Manobras entre "gorilas" na Web

Jorge Nascimento Rodrigues em Palo Alto

A Sede da Netscape em Mountain ViewAs manobras táticas na tecnologia são quase diárias no Silicon Valley entre o que se passou a cognominar de "jogo dos gorilas", desde que Geoffrey Moore (gmoore@chasmgroup.com), o fundador do The Chasm Group (www.chasmgroup.com) em San Mateu, escreveu The Gorilla Game, editado pela HarperBusiness, e que dispõe de um «site» próprio em www.gorillagame.com (Compra do Livro).

Estes simpáticos animais dão nome às empresas nascidas ou renascidas nesta região da Califórnia com a nova vaga da "indústria da rede" que manifestam um hipercrescimento assombroso nos principais indicadores de negócio, e que estão a marcar o ritmo do mercado digital.

As novidades são obviamente conhecidas dos "aficionados" da alta tecnologia (ou do leitor mais curioso que pode diariamente recorrer ao San Jose Mercury News, a bíblia noticiosa, na Web em www.mercurycenter.com/business), e o que hoje se ouviu dizer, amanhã já é obsoleto para quem está sempre na vanguarda. Mas o que importa «ler» são as tendências de fundo que essas manobras acarretam e popularizá-las, como nos sublinha Peter Cohan, um dos principais estudiosos das dinâmicas do Vale mais célebre da Califórnia, que recentemente escreu The Techonology Leaders, inspirado, em parte, ali (ver em www.janelanaweb.com/livros/ficha21.html).

Clique Entrevista Entrevista Exclusiva a Peter Cohan sobre o Silicon Valley

Controlo da arquitectura

Cohan está a preparar um novo livro - já baptizado muito a propósito de Net Profit - Who Makes Money on the Web and How They Do It - em que destaca a importância estratégica do que chama de "tecnologias de alavancagem" que permitem "vender um produto ou serviço que conduza à organização em torno de si dos esforços industriais e de serviços de terceiros, como na anterior vaga da informação aconteceu com a Intel e o «chip» e a Microsoft e o sistema operativo".

Na sua recente conferência na Universidade de Stanford, Cohan voltou a realçar o posicionamento estratégico na tal indústria da rede da Cisco Systems (http://www.cisco.com), de San José, com os «routers», uma máquina essêncial para o encaminhamento de dados na rede, que desempenha o papel de sinaleiro e carteiro.

Como o salienta, por seu lado, Geoffrey Moore, este domínio é um dos aspectos que catapultaram a Cisco para o lugar de um dos "gorilas" do Vale mais invejados. "O poder de um gorila baseia-se no controlo de uma dada cadeia de valor. Este controlo tem o seu fundamento no que os especialistas chamam de arquitectura e, quando esta é controlada por uma dada empresa-pivot ou por um grupo, o domínio do coração do mercado é a consequência natural. E ter esse controlo no momento exacto em que uma dada indústria, como a das redes, entra na fase de tornado, é sair a sorte grande", explica Moore para destacar o papel daquela empresa.

Os portões bilionários

Nos últimos doze meses, as atenções concentraram-se no Yahoo!, um directório na Web criado por dois estudantes de Stanford em 1995, e já considerada uma das mais recentes «killer apps» (aplicações mortais, do ponto de vista do sucesso no mercado) do Silicon Valley pela dupla Larry Downes (edownes@best.com), aqui de Los Altos, e Chunka Mui (cmui@diamtech.com) da Diamond Technology Partners (http://www.diamtech.com), que acabam de publicar o livro Unleashing the Killer App - Digital Strategies for Market Dominance (Compra do Livro), pela Harvard Business School Publishing, e que já dispõe de um «site» próprio na Web (em http://www.killer-apps.com).

Rapidamente se disseminou o conceito de "modelo Yahoo!", mas foi Walid Mougayar, da rede CommerceNet (http://www.commerce.net), que desvendou o truque. Aquele directório de informação é uma verdadeira meca para visitantes, transformando-se num superintermediário gigante. Os especialistas chamam-lhe "portão de entrada" na Web e é o segredo para muitas dezenas de milhões de visitantes fieis por mês, que arrastam a necessidade de muitos outros «sites» se alojarem nesses nós da Web com botões de ligação (para as suas próprias páginas) ou anúncios. O que rende biliões de dólares por ano. Os tais "portões" são autênticos clubes bilionários, com "alugueres" que vão dos 500 mil dólares aos 20 milhões por ano para cada caso.

Não admira, por isso, que um dos movimentos estratégicos da Netscape, a pioneira dos «browsers» sedeada em Mountain View, seja transformar o seu «site» num tal portão, com o NetCenter On Line Services (http://home.netscape.com/netcenter/index.html). Explica-nos Laura Yaces, directora internacional de marketing: "O nosso «site» é altamente lucrativo, é mesmo o primeiro em facturação, apesar de estar em segundo lugar, depois do Yahoo!, em termos de visitas. Representa cerca de 10 por cento da nossa própria facturação. O nosso objectivo é transformá-lo num verdadeiro «hub» da Web".

Para esse efeito, concluirão até meados deste ano o "Projecto 60" (de 60 dias), que visa também reforçar as potencialidades em "comunidades de interesse". Esta é outra palavra chave hoje em dia na indústria da Web.

As comunidades virtuais

Através do NetCenter Professional Connections e de um directório de membros, o NetCenter da Netscape pretende favorecer a fidelidade ao «site» através da vida comunitária de gente com interesses comuns. No mesmo sentido, está a trabalhar a Sun Microsystems com o seu projecto piloto de software para «servers» comunitários (ver em http://www.sun.com/communityserver/index.html), refere-nos Karen Miller, da Solaris Software Division daquela empresa.

O conceito não é muito diferente do que aconteceu com as pessoas que se juntam em «newsgroups» para debaterem determinado tópico. Muitos «sites» já incorporam também áreas de «chat» para os visitantes trocarem ideias e discutirem entre si. Mas isto "é uma parcela restrita, e tem que ser potenciada com uma visão de mercado", sublinha Walid Mougayar, da rede CommerceNet.

Esta empresa, que se intitula de "incubadora de mercados digitais abertos" - e que está envolvida no nascimento da própria Netscape, bem como de outras «estrelas» célebres recentes, como a I/PRO, a Open Market, a Cyber Cash e a Business Bots -, tem vindo a desenvolver modelos de COINs ("comunidades de interesse em rede") em mercados verticais, como o financeiro, o retalho, o imobiliário, o editorial, a distribuição, e as cadeias de fornecedores na electrónica, automóvel e software.

O coração do projecto da Sun é um software designado precisamente de SunCOIN. Ele está a ser testado internamente este mês na Universidade de Stanford e fala-se, também, de outro projecto-piloto com o Silicon Valley World Internet Center (http://www.swic.com), em Palo Alto. O software deverá ser comercializado no próximo Verão, segundo anunciou a Sun.

Lançar sementes à Web

Outra das estratégias em voga é a de software "semente", procurando ganhar a hegemonia entre os desenvolvedores, programadores e empresas interessadas em personalizar as tecnologias ligadas ao «browser». "Semear no mercado dos profissionais e das empresas ligadas à Web é o objectivo da Netscape ao tomar uma série passos no sentido de disponibilizar na Web gratuitamente a fonte de código do próximo Communicator 5.0 e ao ter lançado recentemente os programas de Distribuição Ilimitada do Netscape e de Localização Universal", sublinha Laura Yaces.

Com a "liberalização" da fonte de código do próximo Communicator (que pode ser descarregada a partir de http://www.mozilla.org), a Netscape visa matar dois coelhos de uma cajadada, segundo Yaces: "Por um lado ganhar o apoio para este «standard», e por outro apostar na co-criação, alavancando o incrível talento que existe disperso na Net entre desenvolvedores e programadores".

Os programas de distribuição ilimitada (inscreva-se em http://home.netscape.com/comprod/netscape_partner_programs/browser_distrib/), com mais de 50 milhões de cópias já distribuídas desde princípio do ano, e de «localização» (este pode ser acedido através de http://www.mozilla.org) permitem o que os gurus de gestão chamam de «customização» por parte dos clientes. Por exemplo, um utilizador poderá criar o «browser» do seu gosto, com a sua marca própria, ou criar um «browser» mais adequado a determinados segmentos de utilizadores, como crianças nomeadamente.


No coração do Alta Vista em Palo Alto

No coração da Alta Vista em Palo Alto – visita ao «bunker» onde repousa a artilharia pesada que permite o funcionamento ao segundo do maior motor de pesquisa do mundo

O Guardião da AltaVista Ninguém lhes tira o palmarés de terem sido pioneiros nos motores de pesquisa e na criação de uma das maiores bases de dados do mundo Web hoje com mil inquéritos por segundo e com uma capacidade de resposta abaixo do meio segundo. O Alta Vista detém 54 por cento de quota no mercado das pesquisas na Web, seguido a muita distância pela Excite.

É claro que este episódio de criação de um motor de pesquisa passou-se apenas há três anos, mas já é história com barbas neste tempo super-rápido da Internet. "A tradição inventiva é uma das «manias» dos Laboratórios da Digital", diz-nos, no meio de uma gargalhada, Paul Flaherty (flaherty@pa.dec.com), o «pai» do Alta Vista, ao receber-nos em Palo Alto.

Os "Labs" são quase como um mundo à parte na Digital e ficam, muito a propósito, numa das esquinas da célebre Avenida da Universidade (que mais adiante irá dar a Stanford). Alta Vista era o nome de código do projecto, que surgira, ao acaso, da mistura de um derivativo de Alto (de Palo Alto) e do Sierra Vista Club de Mountain View.

Paul teve a ideia do Alta Vista numa conferência de bases de dados em Florença, em Março de 95, onde acompanhou a mulher que ía apresentar um «paper», e na vinda conseguiu mobilizar dois outros crâneos dos Laboratórios, Louis Monier e Mike Burrows, que inventariam uma série de coisas fundamentais para o motor nascer. Em Dezembro desse ano vinha a público. Agora o «filho» de Paul é um adulto, que "de vez em quando regressa a casa do «pai» para discutir algumas coisas".

Por detrás da «performance» está um «bunker» de máquinas, onde reside o coração do Alta Vista. É um espaço de acesso hiper-reservado, onde pontifica Phil Steffora (steffora@pa.dec.com), o director de operações. Ele veio para aqui em Abril de 96 e herdou "um bébé com um apetite voraz para as nossas TurboLasers (os servers Alpha 8400, com uma rapidez incrível)".

A estratégia do Alta Vista tem sido acrescentar novos serviços que surpreendam o utilizador. Um dos últimos foi o serviço de traduções em parceria com a Systram francesa. Ele abarca já o espanhol ("a língua em maior crescimento na Web", frisa Paul Flaherty), o francês, o português, o alemão e o italiano. Dentro em breve, terá o japonês e o chinês.

É claro que o serviço está longe de ser perfeito - os testes que o próprio leitor poderá fazer (em http://babelfish.altavista.digital.com/cgi-bin/translate?) apontarão para uns 50 por cento de fiabilidade. Dá para ter "uma ideia" do documento que queremos ler ou indicar a alguém que fala outra língua.

Dentro em breve, surgirão novas utilidades, como a procura de arquivos multimedia, a procura com filtragem e inclusive o começo de "localização" da informação, iniciada com o "espelho" da Alta Vista no Canadá. Paul Flaherty não deixou de sublinhar a estratégia inteligente da Telefonica espanhola - ela não só criou um "espelho" para a Península Ibérica, como "estendeu" o seu campo de acção a toda a América Latina.

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