rojas

A "aventura" tecnológica do ISQ português no planalto dos deuses deve-se a dois irmãos mexicanos da região de Querétaro, Daniel e Eduardo Rojas Gonzalez. Daniel, em virtude de uma especialização em metalurgia e ciência dos materiais, viria a encontrar o ISQ num Congresso e a aceitar uma bolsa em 1990 para frequentar em Portugal um curso de especialização em engenharia de soldadura, através de um convénio entre o instituto português e a Universidade Michoacana de San Nicolás de Hidalgo. Em Portugal, Daniel, com pouco mais de vinte anos, aprendeu rápido o português coloquial e escrito, apaixonar-se-ia, para a vida, por Coimbra e pela soldadura, e viria a participar em projectos europeus até que regressou ao México onde assumiu a direcção da "internacionalização" do ISQ para aquele país.

Daniel, filho de uma família pobre e numerosa da região de Querétaro, envolveu, também, um dos irmãos, Eduardo, que também obteria formação em Portugal e que hoje, com Daniel, é um dos três mexicanos graduados como "engenheiros internacionais de soldadura" pelo Instituto Internacional de Soldadura. Daniel orgulha-se de, nestes últimos anos, ter ajudado a formar no México mais de uma centena de "inspectores" de qualidade em soldadura reconhecidos internacionalmente e de ter "implantado" o prestígio do ISQ em empresas de referência, como a PEMEX, o monopólio petrolífero do Estado Mexicano.

Para consolidar a actuação no campo da soldadura, Daniel avançou com o irmão para a constituição em 2001 do Instituto de Soldadura Y Tecnologías de Unión (ISTUC). «Sentimos a necessidade pessoal de sermos actores no processo de inovação e de transferência de tecnologia na área da soldadura no nosso país», frisa Daniel Rojas num português correcto. O apoio do ISQ sentiu-se desde o primeiro momento. A oportunidade de mercado é enorme - as centrais energéticas de ciclo combinado que estão a ser construídas por entidades privadas e a construção de 20 novas plataformas petrolíferas no off-shore são alguns dos "alvos" do marketing do ISTUC. «O ISQ tem imensa experiência nas inspecções de construção soldada, de qualidade da soldadura, de análise de falha, de avaliação da integridade estrutural dos equipamentos e das unidades industriais, e reconhecido mérito no campo da formação», diz Daniel Rojas.

O passo mais recente do ISTUC foi a assinatura de um convénio com o CIATEQ que visa a criação de um Centro Internacional de Aprovação e Certificação de Técnicos em soldadura com base nos sistemas europeu e norte-americano promovidos pelo ISQ. O Centro ficará instalado no complexo central do CIATEQ em Santiago de Querétaro e beneficiará das sinergias com toda a actividade desenvolvida por esta instituição tecnológica em áreas vitais para a indústria, como os equipamentos, a metrologia, a manutenção industrial, o controlo do fluxo de fluidos e as turbinas.

Visando alargar o seu campo de oferta às empresas, o CIATEQ tem desenvolvido uma estratégia de alianças com outras instituições tecnológicas mexicanas e estrangeiras que lhe permita alargar as suas áreas de intervenção tecnológica, como é o caso das ligações à Catalunha no campo dos moldes (ver caixa). «É um bom modelo de reflexão de como desenvolver este tipo de alianças», frisa Miguel Angel Alcántara, que é um dos directores do CIATEQ, e que tem sido responsável das relações com a Catalunha e com o ISQ em Portugal.

O CIATEQ foi constituído em 1978 fazendo parte do sistema público mexicano de instituições tecnológicas, envolvendo mais de 250 engenheiros. Foi o primeiro centro a ser certificado com a ISO 9000 no país e tem diversos complexos de instalações, quer na cidade de Santiago, como em El Marqués, também no Estado de Querétaro, e em Aguascalientes e em San Luís de Potosí, a mais de 200 quilómetros de distância.

CIATEQ na Web: www.ciateq.mx.

O exemplo da Catalunha
Os moldes são uma oportunidade muito forte no México. Trata-se de um sector que movimenta 600 milhões de dólares por ano com um fluxo de importações enorme, oriundas de Portugal, da Coreia do Sul, da China, de Itália e do Canadá. O apoio tecnológico no terreno a este sector é uma das oportunidades há muito identificadas pelo Centro de Tecnologias Avançadas (CIATEQ) e que a Catalunha soube aproveitar. Um convénio entre o CIATEQ e a Associació Catalana d'Empreses de Motlles i Matrius (Associação Catalã de Empresas de Moldes e Matrizes) tem servido para desenvolver a presença catalã no México. A Associação catalã agrupa 30% da facturação anual de moldes e matrizes em Espanha e envolve 200 empresas. Foi criada em 1979 e é legalmente uma fundação. Além do México, os catalães estão na Argentina, no Brasil, no Chile e na Índia.

Soldadura a 4600 metros
Uma das áreas de intervenção imediata do Instituto de Soldadura e Tecnologias de União (ISTUC) mexicano e do próprio Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ) português vai ser o Grande Telescópio Milimétrico, o maior do mundo no género, que está a ser construído no cume da Sierra Negra, e que é um projecto do Instituto Nacional de Astrofísica, Óptica e Electrónica mexicano e da Universidade do Massachusetts, em Amherst, nos Estados Unidos. O telescópio vai ficar a 4600 metros de altitude, num pico vulcânico no Estado de Puebla, a cerca de 250 quilómetros da capital do México. O ISQ, a partir do seu complexo no Taguspark, em Oeiras, nas imediações de Lisboa, vai avaliar a "performance" da estrutura do Grande Telescópio através de modelações, "uma das competências em que o instituto português é referenciado aqui no México", sublinha Daniel Rojas Gonzalez, director-geral do ISTUC. O instituto português vai, também, apoiar o controlo de qualidade da construção soldada do telescópio em que o Centro de Tecnologias Avançadas (CIATEQ) mexicano está envolvido. O CIATEQ está a fabricar alguns componentes da estrutura do telescópio e trabalha na avaliação das uniões "numa estrutura que é muito delicada", refere-nos Victor Lizardi Nieto, o director daquele Centro tecnológico. Refira-se que os processos de soldadura e de união são particularmente críticos a altitudes tão elevadas, com problemas decorrentes da baixa temperatura.
Mais informações sobre o projecto do Grande Telescópio Milimétrico (The Large Millimeter Telescope) em www.lmtgtm.org.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal