O português de Los Alamos

Um «raid» do Ardina na Web na Nova Meca da Complexidade

No interior norte do Novo México, Luis Rocha, um investigador formado no Instituto Superior Técnico, de Lisboa, dirige um dos grupos de investigação de referência mundial em vida artificial , a sucessora da inteligência artificial.

Perfil de Luís Rocha | Página na Web de Luís Rocha
Portugueses no Novo México (rede do PAPS) | Web adaptativa
Algoritmos de inspiração biológica
Divisão de Computer and Computational Sciences
Artigo sobre Vida Artificial disponível na Janelanaweb

Jorge Nascimento Rodrigues com Luís Rocha em Los Alamos

Luis Rocha (segundo a contar da direita) com alunos Saíu de Portugal há dez anos a contracorrente da linha dominante na área da inteligência artificial e foi a expensas próprias que Luís Rocha se foi doutorar a Nova Iorque, antes de ser convidado para o quadro de investigadores do Los Alamos National Laboratory (LANL), na mítica Los Alamos, nos Estados Unidos. Este português de 35 anos lidera hoje um dos grupos de referência mundial na investigação em vida artificial que está radicado nesta Nova Meca americana da ciência e da tecnologia localizada no interior norte do Novo México.

Ele sente «saudades do Oceano» e gostaria de regressar a Portugal, mas o meio académico nacional ainda está cheio de «regras caricatas». Vem a Lisboa em Novembro a um segundo seminário internacional organizado por uma Missão multidisciplinar liderada por Fernando Gil junto do ministro da Ciência e do Ensino Superior, que já abordou o problema da crença, irá agora discutir a vida artificial e a nova robótica, e tem em preparação para 2003 outras áreas como as ciências biomédicas e a modelização e outros temas como a forma.

O segredo biológico

Luís Rocha virá mostrar que os algoritmos «adaptativos» de inspiração biológica em que trabalha são a melhor ponte para se compreenderem os problemas da cognição e para se criarem aplicações de vida artificial - aplicações que abram uma vasta avenida de oportunidades tecnológicas e de aplicações às mais diversas áreas, da economia, aos mercados financeiros, à energia, à investigação criminal ou à saúde.

A área em que trabalha na Divisão de Ciências Computacionais do LANL é denominada de grupo de modelação, algoritmos e informática (Modeling, Algorithms and Informatics Group), uma das vertentes estratégicas das ciências da complexidade, a actual área científica emergente desde o final do século XX.

A ideia é que a biologia é provavelmente a abordagem mais adequada para as questões da inteligência artificial (IA) e das suas aplicações práticas. «A IA tradicional vê a inteligência como manipulação de símbolos e gera sistemas periciais, enquanto que a corrente em que me insiro, a da vida artificial, vê a inteligência como resultante emergente de processos dinâmicos», diz Luís Rocha. De um lado, a abordagem tradicional encara a inteligência como algo em separado; enquanto que a corrente da vida artificial insiste em que isso é «um absurdo» e que «a inteligência está ligada a um corpo que tem necessidades específicas num determinado ambiente», refere o nosso interlocutor.

O que isto significa, para leigos, é que em vez da focalização da investigação e das aplicações na programação tradicional procurando «simular» artificialmente tal inteligência, os grupos especializados em vida artificial preferem fazer duas coisas:
- construir robôs virtuais ou físicos que se adaptam às circunstâncias sem estarem estritamente pré-programados para tal;
- ou criar modelos computacionais de inteligência distribuída inspirada em sistemas complexos, como as sociedades de insectos, o comportamento dos sistemas imunológicos ou as redes neuronais.

A chave geral para o entendimento deste novo paradigma está no conceito de «sistema complexo», «um sistema de muitos componentes - quer processos, quer agentes, por exemplo - cujo comportamento agregado não é linear, ou seja não deriva da soma aritmética dos comportamentos individuais», refere.

Luís Rocha vê, no entanto, uma ponte entre as duas linhas divergentes e trabalha com a sua equipa em Los Alamos «estudando sistemas complexos que se auto-organizam para estabelecer processos simbólicos».

O futuro da Web

A investigação que o português de Los Alamos desenvolve tem directamente a ver com o futuro da Web, onde também se confrontam implicitamente duas perspectivas que se inspiram nas duas abordagens anteriores.

Desde 1999, que o criador da World Wide Web, Tim Berners-Lee, actual director do Consórcio W3 Consortium que em Cambridge (Boston) coordena o desenvolvimento da Web, colocou a meta de criação de uma web «semântica». Esta web é uma «teia» de dados que poderiam ser compreendidos e processados directa ou indirectamente pelas próprias máquinas, recorrendo a uma semântica relacionando as diferentes formas de dados. Comenta o nosso interlocutor: «Esta abordagem explicada no livro de Tim, 'Weaving the Web', está mais próxima da linha da IA tradicional. Ela permitiria aos 'browsers' e aos motores de pesquisa dar recomendações mais adequadas ao que o utilizador pretende, mas estas recomendações correm o risco de ser demasiado pré-especificadas e pouco adaptativas, uma vez que se baseiam nas ontologias criadas pelos peritos e pelos autores».

«Weaving the Web: The original design and ultimate destiny of the WWW
by its inventor», edição Harper, paperback de Nov 2000

Luís Rocha e outros grupos de vida artificial trabalham em prol do que baptizaram de «web adaptativa», usando algoritmos de inspiração biológica «capazes de se adaptarem aos padrões de utilização das páginas web e que aprendam com os utilizadores».

Enquanto que a primeira linha de investigação parte dos «guardiões» da Web e dos seus fornecedores de conteúdos, a segunda procura adequá-la à sua «clientela» e funcionar no paradigma da aprendizagem, agora também na moda. Luís Rocha crê, contudo, uma vez mais, que é possível estabelecer pontes entre as duas abordagens.

PERFIL
Dos algoritmos biológicos a DJ numa rádio local
Com uma licenciatura em engenharia mecânica no Instituto Superior Técnico, Luís Mateus Rocha prendeu-se de amores aos vinte e poucos anos pela inteligência artificial (IA), mas teve o aparente azar de olhá-la de uma forma diferente da linha então dominante. «Quando encetei por esta abordagem era quase impossível fazer IA que não fosse pela via tradicional em Portugal», recorda. Além de não ser bem aceite, a visão a que aderiu Rocha era «mesmo desencorajada».
Pelo que não lhe restou outra alternativa senão deixar Lisboa em 1992 e rumar a Nova Iorque para um doutoramento. «Tive de pedir um empréstimo bancário com juros altíssimos, pois só consegui a bolsa da antiga JNICT, ao abrigo do programa Ciência, mais tarde», prossegue.
Viria a leccionar uma cadeira de vida artificial na State University de Nova Iorque, onde se doutorou, e os conteúdos do curso que lá ministrou ainda hoje são dos mais procurados na web.

Curso sobre Vida Artificial de Luís Rocha

Em 1994 e 1996 ganhava o Prémio de melhor artigo científico apresentado na bienal europeia sobre Cibernética e Investigação em Sistemas. Uma ida ao Santa Fe Institute, no Novo México, dar-lhe-ia um convite para um pós-doutoramento nos Los Alamos National Laboratory, para onde veio em 1997. No ano seguinte era enquadrado no corpo de investigadores e passava a liderar uma equipa, onde hoje tem um português, Tiago Simas.
Luís Rocha já levou a Los Alamos vários investigadores portugueses como Carvalho Rodrigues do INETI, o histórico da IA portuguesa Hélder Coelho, Rita Ribeiro da Universidade Nova de Lisboa e o luso-brasileiro Tessaleno Devezas radicado na Universidade da Beira Interior, que acabou de concluir um período de investigação em Los Alamos.
Costuma vir a Portugal dois meses por ano como professor convidado fazer investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência e no Instituto de Sistemas e Robótica do IST.
Nascido em Luanda (Angola, quando ainda colónia portuguesa), casado com uma americana e esperando um segundo filho, Luís Rocha tem uma paixão pela música pop electrónica e pelo jazz e, depois de ter actuado como vocalista em bares locais de Nova Iorque, ainda faz hoje uma «perninha» de DJ numa rádio local de Los Alamos. O último livro que leu e que o marcou foi «O Nosso Futuro Pós-Humano: Consequências da Revolução Biotecnológica», de Francis Fukuyama, e confessa ter um vício pelo cinema. Minority Report, de Steven Spielberg, Matrix e Being John Malkovich (Queres ser John Malkovich) foram algumas das últimas paixões.
Além de Luís Rocha e Tiago Simas, estão em Los Alamos noutras áreas Ruy Ribeiro num pós-doutoramento em biologia teórica, Luís Teodoro em astrofísica e Marta Chaves, uma aluna no Center for Nonlinear Studies. O Laboratório oferece condições muito aliciantes para alunos de doutoramento e pós-doutoramentos.

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