A terceira paixão de Kevin Kelly

Mapear a vida sobre o Planeta Azul

O mais conhecido californiano da Nova Economia volta um ano depois
a Gente Singular contar o que anda a fazer depois do "crash" e da palavra mais repetida ("Nova Economia") dos últimos três anos se ter esgotado.
Kevin Kelly entrou de alma e coração numa nova aventura e agora
é presidente da All Species. A sua velha "costela" biológica e de aventura voltou ao de cima.
Com um punhado de amigos, ele quer que todas as espécies sobre a Terra sejam conhecidas e catalogadas, no período de uma geração.

Jorge Nascimento Rodrigues com Kevin Kelly visto (de novo) pelo traço de Paulo Buchinho

Site da All Species | Kelly explica o projecto

Kevin começou como "globetrotter" na Ásia reportando para o Whole Earth Catalogue, um dos pioneiros da nova cultura nascida no Silicon Valley e na Baía de São Francisco nos anos 70 e 80. Essa foi a sua primeira paixão.

Deixou-se, depois, envolver pela "biologia" da economia e subitamente verificou que os sistemas estavam "fora de controlo" (Out OF Control é o seu livro de marca desta fase).

Apaixonou-se, logo no berço, com a euforia da World Wide Web e viria a ser o grande inspirador da Wired, a revista de culto da época, uma pedrada no charco do mundo editorial dos anos 90. Esta segunda paixão levou-o a descobrir "leis" que classificou de novas e tornou-se o guru do mundo "dot-com" com o célebre livro New Rules for the New Economy.

Mas o "crash" do Nasdaq, inesperado para a maioria dos actores e gurus da Nova Economia, veio estragar a lua-de-mel. "Confesso que fiquei surpreendido", diz-nos Kelly, a gozar as réstias de sol de umas mini férias em Pacifica, a sua cidadezinha na costa californiana.

Mas Kevin refez-se e lançou-se de corpo inteiro numa nova aventura no abrir de novo século.

A terceira paixão de Kelly é o projecto All Species, um inventário na Web e fora dela, através de uma rede de cientistas e naturalistas, de todas as formas de vida existentes no Planeta. «Isto é algo que nunca se fez. O nosso propósito é simples: no espaço de uma geração - 25 anos; o que, por métodos tradicionais, levaria mais de 50 - pretendemos registar e ter uma amostra de todas as espécies vivas da Terra», explica o nosso interlocutor.

A ambição é criar uma espécie de registo genómico de todo o tipo de vida e um novo interesse por parte de amadores e profissionais pelo naturalismo e a exploração científica. Em particular, um desafio para trazer para a rede estudantes, especialistas locais e comunidades indígenas, que despertaram, agora, para o valor das espécies e os direitos sobre muitos usos tradicionais.

O problema começa por nem se saber sequer quantas espécies há sobre o nosso Planeta Azul, apesar de se terem números para "coisas" lá fora - como estrelas numa galáxia. «Nem sequer a ordem de magnitude. Serão 2 ou 200 milhões? Sabemos imenso de tanta outra coisa do nosso planeta e fora dele, excepto sobre isto», ri-se Kevin.

No projecto estão envolvidos dois amigos de longa data. Um é Stewart Brand, fundador do Whole Earth Catalogue nos anos 60 e da rede Well (Whole Earth Electronic Link em meados dos anos 80 que viria a cobrir toda a região da Baía de São Francisco e onde Kevin aprenderia o bê-á-bá da rede. Brand é hoje presidente da The Long Now Foundation que tem em curso um dos projectos, aparentemente, mais bizarros, o de um relógio para 10 mil anos (só bate horas, o braço sai da gaiola uma vez por século, e o cuco só cantará uma vez por milénio) desenhado pelo polivalente Danny Hillis, apoiado por Peter Gabriel e baptizado de "The Clock of the Long Now" pelo músico Brian Eno. Outro amigo é Peter Warshall, um biólogo e antropólogo, que foi editor da Whole Earth Catalogue, e que hoje se especializou na consultoria em sistemas económicos e ecológicos complexos.

A eles juntaram-se um entomologista Terry Lee Erwin, um empreendedor da área da saúde Ryan Phelan (fundador de uma incubadora de inovação na área, a Medical Advanced Research Applications) e mais umas três dezenas e meia de cientistas e profissionais de todo o mundo, que lançaram o grito pelas espécies em Setembro do ano passado (2000) na Academia de Ciências da Califórnia.

Para o efeito esperam vir a mobilizar, a longo prazo, mil milhões de dólares de patrocínios filantrópicos para a All Species Foundation, missão financeira para a qual admitiram em Agosto de 2001 um CEO que porá em prática um plano de obtenção dos primeiros 5 a 10 milhões. O novo CEO é Brian Boom, vice-presidente da Botanical Science e até agora curador do New York Botanical Gardes, que se mudou entretanto para São Francisco.

Proximamente contam já divulgar alguns filantropos, depois do entomologista Evert Schlinger avançar com um milhão de dólares de capital semente. «A esperança é que parte da riqueza privada gerada pela Nova Economia, em paralelo com novas ferramentas tecnológicas, como a Internet, o GPS para geo-localização, e a genómica - permita levar a cabo este desígnio numa geração e que eu ainda esteja cá para ver», conclui Kelly à beira dos 50.

RESPOSTAS RÁPIDAS
Como é que surgiu este projecto?

Apareceu num jantar com bilionários que queriam um modo "limpo" de fazer filantropia. Uns não gostaram muito da ideia, outros abraçaram-na logo.

Como é que os empreendedores da Nova Economia estão a aderir no apoio ao projecto?

Não tão rápido como gostaríamos. Tudo ainda está muito incerto. As "dot-com" continuam a ir por água abaixo.

Estamos a assistir, com projectos deste tipo, ao renascer do espírito naturalista e dos exploradores do século passado?

Sim. Exactamente. Penso inclusive que os amadores terão um papel relevante na descoberta de novas espécies, se conseguirem ferramentas mais "cool" para os ajudarem.

Três dos fundadores do projecto - o Kevin, Stewart e Peter - estiveram ligados ao Whole Earth Catalogue. Há alguma continuidade nesta vossa relação? O Whole Earth Catalogue e a rede Well criaram algum tipo de cultura, ou é apenas amizade entre vós?

É sobretudo amizade. Mas partilhamos de um sentido de iniciar coisas, e depois passá-las para outros após lançadas.

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