O último brinquedo do génio de Aspen

O activo mais caro da Sun Microsystems «exilado» no Colorado

Jorge Nascimento Rodrigues em Maio 2001 com Bill Joy visto pelo traço de Paulo Buchinho

É considerado o «activo» mais caro da Sun Microsystems, uma das «start-ups» dos anos 80 no Silicon Valley que acabaria em multinacional. Bill Joy foi um dos quatro fundadores da empresa e cedo granjeou a fama de um dos «cérebros» contemporâneos da computação. Se os génios vivos do high tech se contarem pelos dedos de uma mão, Bill é um deles. Desde há cinco anos que se refugiou em Aspen, no Colorado, longe do bulício do Vale californiano e da sede da Sun e, dizem as más línguas, da politiquice típica das grandes organizações. No «retiro», ele dirige 25 outros «génios» no SmallWorks, um pequeno laboratório de investigação & desenvolvimento, donde tem saído o último grito em computação de rede. O mais recente «brinquedo» é a computação distribuída, e a etiqueta mais badalada é «Juxtapose» (JXTA, abreviado), uma infraestrutura para a nova sopa de letras pós-«crash» do NASDAQ - o P2P.

Site do projecto | Mais informações na Sun
Outros artigos sobre P2P na janelanaweb.com:
Entrevista com Gene Kan da Infrasearch | Tendência do P2P

Conta-se que num dia 1 de Abril lhe desconjuntaram o Ferrari e o colocaram em peças no seu gabinete, ainda ele fazia o dia-a-dia na sede da Sun Microsystems, a empresa que criou com Scott McNealy e mais dois amigos no Silicon Valley há quase 20 anos. As más línguas dizem que foi o próprio Scott que lhe armou a partida, pelo que Bill, no ano seguinte, se «vingou» transformando o gabinete do líder da Sun num campo de golfe, com terra, relva e buracos verdadeiros. Estas «patifariazinhas» dão ideia do ambiente animado que percorre uma das mais heterodoxas empresas do vale californiano, que tem procurado afirmar um caminho diferente em torno do slogan «a rede é o computador».

Bill Joy começou por ficar célebre ainda andava na Universidade da Califórnia em Berkeley, onde se destacou como o principal «designer» da versão do UNIX criada naquela universidade do outro lado da Bay Area de São Francisco. Esta versão acabaria por se tornar o «standard» e o jovem Bill entrou para a galeria, muito restrita, dos «génios» da computação. Ele ficou marcado pela filosofia desse projecto, nunca tendo largado o conceito original do movimento «hacker» em torno dos «sistemas abertos» e do gozo de criar novos «filhotes» na computação. Quando co-fundou a Sun em 1982 levou com ele o «virus» que nunca mais largou, até hoje.

Cansado do bulício do Silicon Valley e da politiquice típica das sedes das multinacionais, retirou-se há 5 anos para Aspen, no Colorado, onde com mais 25 «crâneos» dourados da Sun dá à luz projectos de tecnologias de ruptura num pequeno laboratório conhecido por SmallWorks. Mais recentemente, em 1998, foi eleito «Cientista-Chefe» da empresa, uma espécie de Alquimista-mor dos tempos modernos.

A 25 de Abril passado, Bill anunciou com algum aparato (inclusive em directo através da Web) o mais recente «brinquedo» - a plataforma «Juxtapose» (JXTA, abreviado), que pretende servir de infraestrutura para todo o tipo de aplicações e desenvolvimentos na área da computação distribuída, e em particular do «peer-to-peer», mais conhecido por P2P, o último grito na sopa de letras a que nos habituou a Web. Trata-se de um conceito que se está a afimar como «the next hot thing», uma espécie de luz depois do «crash» do NASDAQ e do esvaziar dos exageros do movimento «dot-com». «Juxtapose» quer dizer simplesmente justapôr, colocar as coisas próximas umas das outras, facilitar a ligação directa entre «pares» de uma rede, sem controlo central, algo que o Napster, no campo da música, prenunciou.

Do seu refúgio de Aspen, Bill respondeu a um rol de questões. Tome nota, que ele sublinhou bem alto: o ciclo do NASDAQ não afecta negativamente a nova tendência da computação distribuída. O dia-a-dia no SmallWorks Lab parece estar imune a esse cataclismo e ao mau astral psicológico.


Bill JoyÉ o P2P o futuro da computação? Ou trata-se, uma vez mais, de propaganda, tentando reanimar os capitalistas de risco e os empreendedores da nova vaga frustrados com o dilúvio sobre as «dot-com»? A computação distribuída vai ser a salvação da Nova Economia?

B.J. - O P2P é mais uma demonstração da computação distribuída, um conceito central que está a ter um autêntico «take off» na indústria. Mas, o P2P é um exemplo entre outros. Não é a aplicação final, o final da estrada.

Mas que outras aplicações poderão vir a seguir?

B.J. - Tudo o que mexa com computação distribuída, desde a infraestrutura - onde procuramos nos posicionar - até todo o tipo de aparelhos que estão a invadir o nosso dia-a-dia e que estão a «estender», ampliar a Web indefinidamente: assistentes pessoais digitais, televisão interactiva, em suma todo o tipo de aparelhos com funcionalidades computacionais e comunicacionais. Entrámos na era da Web ampliada, multidimensional, numa nova geração de redes.

«A mudança de paradigma não é afectada substancialmente
pelas condições actuais do mercado de capitais»

O «crash» do NASDAQ do ano passado e as suas ondas de choque subsequentes não vão afectar o curso do P2P e da computação distribuída?

B.J. - Não creio. O nosso ponto de vista fundamental é que houve uma mudança. Está a ocorrer uma viragem de fundo nas aplicações e na conectividade. Esta mudança de paradigma não é afectada substancialmente pelas condições actuais do mercado de capitais. A tendência de que falamos é clara e firme. O ciclo do NASDAQ não terá impacto negativo nesta tendência.

Esta tendência apanhou-vos desprevenidos ou foi quase algo «natural», uma espécie de evolução na continuidade da vossa investigação?

B.J. - A Sun sempre esteve interessada na computação distribuída, não importa sob que forma. O conceito sempre esteve presente no nosso «design», na nossa filosofia geral, no nosso paradigma de que a «rede é o computador». Por isso, o nosso interesse pelo P2P - agora na ribalta - vem de longe. Apenas formalizámos melhor as nossas ideias no projecto «JXTA».

Como é que o vosso projecto se «encaixa» com outras iniciativas comerciais como o Groove.net de Ray Ozzie?

B.J. - Temos falado com o Groove. Estamos mesmo em diálogo com eles. Como a nossa tecnologia de infraestrutura «JXTA» é de código aberto, encaixa-se perfeitamente nas aplicações específicas deles. Poderemos, certamente, vir a fazer coisas em conjunto.

 OS 5 CONCEITOS CENTRAIS DE JXTA 
Mensagens entre pares
Gestão e dinâmica de grupo
Monitorização e Medição
Nivel de segurança
Novo motor de pesquisa

Quais por exemplo?

B.J. - Ainda é cedo para falar nisso.

Que balanço fazem da integração da equipa da Infrasearch de Gene Kan?

B.J. - Como sabe, a pesquisa na Web tem estado dominada por grandes indexadores como o Google. O que a Infrasearch fez foi mudar este modelo de motor de pesquisa e permitir a resposta em tempo real à sua pesquisa. Eles mudaram o conceito de motor de busca. Para se obter uma pesquisa efectivamente actualizada e bem focalizada não podemos usar os motores tradicionais, por melhores que eles sejam. A tecnologia de procura da equipa de Gene Kan vai ser colocada por cima da plataforma da «JXTA».

Para quando o anúncio dessa novidade?

B.J. - Seguramente neste Verão (2001).

Mas qual é o modelo de negócio do vosso projecto?

B.J. - A plataforma da «JXTA» é de código aberto - não tem, por isso, uma lógica de rendimento, de facturação. É «open source». Naturalmente, estamos a criar por cima dessa infraestrutura uma série de serviços, de aplicações e de fornecimento de «hardware» adequado - é aí que estará o negócio.

«Voltámos aos velhos tempos do início da Internet, da ideia
de desenvolver e espalhar a tecnologia»

Isso é um regresso ao entusiasmo da cultura «hacker» dos anos 80, dos tempos do UNIX, ou mesmo, mais tarde, do Linux?

B.J. - Em certo sentido, sim (risos). Voltámos aos velhos tempos do início da Internet, da ideia de ajudar a desenvolver e espalhar a tecnologia.

Depois do dilúvio sobre o movimento das «dot-com» ficámos com a sensação de que a Web é uma «revolução inacabada», como o escreveu, recentemente, Michael Dertouzos do MIT. «JXTA» pretende reacender a chama dessa revolução?

B.J. - «JXTA» é mais um conjunto de protocolos que vão potenciar a rede. É indiscutível que vai manter uma chama de continuação da inovação. Vai permitir uma mudança na forma de encarar, de pensar a rede - agora num sentido novo, distribuído. Estou convencido que muitas mais coisas deste género virão nos próximos anos.

Estão a pensar criar «spin-offs» do projecto ou absorver mais «start-ups» do género da Infrasearch de Gene Kan?

B.J. - Há, de facto, um conjunto de «start-ups» que nos contactaram e que estão interessadas na nossa infraestrutura. Tivemos diversas propostas da Bay Area de São Francisco, que estamos a ponderar.

Uma das críticas mais demolidoras ao P2P é a sua alegada falta de segurança. Que garantias dá a Sun?

B.J. - Diz-se isso de facto da nova tecnologia. Mas nós criámos no «JXTA» um nível seguro.

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