Tudo sobre a sua cidade num «click»

«Start-up» espanhola invade mundo latino com portais locais e dispara facturação em 2000, com presença em 100 cidades de sete países
do Arco do Mediterrâneo (Portugal, Espanha, França, Itália)
e da América Latina (Argentina, Brasil e México)

Jorge Nascimento Rodrigues na LaNetro em Madrid

Versão adaptada publicada no semanário português Expresso

LaNetro em Portugal investe 800 mil contos | As apostas tecnológicas
Site central da LaNetro | Portal em Portugal com Lisboa e Porto já disponíveis
Denunciantes.com, um dos mais originais portais de expressão da cidadania local | Outros Heróis da Web | Version en español
Artigo sobre a Geofactory do grupo LaNetro

Aos nossos leitores no Brasil e Argentina portais disponíveis em
http://brasil.lanetro.com e http://argentina.lanetro.com

Javier DolsetÉ uma das «start-ups» revelação do ano 2000 no país vizinho. Vai fechar o ano de final de século com mais de um milhão de contos de facturação, tendo crescido 20 vezes em relação à facturação de 1999. E no seu segmento de negócio na Web foi pioneira com presença local em cerca de 100 cidades em sete países de línguas e culturas de base «latina».

Dois «hermanos» então na casa dos vinte anos resolveram lançar um negócio na Web virado para a informação de cariz local, dirigida ao cibernauta urbano espanhol. Misturaram Net (de Internet) com metrópoles e encurtaram o palavrão nascido - «netrópolis» - para LaNetro, uma «dot.com» nascida em Madrid em 1996 no seio de um grupo familiar empresarial, em que se destacam os filhos Javier e Ignacio Pérez Dolset, ligados à Proeinsa, uma pioneira da distribuição de jogos electrónicos em Espanha, fundada pelo pai Juan Antonio Pérez Ramírez.

O espaço pessoal

Dizem os estudos que o essêncial da nossa actividade pessoal e profissional se circunscreve habitualmente a um raio de 25 a 30 quilómetros. «A nossa aposta foi focalizar neste tipo de portais verticais especializados na informação de lazer, entretenimento e de conveniência a nível local. Montar um serviço para este espaço pessoal», diz-nos Javier Dolset, hoje com 31 anos, e líder da LaNetro.com, que, entretanto, se sediou a 20 quilómetros de Madrid, num Complexo Empresarial novinho em folha em Las Rozas.

A ideia simples era permitir com um «click», a qualquer hora, escolher o restaurante ou o bar onde ir, comprar o bilhete de cinema, saber que eventos culturais estão em curso. Ao fim de quatro anos completaram a cobertura geográfica de todas as províncias espanholas (incluindo as ilhas e os enclaves em Marrocos) e posicionaram-se em mais três países europeus (Portugal, França e Itália) e noutros três na América Latina (Argentina, Brasil e México).

Nesta «aventura» já investiram 6 milhões de contos e estimam investir mais 5 milhões até 2003. Este «cash» veio sobretudo de investimentos pessoais da família, de outros sócios fundadores (como José Miguel Herrero), de grupos económicos espanhóis (como o Innova de Juan Abelló e o Abengoa dos irmãos Benjumea) e de uma capital de risco inglesa, a Palamon Capital Partners LLP.

Os portais da LaNetro em Espanha (na Web a partir de www.lanetro.com) já oferecem uma gama ampla de funcionalidades, desde diversos Guias (incluindo um para «adultos»), canais temáticos ligados ao lazer e entretenimento, serviços diversos (desde «chat», e-mail gratuito, avisos, classificados e venda de bilhetes) e serviços «pessoais» (como anúncios e horóscopo até pontos de encontro amorosos e consultório sentimental).

A plataforma da LaNetro procura diferenciar-se da restante oferta europeia e internacional não só pela vastidão da informação local e regional, como através de dois ingredientes: um serviço de mapas («callejero» no original em castelhano) baseado numa tecnologia de cartografia digital e geoposicionamento em formato «Flash» (da Macromedia) criada por uma participada, a Geofactory Technologies, de Santander, e um rápido posicionamento na oferta de conteúdos e serviços em WAP para telemóveis (eventos, tráfego rodoviário, telefones úteis, sítios e correio, consultáveis em http://wap.lanetro.com).

LaNetro EM NÚMEROS
  • Fundada em 1996 por dois irmãos de vinte e poucos anos depois da venda da sua participação na TeleLine (embrião da hoje famosa Terra) à Telefónica
  • Facturação passa de 60 mil contos em 1999 para 1,2 milhões de contos no final deste ano (2000)
  • Investimentos entre 1996 e 2000: 6 milhões de contos
  • Investimento adicional previsto até 2003: 5 milhões de contos
  • Presença em 7 países (incluindo Portugal e Brasil) com 500 trabalhadores e colaboradores (em finais de 2000)
  • Cultura latina com lucro

    Com vista a ganhar massa crítica, a LaNetro rapidamente desenhou uma estratégia de internacionalização com base na «customização» da sua plataforma noutros países com culturas e hábitos urbanos similares. «O mundo latino era o nosso destino natural. Começámos por Portugal por razões de proximidade. Há uma cultura latina, mais romântica, aberta, extrovertida, virada para o lazer e o entretenimento, em que queremos ser líderes», explica o fundador da LaNetro, não deixando de revelar um pequeno segredo - o nosso país tinha um outro atractivo, o surf, em que ele é viciado.

    Com um investimento acumulado previsível de mais de 11 milhões de contos em sete anos (até 2003), a LaNetro pretende provar que na Web também são possíveis modelos de negócio rentáveis, tal como na velha economia industrial e da informática. É sabido como a fase inicial deste tipo de projectos é capital intensiva em custos de construção do negócio, e nomeadamente quando com dimensão internacional. Por isso, a LaNetro quer criar uma dinâmica de lucros operacionais «o mais cedo possível», como aconselham os teóricos do modelo de geração de lucros na Nova Economia.

    Neste sentido, em Espanha, já foram alcançados, desde meados do ano, lucros operacionais, e Javier é peremptório: «Pretendemos manter-nos independentes e ser lucrativos globalmente», garante. «Na tecnologia pode ser-se louco, mas na gestão tem de se ser prudente», é uma das máximas da família. «Adoptámos, por isso, uma mistura de rigor empresarial, inspirado na ‘velha’ economia, com a motivação das pessoas, a distribuição de ‘stock options’ pelos colaboradores e a aposta na Nova Economia», prossegue.

    As fontes de receita não têm segredo. O «cash» vem hoje em 50% do lado da publicidade «on-line» (já dominou mais de 90% da facturação) e em pouco mais de 40 por cento de uma área emergente – a da venda a terceiros de informação de marketing e de análise comportamental dos cibernautas e de serviços de geoposicionamento, provavelmente a «galinha dos ovos de ouro» do futuro. O comércio electrónico dirigido ao utilizador detém menos de 10% da facturação e baseia-se nomeadamente em produtos como vídeos em formato DVD (um outro negócio do grupo) e bilhetes para espetáculos.

    O «crash» bolsista em curso desde Abril deste ano no NASDAQ, levou-os a adiar o IPO no Nuevo Mercado em Madrid. Mas Javier Dolset diz estar tranquilo: «Temos auto-financiamento suficiente. Não precisamos de ir buscar fora mais dinheiro. Aguardaremos pela altura certa para ir à Bolsa».

    Filhos dos vídeo-jogos

    O vírus das «novas tecnologias» atacou os irmãos Pérez Dolset ainda eles andavam de bibe. Javier e Ignacio são espécimes típicos da «geração da informação» dos anos 70 e 80. «O meu pai deu-nos o primeiro computador aos cinco ou seis anos e pelas nossas mãos passaram mais de dez mil jogos electrónicos», conta Javier. A cultura «tecnológica» empurrou-os para a primeira aventura empresarial aos 19 anos, quando os dois irmãos criaram uma empresa na área da edição electrónica.

    Depois viriam a transformar o «bichinho» dos jogos em actividade profissional e reestruturaram a área de software do grupo familiar, criando, a dado passo, a Pyro Studios, dedicada ao lançamento de vídeo-jogos saídos da equipa de criativos espanhola. «Commandos», um dos recentes, já vendeu mais de 1,5 milhões de cópias no mundo.

    A jóia da coroa deste empreendedorismo «high-tech» foi, em 1993, a criação, a meias, com a Telefónica, da TeleLine, o primeiro ISP (fornecedor de serviços Internet) em Espanha, que foi o embrião da hoje famosa Terra. Os irmãos venderiam a sua participação na TeleLine e avançaram para projectos próprios na Web.

    AS APOSTAS TECNOLÓGICAS
    A ubiquidade futura da Internet e da Web e a expressão da cidadania através do ciberespaço são duas vertentes que estão a moldar o desenho da estratégia da LaNetro.
    A diversidade de instrumentos para acesso à Net – para além do computador pessoal – levou a multinacional espanhola a apostar, desde cedo, na tecnologia WAP, onde foram pioneiros na oferta de serviços locais (na Web em http://wap.lanetro.com). A LaNetro é um dos fornecedores do Portal pan-europeu Mviva (na Web em www.mviva.com) potenciado pela AOL para a tecnologia WAP e que funciona em cinco países (incluindo Espanha). Em breve, o serviço de geoposicionamento (já a funcionar nos portais na Web) será estendido à plataforma WAP, garantiram-nos no departamento de tecnologia e desenvolvimento. Na calha estão também as aplicações para as próximas gerações de telefones.
    «O passo seguinte que estamos a preparar é a nossa entrada noutro tipo de aparelhos de comunicação para plataformas Windows em assistentes pessoais - os PDA - e em ‘palmtops’», refere-nos Isabel Arcones, directora de tecnologia e desenvolvimento, um quadro de 36 anos que trabalhou durante treze anos na Telefónica, e que largou o gigante para aceitar o desafio colocado por Javier Dolset.
    Mas os olhos de Isabel Arcones brilham quando fala da criação de um portal específico para a expressão da cidadania dos espanhóis - o Denunciantes.com (na Web em www.denunciantes.com), anunciado como «o local para qualquer um levantar a voz, e opinar, denunciar e protestar sobre os temas que o preocupam». Já foram feitas denúncias nas áreas do consumo, educação, meio ambiente, segurança, turismo, direitos, lazer e cultura e tecnologia. Denunciadas já se encontram associações, estabelecimentos comerciais, meios de comunicação social, organizações, área da saúde, bancos, empresas, governos, municípios e área da política.

    PORTUGAL: 800 MIL CONTOS DE INVESTIMENTO
    O nosso país foi o primeiro ponto da internacionalização da LaNetro. A estratégia de proximidade jogou neste caso e desde início deste ano que uma equipa integralmente portuguesa colocou de pé o portal, com duas primeiras cidades - Lisboa (na Web em http://lisboa.lanetro.pt) e Porto (na Web em http://porto.lanetro.pt). Os dois «sites» portugueses passaram a dispôr, este mês, da utilização de mapas urbanos, com a mesma tecnologia usada em Espanha no «callejero».
    A LaNetro conta hoje com 60 colaboradores com idades entre os 20 e os 30 anos e é liderada por António Galhardo Simões, um homem do marketing que passou pelo O Independente e pela A Capital.
    O portal português já atrai 25 mil visitantes únicos por mês e contabiliza mensalmente mais de 500 mil páginas vistas, segundo os dados da LaNetro. Até final do próximo ano, o investimento desde princípios de 2000 atingirá os 800 mil contos.
    Três novas cidades portuguesas estão no «pipeline» para serem lançadas na Web até final do ano - Faro (que abrangerá a totalidade da oferta algarvia, num conceito mais alargado), Coimbra e Braga.
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