Califórnia: O LABORATÓRIO DA QUARTA GERAÇÃO

Jorge Nascimento Rodrigues desvenda o que já está para além da vaga inventada por Alvin Toffler (1993)

O Capitalismo enlouqueceu e as regras do mercado têm andado de pernas viradas para o ar, comenta-se na Califórnia. O cenário começa, mesmo, a ser bizarro, já que os concorrentes de ontem se transformam em aliados - enquanto, subitamente, surgidos do frio, aparecem concorrentes secretos. São intrusos vindos de outras actividades, mas com tecnologias básicas que se mostram capazes de explorar as mesmas oportunidades de negócio.

Surgem, assim, novos "truques" no "management": as alianças estratégicas e o cruzamento entre conglomerados rivais, como está em curso na Apple, o rastreio e antecipação em relação aos tais concorrentes invisíveis sobretudo nos segmentos das memórias para computador e da imagem e a "polinização" entre indústrias, como ocorre já entre a computação, a electrónica de consumo, as telecomunicações e as indústrias do lazer.

Curtas histórias que se contam

Na sombra destes cruzamentos emerge, na Bay Area de São Francisco, uma quarta vaga, que abrange nomes de guerra tão diversos como "Xanadu", "VR", "Newton" e "PIC". Cada caso é uma história ligada a Silicon valley ou ao espírito que dali irradiou para toda a Bay Area.

"Xanadu", um sistema de edição electrónica mundial, parcialmente comercializado pela Autodesk Inc., foi criado por Ted Nelson, um cinquentão visionário que vive num barco em Sausalito, uma espécie de Cascais na Baía de São Francisco; e "VR" é o acrónimo para realidade virtual, um método de "experimentação visual simulada", que tem por pai Jaron Lanier, um tecnólogo de cabelos dourados à Bob Marley, que criou a VPL Research numa garagem em Palo Alto.

"Newton", por seu lado, nasceu da nova estratégia tecnológica pensada pela Apple em Cupertino; e o "PIC" é o diminutivo para "comunicador inteligente pessoal", um novo "gadget" electrónico que vai ser lançado pela General Magic Inc., um "spin-off" da Apple animado pelos inventores do Hypercard e do sistema operacional dos Macintosh.

A revolução digital com garfo e faca

Por outro lado, no Sul da Califórnia, combinam-se frequentemente refeições inesperadas, que sentam à mesma mesa John Sculley, o CEO da Apple, e o superagente de Hollywood Michael Ovitz, o mesmo que aconselhou a Matsushita Electric japonesa a comprar os estúdios MCA. O motivo desta última operação foi, provavelmente, a mesma "sensação sobre o futuro" que já levou a Sony a comprar a Columbia Pictures e a CBS Records.

"A quarta vaga começa por ser computação mais entretenimento, e o resultado dessa soma é superior à mera soma das partes", como referia ainda recentemente a "Business Week". O próprio Bill Gates, da Microsoft, e a IBM andam na mesma azáfama a caminho da capital do celulóide, onde à mesa com garfo e faca pensam disputar lugar cimeiro na grelha de partida.

A fusão de tecnologias básicas, um dos paradigmas industriais mais acarinhados no Japão, começa, também, a ser fonte de grande curiosidade na América. Um trabalho de Fumio Kadama sobre a questão, publicado na "Harvard Business Review" (Julho/Agosto de 1992), tem tido manifesto impacto nos meios empresariais.

O caso mais recente, que está a ser seguido com expectativa em Silicon Valley, desenrola-se no terreno da bioelectrónica, entre Burlingame, Palo Alto e Menlo Park. Envolve a Biological Components, a Biocircuits e o Affimax Research Institute, e juntou gente que, em regra, anda de costas viradas - cientistas de biologia molecular e engenheiros de electrónica e computação. O resultado, por ora, "é uma verdadeira Torre de Babel, em que disciplinas outrora separadas por muros são substituídas por híbridos, e em que uma nova cultura de comunicação no seio da I & D tem de ser inventada", comenta o "San Francisco Chronicle", que oportunamente dedicou ao caso largo espaço.

Há, de facto, uma inversão na memória da cultura das empresas da quarta vaga que se expressa numa nova máxima: "O ponto de partida já não é o que mais conta; o que é crucial é saber para onde se caminha". Fala-se, então, da necessidade de praticar a "macrovisão", um termo lançado por Ovitz.

Em suma, ganhará a corrida do final do século quem se posicionar numa estratégia de procura sistemática de oportunidades de "polinização" entre áreas diversas. Daí deriva, naturalmente, o "boom" do novo paradoxo de "cooperação para competir", e os meios empresariais e académicos já colocam abertamente a questão da revisão dos condicionamentos "antitrust" nos EUA.

O berço de um novo "entrepreneurship"

Com toda esta agitação industrial e intelectual, a Califórnia, e em particular Silicon Valley, continua a ser um verdadeiro berço do pioneirismo tecnológico e do espírito empresarial. A confirmá-lo não estão apenas os fragmentos de casos que nos surgem em visitas profissionais, ou as histórias que a comunicação social conta: os números são esmagadores, se olharmos para as listas das empresas mais dinâmicas da América que regularmente as revistas "Fortune" e "Inc." publicam.

Mas, para além de um "élan" que se respira nesta costa do Pacífico, os ingredientes do "modelo de excelência" estão no dia-a-dia. O "entrepreneurship" ganhou aqui duas novas dimensões: o entendimento de que o mercado é um tecido de clientes não anónimos e de que a única estratégia sustentada de fidelização é a prática da cidadania.

São frases que nascem, também, a partir de histórias contadas ao vivo. Perceber que o cliente não é anónimo é uma das regras que qualquer novato das galerias Nordstrom decora logo no primeiro e único dia de formação intensiva. Um dos instrumentos que aprende a cultivar "como se se tratasse de um diário íntimo", é o seu "personal book". "Um ficheiro personalizado com 'detalhes' sobre os clientes que se vão tornando habituais", salientam em Walnut Creek num grande espaço Nordstrom, em que se pode fazer compras - ou simplesmente passar - ao som de um piano tocado magistralmente.

Finalmente, a cidadania faz parte integrante da cultura de uma grande empresa privada de utilidade pública, como é o caso da Pacific Gas & Electric (PG & E), o que, nas condições extremas do último terramoto funcionou espontaneamente e é vivamente recordado pela população.

O conceito de gestão que se gerou nesta empresa é naturalmente óbvio: "Para além da fidelização do cliente (consumidor ou utente) está a fidelização da comunidade", como refere Bob Hillman, um dos "heróis" da PG & E mais estimados pela população da marina de São Francisco.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal