A Internet deve ser uma zona franca

Ao comércio electrónico, uma actividade nascente, deve ser dada a possibilidade de se desenvolver sem barreiras administrativas adicionais. O modelo adequado é deixá-lo funcionar como uma Zona Franca. Esta é, por ora, a política oficial da Administração Clinton, aqui secundada por Lynn Margherio, uma consultora em estratégia, que é a principal autora do relatório "A Economia Digital Emergente". Ouvimo-la poucos dias depois do lançamento do relatório em Abril de 1998.

Jorge Nascimento Rodrigues com Lynn Margherio, coordenadora do Relatório


Alguns economistas americanos de renome, como Paul Krugman, do MIT, e Paul Romer, de Stanford, criticam o exagero em torno da nova economia, nomeadamente a ideia de que estariam em funcionamento novas "leis", que eliminariam as crises cíclicas e abafariam a inflação. Que evidências encontraram no estudo que fizeram para o relatório?

LYNN MARGHERIO – Ainda não sabemos o suficiente àcerca do impacto total das tecnologias de informação e da Internet na economia actual, mas há um conjunto de tendências que podemos salientar, e que falamos no relatório - as tecnologias de informação influenciaram em média ¼ do crescimento económico nos Estados Unidos nos últimos cinco anos, a baixa dos preços dos produtos digitais fizeram a inflação baixar em 1% no último ano, e criaram-se milhões de empregos altamente qualificados e bem pagos.
Nas empresas é ainda mais visível esta tendência. Praticamente, em todos os sectores, temos noticia e chegam-nos casos do uso da Internet para o corte dos custos nas compras, para a gestão da relação com os fornecedores, da logística e dos stocks, para o planeamento da produção e para uma melhor aproximação aos clientes.

Algumas das estrelas pioneiras da Net e da Web - como a Amazon, que citam no vosso relatório - não são ainda lucrativas, apesar do seu hiper-crescimento nas vendas, o que leva muita gente a interrogar-se como sobreviverão, para mais com a entrada na Net das grandes marcas tradicionais. Como sobreviverá a Amazon, por exemplo, face à entrada da Barnes & Noble (a mais forte cadeia de livrarias norte-americana)?

L.M. – Não é nada de anormal o facto de que, em mercados novos, as empresas operem durante algum tempo no vermelho. A Internet continua ainda a experimentar os melhores modelos de negócio «online». Ainda está nessa fase de "descoberta". Além disso, muitas empresas da Net optam por reinvestir no sentido de aumentarem a quota de mercado e de se manterem na primeira linha da curva tecnológica, em vez de distribuirem lucros. A meu ver, a entrada dos negócios tradicionais na Net potencia imenso o comércio electrónico, o que beneficia tanto as recém-criadas como as empresas estabelecidas

Dos três segmentos do comércio electrónico - entre empresas, a distribuição puramente digital, e a venda virtual a retalho de produtos tangíveis - qual deles está a crescer mais anualmente e qual irá ser o principal mercado de massas na volta do século?

L.M. – O negócio electrónico entre empresas é o que está a crescer mais rapidamente. Alguns analistas estimam em 200 biliões de dólares em 2002 o potencial deste mercado. Outros já falaram de 1 trilião de dólares. Por outro lado, alguns produtos e serviços distribuídos digitalmente estão, também, a crescer rapidamente. Pelo ano 2000, as vendas «online» de viagens poderão chegar aos 5 biliões de dólares, ou 7% das receitas actuais. Também a bolsa virtual é muito popular.
Segundo Piper Jaffrey devem ter sido gerados uns 614 milhões de dólares em comissões para «brokers» no ano passado, ou seja 4% das comissões totais. São pequenos nichos com algum significado para um negócio emergente. Também, espero que as vendas de «hardware» e de «software» continuem a ser grandes mercados «online», a par dos livros, da roupa, da música e dos jogos.

Como sabe uma das barreiras psicológicas que mais afecta o impulso das pessoas para fazerem operações completas de compra via Internet, é a falta de segurança que sentem ao darem o número do cartão de crédito. Como é que as pessoas podem ser convencidas?

L.M. – As pessoas começarão a sentir-se mais à vontade, à medida que os seus amigos e conhecidos lhes relatarem experiências positivas. Um dos passos importantes pode ser dado pelas próprias empresas que devem publicitar nas suas páginas na Web as suas políticas de privacidade e segurança de transações.

Os governos devem regular ou não o comércio electrónico com novos impostos e novas barreiras aduaneiras?

L.M. – A política oficial norte-americana é de que a Net deve ser uma Zona Franca, e que o comércio electrónico não deve ser penalizado em relação a outras formas de comércio, nomeadamente com novos impostos. Eu pessoalmente concordo com esta posição.

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