A última oportunidade no Mercosul?

A 2ª Cimeira da União Europeia, América Latina e Caraíbas que se realiza
em Madrid no próximo dia 17 de Maio é o momento decisivo para os dois países ibéricos jogarem a cartada estratégica sul atlântica. Os Estados Unidos pressionam para um Acordo de Comércio Livre das Américas
já em 2003 que poderá "engolir" de vez o Mercosul. E se isso acontecer,
as estratégias empresariais ibéricas e europeias naquela região serão afectadas. Proposta a criação de uma Associação Ibérica para a Cooperação entre PME.

Jorge Nascimento Rodrigues em Madrid

Mesa Redonda organizada pelo Expresso com apoio da Delegação do ICEP em Madrid
e da Agência para o Investimento no Norte de Portugal

O Mercosul está numa encruzilhada, não só por efeito da crise sem saída à vista na Argentina, pela incógnita sobre os resultados das próximas eleições brasileiras, como pelas pressões internas (do próprio presidente do Uruguai e dos industriais do Paraguai) e de vizinhos próximos (Chile) para uma adesão ao Acordo de Comércio Livre das Américas proposto insistentemente pelos Estados Unidos. A pressão vai no sentido de um acordo antecipado já para 2003, aquando da Cimeira das Américas em Quebeque, enquanto que o acordo de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul só está previsto concluir-se em 2005. Um intervalo de dois anos que se poderá revelar fatal.

A realização da 2ª Cimeira da União Europeia com a América Latina e as Caraíbas agendada para 17 de Maio próximo, em Madrid, sob a égide da presidência comunitária por parte de Espanha parece, por isso, ser um momento decisivo, que continua ensombrado pelas movimentações dos lobís europeus ligados aos produtos agrícolas "sensíveis" e pelos efeitos futuros da onda de choque dos resultados da primeira volta das eleições francesas.

Cimeiras retóricas

«A viragem estratégica da União Europeia para a América Latina deveu-se ao esforço dos dois países ibéricos que vêm a importância geo-política deste relacionamento bi-regional», refere-nos Álvaro Vasconcelos, director do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI), sediado em Portugal, que organizou, esta semana, na Casa de América, em Madrid, um debate preparatório sobre a Cimeira. O responsável do IEEI participou, também, numa mesa redonda organizada pelo Expresso, em que sublinhou a importância de não se repetirem «cimeiras retóricas». «Pode ser inclusive a última oportunidade a breve prazo, dado que as presidências comunitárias seguintes - a Dinamarca e a Grécia - sairão fora deste enquadramento geo-estratégico», afirmou Nuno Almeida, da Comissão de Coordenação da Região Norte portuguesa, um especialista ligado aos mercados da América Latina.

A par deste problema geo-político, o balanço da vaga de investimentos ibéricos recentes na América Latina revela dois pontos de fraqueza: uma boa percentagem é olhada como de «carácter rentista», frisou Álvaro Vasconcelos, e esteve muito centrada nos movimentos de grandes grupos, que, ainda, «não arrastaram um aumento de trocas comerciais, nem provocaram um efeito de arrastamento de PME», sublinhou, por seu lado, José Vital Morgado, delegado do ICEP em Madrid.

Alguns sinais promissores são, no entanto, visíveis na área do "cluster" automóvel, tendo Nuno Almeida referido o caso dos investimentos da Simoldes (grupo de componentes português) no Brasil e «a visão estratégica da liderança da Auto-Europa que percebeu a centralidade estratégica da fábrica em Portugal se o objectivo for a América Latina com base na próxima plataforma que irá montar a partir de 2003».

Como ir de braço dado

«O problema maior é que não tem havido um movimento por parte de PME. O mercado ibérico serviu como plataforma para a América Latina, como no caso da PT e da Telefónica no Brasil, mas a maioria do tecido empresarial ibérico está de costas viradas», refere Antonio Viñal, um advogado galego com escritórios em Santiago de Compostela, Madrid e Lisboa, e que tem acompanhado negócios dos dois lados da fronteira e algumas triangulações para o Atlântico Sul. «Uma das soluções poderá ser a criação de uma Associação Ibérica para a Cooperação, uma iniciativa privada, que se dirija prioritariamente às PME ibéricas, informando-as das oportunidades, apoiando a estratégia empresarial, e fomentando 'casamentos' para mercados terceiros», adiantou este advogado de negócios.

O efeito de "ir à boleia" dos grandes grupos poderia ser melhor potenciado, referiram vários dos participantes neste debate. Casos como o da Sonae ou de grupos financeiros espanhóis foram citados «como podendo ter feito mais ou vir a fazer para levar as PME ibéricas no movimento de internacionalização para a América Latina».

De qualquer modo, há uma barreira cultural a vencer nos empresários deste lado do Atlântico, refere, por seu lado, Elisabeth van't Hooft, uma holandesa que se dedica à formação de empresários e quadros, e que, depois de ter estado em Portugal, baseou-se, agora, em Madrid. «O medo da incerteza é mais acentuado entre os empresários portugueses do que em Espanha. Os espanhóis são mais rápidos a tomar decisões, apesar dos portugueses serem historicamente mais 'sensíveis' ao Atlântico», comenta. O marido, Dick Bleyerveld, implantou o grupo de consultoria internacional DHV em Portugal ao longo dos últimos nove anos, onde conta com 350 quadros, e agora está a arrancar com a firma em Espanha, tendo, também, criado uma sucursal em São Paulo, no Brasil. Ele acentua que a questão essêncial na implantação na América Latina é a criação de uma «rede local» e a capacidade de trazer inovação «injectando 'know how' internacional».

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