1
Usabilidade e comércio electrónicoA grande maioria dos sites de comércio electrónico actualmente a operar
em Portugal e mesmo na Internet não foram testados com os seus
eventuais clientes futuros.A palavra "usabilidade" tem surgido nos media recentemente, um pouco como uma nova buzzword, ancorada em gurus que ditam regras a ser seguidas inapelavelmente por todos os sites se quizerem vir a ser bem sucedidos. O que é Usabilidade?
Usabilidade é facilidade de utilização. Usabilidade é envolver os utilizadores/clientes finais antes e durante o desenvolvimento de um site, à semelhança do que se faz quando se realizam "focus groups" com novos produtos. Só que utilizar a Net é uma experiência individual, e não de grupo, pelo que esta técnica não é aqui eficaz.
A Internet é um meio relativamente novo, e em Portugal ainda longe de uma adesão generalizada. Mesmo assim, cada vez mais quem está na Net é a "pessoa comum", e não o investigador universitário ou jovem académico, aqueles que rapidamente aderem às novas tecnologias. Cada vez mais são os pais e mães de família, as "pessoas comuns". Que passaram a ter na Internet uma alternativa ao serão à frente da TV.
A maioria dos sites são concebidos, no entanto, por especialistas - como se todos os utilizadores fossem especialistas. Como se não fosse preciso simplificar ao máximo toda a interacção e processos de compra. Esquecendo quase tudo o que se sabe do comércio na "velha economia", mas curiosamente assumindo que o marketting que resulta é o mesmo, e frequentemente esquecendo que o meio é radicalmente diferente. Sem perguntar: "Isto é simples? Os meus pais conseguiam usar isto?".
Existem dezenas de livros sobre usabilidade. Alguns recheados de receitas instantâneas para o sucesso, outros apenas de formas de tornar sites simples. Mas a receita mais elementar é também a mais eficaz: testar os sites com os seus utilizadores. Pedir a uma mão cheia de pessoas para chegar ao nosso site, e procurar um determinado produto ou fazer uma determinada compra. E ficar ao lado a observar, sem fazer comentários.
Na maioria dos casos posso garantir uma reacção de incredulidade, vontade de agarrar esses utilizadores pelos colarinhos e abanar, perante os erros a que são induzidos (recordo que a regra nº1 é: o cliente tem sempre razão – logo, só o site é que pode estar errado).
A quantidade de problemas que tipicamente ocorre é imensa. Muitos destes são pequenos pormenores, outros são difíceis de encarar: mecanismos e navegação que concebemos e pensámos cuidadosamente simplesmente não funcionam e precisam de ser corrigidos. Que o nosso catálogo está mal estruturado, que a pesquisa é ineficaz, que aquela animação de que tanto gostamos é ignorada, que as instruções textuais não são lidas, que o tamanho dos caracteres é pequeno demais, ou que os menus de navegação nem sequer são vistos. Estes são alguns dos problemas típicos.
Assume-se que o que é fácil para quem decide ou desenvolve é fácil para todo o nosso público-alvo. O que não podia estar mais distante da realidade.
Usabilidade tem tudo a ver com o negócio. Tem a ver com não criar entraves ao nosso utilizador, não colocar berlindes no chão a caminho da caixa. Tem a ver com cativá-lo oferecendo um site em que se navega de forma rápida e eficiente. Em que os processos de compra são auto-explicativos. Em que não se perde tempo. Em que se prescinde do que queremos a favor do que o utilizador quer, do que é melhor para ele. Só uma experiência deste tipo pode fidelizar um cliente.
Na tradição Europeia é muito menos frequente testar-se com utilizadores do que na Norte Americana. Empresas como a IBM, Microsoft, Yahoo!, Amazon, fazem testes regulares com os seus utilizadores e clientes. Na Europa é menos comum, mas a "nova economia", se realmente existe, é muito mais competitiva, e dá menos espaço a falhas. Veja-se o sucesso da Nokia face à concorrência, baseada em produtos pensados para os seus utilizadores. Em Portugal, para dar um contra-exemplo, veja-se o projecto da PT intitulado "Cliente Primeiro". Este foi, para a grande maioria dos seus clientes, apenas uma mudança na factura mensal – que agora fala de créditos e débitos enquanto antes apenas referia o montante a pagar e a data limite.
Como diz uma frase conhecida, "a competição está a um clique de distância": se o Continente ou a MediaBooks complicam, há o Pingo Doce Online ou a Webboom.
Usabilidade não é apenas uma nova buzzword. É aplicar uma técnica simples, testar com utilizadores, a um meio onde mais do que nunca isso se tornou vital. É não perder qualquer oportunidade para ganhar uma vantagem sobre a concorrência. É não tentar vencer no mercado descurando o factor chave: os nossos clientes.
|
|
|
|