A nova janela de oportunidade da próxima década

Um novo ciclo económico longo - designado pelo nome do seu «criador», o russo Kondratyev - está prestes a arrancar, ou já arrancou mesmo. Os próximos dez anos vão ser o período áureo da sua fase de crescimento, antes que as primeiras turbulências ocorram. São já visíveis três áreas motrizes: em torno da Web, à volta da genómica, e na área dos transportes espaciais e ferroviários de hiper-velocidade, segundo os estudos de Cesare Marchetti datados dos anos 80 (e agora revisitados) e da corrente recente de «optimistas» norte-americanos escribas na revista «Wired» (Peter Schwartz e Harry Dent)

Uma versão reduzida publicada no Expresso de 30/12/99

Jorge Nascimento Rodrigues com Cesare Marchetti, especialista do IIASA - International Institute for Applied Systems Analysis, na Áustria

O berço da 3ª Vaga nos anos 30 e 40 do sec. XX em datas
 A fractura histórica dos anos 70 | A revolução silenciosa dos anos 80-90 
Os ciclos longos mais recentes no capitalismo | Fontes de Informação

Um russo de nome Nikolai Dmyitriyevich Kondratyev (apesar de enterrado há muito) está de volta à prospectiva económica sobre o próximo século. Ele «descobriu» nos anos 20, para desagrado de Staline, que o capitalismo, desde os alvores da Primeira Revolução Industrial, parecia repetir um padrão de ciclos tecno-económicos de 50/60 anos, que o salvava da «crise final» e lhe permitia um período de «reengenharia».

Tais ciclos longos de 50 a 60 anos eram marcados por períodos iniciais de crescimento, seguidos de um «pico» propício a fracturas históricas a que se seguiria uma fase de desaceleração no final da qual um período de grandes mutações tecnológicas abriria caminho a um novo ciclo.

Segundo alguns seguidores actuais de Kondratyev, o ano que acabou de findar (1999) marcará provavelmente o final de um riquíssimo período de mutações que nos surpreendeu permanentemente ao longo de mais de 15 anos (a que chamaremos 'A Revolução «silenciosa» dos anos 80 e 90') e o começo de um novo ciclo longo - o quinto no capitalismo - que poderá estender-se até 2050 ou pouco mais.

Ciclos mais recentes de Kondratyev
Critérios
3º ciclo
4º ciclo
5º ciclo
Primeira Descoberta Marcante rádio (1887) «pilha» de Fermi (1942)
transístor (1947)
descodificação do cromossoma «22» (1999)
Ponto Médio do ciclo (a) 1921 1980 ?
Período de fractura histórica 1917
(Revolução Bolchevique)
1971/73
(Fim do padrão ouro e crise petrolífera)
?
Crises Económicas 1929/33 1973/79 (petróleo)
1987 («crash»)
1997/98 (Ásia)
?
Período Chave de mutações tecnológicas (b) 1922-1948 1982-1999
(«Boom» da 3ª Vaga)
?
Indústrias Motrizes do ciclo (c) Electricidade
Automóvel
Electrónica Webonómicas
Bionómicas
Transportes de nova geração (d)
Energia Dominante
(Ano de pico)
Carvão
(70% em 1930)
Petróleo
(50% em 1970)
Gás Natural
(65% em 2040)
Energia Emergente Petróleo
(10% em 1930)
Gás Natural
(30% em 1970)
Nuclear
(10% em 2020)
Notas:
(a) 80% das descobertas fundamentais já realizadas, segundo Cesare Marchetti
(b) Vaga de mutações que determinam o ciclo seguinte emergente, segundo Gerhard Mensch
(c) Segundo o conceito de W.W. Rostow
(d) Transportes: aeroespcial e transportes de hiper-velocidade

É difícil estabelecer, por ora, se foi a World Wide Web (criada por Tim Berners-Lee entre 1989 e o Natal de 1990) o facto marcante de viragem de ciclo, que permitiria despoletar o que alguns chamam de «economia digital» e outros de «nova economia», ou se terá sido, já no final de 1999, a descodificação do cromossoma «22» no quadro do Programa do Genoma Humano que irá abrir as portas ao desenvolvimento de novas indústrias «bionómicas», que irão muito para além do que nos acostumou a biotecnologia.

O sexto sentido

«Os economistas puros e duros são muito relutantes em aceitar as ideias de Kondratyev, porque elas introduzem algo que eles não conseguem controlar. Mas ele está hoje mais vivo do que nunca e cada vez maior número de economistas o (re)descobrem, pois percebem que a análise dos ciclos longos permite adquirir como que um 'sexto sentido' para percebermos o que poderá estar para vir», diz-nos Cesare Marchetti, que desde os anos 70 estuda no International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA), na Áustria, o problema dos ciclos longos. Cesare Marchetti

Os seus estudos de 1981 e 1983 (que seriam divulgados no Expresso em 1984 na revista de 24/12/84) permitiram traçar um quadro interpretativo do que estava a ocorrer depois do que Peter Drucker chamou a «fractura histórica» dos anos 70, nomeadamente com o abandono do padrão-ouro (1971) e as crises petrolíferas (1973 e 1979), e do que Alvin Toffler magistralmente antecipou em 1970 no «O Choque do Futuro» e, depois, em 1980, na «A Terceira Vaga».


O período de fractura histórica dos anos 70 do sec. XX - o capitalismo industrial e o mundo do pós-guerra são postos em cheque
1970 -  Petróleo atinge 50% do mercado das energias primárias, o pico da sua curva; Alvin Toffler antevê O Choque do Futuro
1971 - O padrão ouro é abandonado; Daniel Bell começa a falar da sociedade «pós-industrial»; surge o primeiro processador
1973 - crise petrolífera; é criado o protocolo do TCP-IP por Vinton Cerf
1975 - Surge o primeiro computador pessoal (o Altair) e é criada a Microsoft; Kenichi Ohmae revela a mente estratégica dos japoneses e prenuncia a sua fase de expansão global
1976 - É criado o primeiro gene artificial
1978 - Primeiro «bébé- proveta» (Louise Brown); início das reformas económicas na China por Deng Xiao Ping
1979 - crise petrolífera
1980 - Alvin Toffler publica A Terceira Vaga

Marchetti mostrava, então, que o ciclo longo de kondratyev - o quarto no capitalismo - iniciado no final dos anos 40 - ainda se discute hoje qual terá sido o facto histórico crucial: se a experiência de Fermi em 1942 com a célebre «pilha» que daria origem à bomba atómica, se o transístor em 1947 que abriria as portas à Revolução da Informação - havia passado o seu «pico» desde que o petróleo cerca de 1970 tinha atingido 50% do mercado das energias primárias.

O capitalismo industrial parecia ter-se esgotado. Drucker havia falado já em 1969 do aproximar de uma Era de Descontinuidade e Toffler foi o profeta do que se passaria depois do abandono do padrão ouro e das crises petrolíferas. O que o transístor em 1947 e o «chip» em 1958 tinham começado ía agora acelerar incrivelmente. O primeiro processador surgia em 1971, um novo protocolo - o TCP-IP - era criado por Vinton Cerf em 1973 e o primeiro computador pessoal aparecia em 1975. Mas a grande mexida estava ainda para vir.

Alguns vieram então falar que se aproximava-se um período de grande agitação tecnológica nos anos 80 que se estenderia até ao ano 2000, antevendo o especialista do IIASA que temos referido que mais de «100 novas indústrias» apareceriam. Marchetti já contabilizou cerca de 86 nesse período, referiu-nos agora.

A antevisão deste período de mutação tecnológica surgia como a luz ao fundo do túnel para o período recessivo económica e psicologicamente que se vivia no princípio dos anos 80. Ainda que, com algum cepticismo, assim o anunciava o insuspeito Le Monde Diplomatique de 14 de Setembro de 1984 num trabalho de fundo sobre os ciclos longos.

Na altura disparou um debate académico muito aceso em torno dos ciclos longos e Kondratyev, bem como Joseph Schumpeter, vieram de novo para a ribalta. Para além da escola do IIASA, na Europa, em que se destacava Marchetti, também o Grupo de Dinâmica de Sistemas do Massachusetts Institute of Technology, de Cambridge (Boston), nos Estados Unidos dava cartas, encontrando-se nomes de referência como Jay Forrester e o próprio Peter Senge.

A Revolução Silenciosa dos anos 80-90 - a 3ª Vaga a todo o vapor
1982 -  A revista «Time» elege o PC (computador pessoal) como «Homem do Ano»; Naisbitt lança o conceito de «megatendências»; a gestão massifica-se com o livro «Na Senda da Excelência» de Tom Peters e Bob Waterman
1983 -  Divulgação do Relatório de Novosibirsk sobre a crise estrutural soviética
1984 -  Identificação do HIV
1985 - Lançado o conceito de «multimedia» por Nicholas Negroponte; Microsoft lança a plataforma Windows que lhe daria a liderança
1986 - Ponto de viragem no crescimento do Investimento Directo Estrangeiro à escala global que ultrapassa o crescimento das exportações e do PNB, sintoma de uma nova fase da «globalização»; Michael Gorbachov lança formalmente no 27º Congresso do PCUS a «perestroika» e a «glasnot»
1987 - Lançado o conceito de «mudança de paradigma» na revolução da informação por Don Tapscott
1988 - «Big bang» da Internet nos EUA
1989 - Queda do Muro de Berlim; primeiros indícios da crise do modelo japonês
1990 - Criada finalmente a World Wide Web por Tim Berners-Lee
1993 - Lançado o conceito de «sociedade pós-capitalista» por Peter Drucker
1995 - Comercialização massiva dos «browsers» para a Web
1996 - Lançado o conceito de «economia digital» por Don Tapscott
1997 - A primeira leva da nova «geração net» faz 20 anos; clonagem da «Dolly»
1999 - Descodificação do cromossoma «22»; Time elege Jeff Bezos, da Amazon.com, «Homem do Ano»
2000 - Gás natural atingirá 50% do mercado das energias primárias

Esta «agitação» trouxe, depois, alterações profundas de paradigma na própria Revolução da Informação com a massificação da Internet e o surgimento da Web e da economia digital e está, também, a sentir-se no campo da própria gestão.

A própria sociedade poderá, também, ter iniciado, nesse período, uma curva ascendente para o que Drucker designou em 1993 de «sociedade pós-capitalista».

A detecção deste período de grande agitação tecnológica no final da curva descendente de um ciclo de kondratyev não era difícil para os estudiosos dos ciclos longos. Também o final do anterior ciclo - o terceiro do capitalismo, que começara no século XIX e terminara nos finais dos anos 40 do século XX - havia revelado um período de grande agitação tecnológica que foi, aliás, o berço da Revolução da Informação e do Management.

No berço de duas revoluções - a da informação e a do management (1936-1948)
1936 -  Artigo de Turing sobre os Números Computacionais; livro de Keynes sobre A Teoria Geral do Emprego, Juros e Dinheiro
1939 - Schumpeter lança O ciclo dos negócios
1941 - James Burnham lança A Revolução da Gestão
1942 - Enrico Fermi cria a célebre «pilha» do reactor nuclear
1943 - É feito o teste do Mark I (o primeiro computador)
1945 - Von Neuman defina a arquitectura de um computador; primeiro teste de uma bomba atómica em Los Alamos (Projecto Manhatam)
1946 - É acabado o ENIAC, o primeiro computador electrónico digital; Peter Drucker lança O Conceito da Corporação, o primeiro livro da disciplina do management
1947 - Demonstrado o efeito do transístor
1948 - Claude Shannon define a teoria matemática das comunicações

O famoso «longo boom»

Se a história económica à luz dos ciclos de Kondratyev servir para alguma coisa, o novo ciclo que se abre agora (1999-2000) terá um período de crescimento sem precedentes, de empreendedorismo frenético e de explosão sucessiva de novas indústrias e novos negócios na primeira década do século XXI, cuja primeira amostra já nos começámos a dar conta com as primeiras indústrias «webonómicas» que irromperam nos últimos quatro anos do anterior ciclo.

Contudo é da investigação no campo da genómica que se esperam as aplicações industriais mais inesperadas. A mudança que a biotecnologia vai sofrer assemelhar-se-á ao que o multimedia, a Net, a Web e a galáxia digital fizeram às tecnologias da informação, deixando-as irreconhecíveis para um nativo do princípio dos anos 80.

Por outro lado, o agente fundamental deste período vai estar marcado geracionalmente. Os filhos do que já se designou de «geração Net» nascida a partir de finais dos anos 70 vão atingir a maturidade. A primeira leva já fez 20 anos em 1997 e no ano 2007 terá 30. O que eles vão significar no tecido económico ainda não é totalmente imaginável - mas o empreendedorismo desta geração começa aos 15-17 anos na América do Norte.

Tem sido à sombra da percepção do final do ciclo do transístor - cujo réquiem já foi cantado pelo economista Paul Romer - e da pujança da «terceira vaga» que alguns analistas têm construído a teoria de um «longo boom» de que os Estados Unidos seriam o exemplo pioneiro nos últimos 25 anos, em que o «crash» de 1987 foi um ligeiro arranhão e a crise asiática recente o sinal do fim de um modelo de crescimento anterior à terceira vaga para toda uma vasta região do mundo que ainda em 1996 era pintada como a «dona» do próximo século.

Os trabalhos de Harry Dent em 1993 (com o livro The Great Boom Ahead) e o artigo de Peter Schwartz e Peter Leyden publicado na revista «Wired» em Julho de 1997 (e agora desenvolvido na obra The Long Boom, editado em Outubro de 1999) completados com os mais recentes livro de Dent, com o título provocatório The Roaring 2000´s (em duas versões, uma geral de 1998 e outra para investidores em Outubro de 1999), têm chamado a atenção para a janela de oportunidade que se abre agora.

 Leia o artigo 'The Long Boom: A History of the Future, 1980-2020', 
de Schwartz e Leyden na Wired

Dent afirmou, recentemente na revista «Wired», que a próxima década é o momento certo para se consolidarem as novas indústrias, antes que as primeiras turbulências cheguem a partir de 2009. Segundo ele, o período «depressivo» a partir dessa altura poderá entrar pelos anos 20 do século XXI.

Lições da História

Olhando para o ciclo que agora finda, vemos que na sua fase ascendente a partir de final dos anos 40 encontramos a meio caminho um período de grande turbulência que muita gente acreditou ser o «fim» de uma época - os Beatles (1964), a Revolução Cultural na China (1966), o Maio de 1968, a Primavera de Praga, o Woodstock em 1969. Entretanto, um «prof» japonês inventava em 1963 o termo de «indústrias de informação» que o Japão viria a adoptar oficialmente em 1967.

Contudo, curiosamente, a história prega as suas partidas. Só uns anos mais tarde, a fractura histórica do capitalismo se daria, apesar deste choque cultural profundo dos anos 60. E ironia das ironias não seriam nem os guardas vermelhos, nem os «hyppies» nem os «soixantehuitarde» que pregariam o susto - mas os banqueiros ao abandonar o padrão-ouro, os «xeiques» do petróleo ao provocarem as crises do ouro negro e os engenheiros que desde o final dos anos 40 cozinhavam a terceira vaga nas garagens e nos laboratórios.

E é dessas fracturas históricas que surgem novas realidades.


LINK DE REFERÊNCIA:

  • Directório sobre ciclos longos em www.1-888.com/longwave

  • LIVROS DE REFERÊNCIA RECENTES:

  • The Great Boom Ahead, Harry Dent, 1993 (compra do livro)
  • The Long Boom: A Vision for the coming Age of Prosperity, Peter Schwartz, Peter Leyden e Joel Hyatt, 1999 (compra do livro)
  • The Roaring 2000's, Harry Dent, 1998 (compra do livro)
  • The Roaring 2000's Investor, Harry Dent, 1999 (compra do livro)
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