Um Capitalismo sem Capital

«Zinzin» é o nome do ingrediente que falta na Europa «latina» que pegou o vírus do «e»

ERIK IZRAELEWICZ, francês de gema, antigo correspondente em Nova Iorque do Le Monde, e actual redactor-em-chefe no diário económico Les Echos, gosta de zurzir sobre os «MEDOS» e «CEGUEIRAS» dos seus conterrâneos. Quando o digital era ainda olhado com desprezo, explicou como tirar partido da mundialização. Agora, que estão todos a ficar eufóricos com a nova economia, alerta para o que está a FALTAR no Hexágono tricolor.

Jorge Nascimento Rodrigues com Erik Izraelewicz em Paris

Contra-Corrente é uma rubrica © Ideias & Negócios/Janela na Web

 Artigo relacionado na Janela na Web - A Terceira Revolução Francesa 

Depois do fim do «Ancién Régime» na guilhotina em 1789 e da «imaginação ao poder» da geração do Maio de 68, a França vive uma nova Revolução, sem cabeças cortadas, pedras arrancadas do pavimento ou «slogans» pinchados nas paredes, mas, provavelmente, tão profunda como as duas anteriores.

O vírus do digital espalha-se por toda a velha economia e está a atingir o rubro no marketing de rua no dia-a-dia. Uma nova geração de quadros rendeu-se ao capitalismo «à americana», fala o inglês na perfeição sem os arrastados «z», e está a alimentar um movimento imparável de criação de novas empresas - as célebres 'start-ups', palavra que entrou tal qual no sempre tão «purista» vocabulário francês que ainda hoje diz «logiciel» em vez de software.

A ascensão desta camada cosmopolita está a desalojar a poderosa elite que reinou no Hexágono desde o final da guerra - e que ficou conhecida pelo cognome de «énarques», os enarcas, ou seja, a gente fina que frequentou a poderosa École Nationale d'Administration (conhecida pelo acrónimo de ENA). O pequeno «problema» é que esta mudança no poder doméstico está a ser feita sem massa crítica financeira de raiz nacional.

O leitor português, talvez, não se tenha dado conta. Mas a França trocou de camisa capitalista. Deitou fora a santa aliança em torno da gamela do Estado em que se tinham reunido os «três estados» do pós-guerra - a banca, os dirigentes políticos e altos funcionários dos 'corpos do Estado', e o que restou das velhas famílias proprietárias e de capitães de indústria -, mas não preencheu o vazio com capital próprio. Os 100 principais investidores institucionais são na maioria de origem americana, inglesa ou holandesa, directamente ou por portas e travessas. Esta gente detém hoje 40% do capital das 1000 maiores de França...

A estes investidores colectivos deu-se o nome curioso de «zinzin» - uma abreviatura de investidores institucionais com o célebre «z», arrastado, a cavalo. Uma invenção americana que vive dos poderosos fundos de pensões, algo que não pegou ainda na maioria dos países do Velho Continente. E neste «atraso» está a morte do artista - diz em Le Capitalisme zinzin (editado recentemente pelas Éditions Grasset) Erik Izraelewicz, um polémico jornalista económico que depois de uma vida, de quinze anos, no Le Monde se mudou em Fevereiro para o diário económico Les Echos.

QUEM É ERIK IZRAELEWICZ
Erik tem 46 anos e foi aluno do HEC-Hautes Études Commerciales. Tirou um doutoramento em economia internacional na Sorbonne. Fez uma carreira no prestigiado jornal Le Monde desde 1986, onde foi sucessivamente analista na secção sobre banca, editor da área de economia, correspondente em Nova Iorque, editorialista e redactor-em-chefe. Ao fim de 15 anos mudou-se para o diário económico Les Echos, onde está desde 1 de Fevereiro deste ano.
Atacou os «medos» franceses em 1997 com «Ce monde qui nous attend - les peurs françaises et l'economie», editado nas Editions Grasset. Neste ensaio mostrava que não havia que ter medo da mundialização. Dois anos depois, escreveu «Le Capitalisme Zinzin».

Quando os franceses eram abertamente conservadores, ainda há uns três anos atrás - a ponto de Nicholas Negroponte, o guru do Media Lab norte-americano, achar que não havia nada a fazer com eles -, Erik escreveu uma primeira obra contra os «medos» em relação à mundialização. Estávamos em 1997 e ele dizia que havia uma oportunidade a agarrar, quando toda a gente se lamentava com aquele europessismo irritante ou xenofobismo anti-americano.

Três anos volvidos, o problema é a «cegueira» da classe política e dirigente económica francesa que não quer ver o que está à frente do nariz - a França está a construir um capitalismo de mercado, aberto, cosmopolita, mas sem capitais próprios suficientes... Imagem que não é só exclusiva do Hexágono e que nos recorda outras situações na Europa «latina». Para perceber o que se passa com a França 2000 (vide artigo anterior aqui), sacrificámos o sono e fomos falar com Erik numa manhã soalheira de domingo numa esplanada do Trocadéro. Do «soleil» e do «chocolat» de Paris saiu o diálogo que se segue.


Erik, será abusivo dizer que a França - aparentemente tão conservadora ainda há uns três anos atrás - está a viver uma nova Revolução?

ERIK IZRAELEWICZ - Não sei se a revolução actual - «revolução» é o termo adequado, não há que ter medo das palavras (risos) - deva ser comparada com a de 1789 ou com a de Maio de 68. Mas acho que o capitalismo francês sofreu uma enorme mutação no decurso dos últimos vinte anos.

Mutação de que género?

E.I. - Em primeiro lugar, económica. Mas também mais geral, pois afectou todos os aspectos da vida - política, social e cultural. Provavelmente, em relação às duas anteriores, esta revolução é silenciosa e até talvez inconfessada.

Inconfessada?!

E.I. - Sim, os franceses - apesar de todo este marketing de rua e algazarra do «e» - não a reconhecem lá muito bem, não a discutem sequer. Direi, mesmo, que há quase como que uma vergonha dela.

Mas será que as novas gerações têm qualquer pudor em relação a isso?

E.I. - Claro que não. Um dos aspectos desta revolução é precisamente o comportamento das novas gerações. O ENA - a célebre Escola por onde passou toda a elite francesa - deixou de ter a aura que tinha. Vou-lhe contar um caso recente que é bem ilustrativo: um dos melhores alunos do ENA, De Castries, com 46 anos, futuro patrão da AXA, acaba de declarar que lamenta ter feito o ENA depois do HEC (a Escola de Altos Estudos Comerciais). Disse para toda a gente ouvir esta «heresia» - se voltasse atrás teria feito um MBA depois do HEC!

Decididamente, a «enarquia» perdeu o sex-appeal...

E.I. - Sim, e os «enarcas» estão hoje em recuo, mas atenção: conservam ainda um grande peso na sociedade francesa.

Mas quem é que lançou a primeira pazada de areia sobre a «enarquia»?

E.I. - Pode parecer bizarro - mas a data chave para esta revolução foi o mês de Março de 1983, quando François Mitterand fez a opção pela Europa e pela empresa. Tudo o resto que veio em seguida deveu-se a esse passo.

Mas, o amor ao 'clube do Estado' foi substituído pelo quê?

E.I. - Para as novas gerações foi substituído pela criação de 'start-ups'.

É curioso que nos quadros se nota também uma grande mobilidade, o que não era comum. Em 1998 11% mudaram de poiso, o dobro em relação a 97...

E.I. - É mais um aspecto dessa mudança geral de que falo. A ele se colam outros factos como o frenesim pela Internet, a abertura do sistema de ensino superior à internacionalização, etc..

E isso é visível por todo o Hexágono - ou é mais uma moda parisiense?

E.I. - Está por todo o país, não só nas grandes metrópoles, como Paris, Lyon ou Marselha, mas também nas velhas regiões industriais, como Lille, Estrasburgo, etc..

Um trabalho da revista Business Week, do princípio deste ano, sobre o que «mexe» na Europa em termos da Nova Economia dava a França como o país com maior número de regiões «onde as coisas estão a acontecer»...

E.I. - Não é por acaso.

Mas essa nova geração é gente cosmopolita, com uma visão global e uma estratégia internacional, ou continuam centrados nos corredores do Hexágono?

E.I. - A elite francesa continua, ainda, em geral, muito parisiense e muito ligada ao velho «establishment» saído do ENA, mas abriu-se muito ao mundo - fala inglês, viaja bastante. Adoptou uma atitude cosmopolita. Mas está mais próxima do seu país do que os alemães estão - esses, de facto, 'americanizaram-se' por completo.

Apesar desse apego à bandeira tricolor o que triunfou em França foi, finalmente, o sonho americano? O Tio da América ganhou?

E.I. - Não creio que tenha sido o «american way of economy» que triunfou. Mas seguramente um capitalismo de mercado sem a tutela do 'clube do Estado'...

Então, o que Michel Albert temia, em 1991, na sua polémica obra «Capitalisme contre Capitalisme», aconteceu?

E.I. - Absolutamente. Albert explicava bem o seu temor - a vitória do capitalismo «anglo-saxónico» sobre o capitalismo «renano» (o capitalismo ligado ao modelo alemão, considerado como o expoente da «economia social de mercado», a famosa originalidade europeia).

Mas o que é que estava no centro desse confronto?

E.I. - Uma coisa tão simples como esta: a oposição entre o mercado e os «guichets». O tal modelo «renano» organizava-se em torno dos «guichets» - do Estado, da banca e dos complexos industriais-financeiros, que formavam uma santa-aliança O mercado venceu os «gichets». C'est tout.

Mas se isso, certamente, só nos pode regozijar a todos quantos não gostávamos desse círculo da gamela do Estado, o que é que correu errado em França?

E.I. - O facto da França continuar um capitalismo sem capital. Apesar de algumas evoluções, continua a faltar carburante francês.

Sem capital, mas então todos esses biliões metidos nas 'start-ups' são assim tão virtuais?

E.I. - Não, obviamente que não são virtuais (risos). Mas são dos «zinzin».

Zinzin?!

E.I. - São os investidores institucionais. Nos anos 60 e 70, eram os ligados ao Estado e no 'milieu' dos profissionais da finança inventou-se esse diminutivo. O problema é que esses fundos públicos foram ultrapassados pelos de origem «não doméstica», nomeadamente pelos poderosos fundos de pensões americanos, os «zinzin» triunfantes. A França que hoje está a mexer depende desses capitais estrangeiros quase a 100%. A França não se dotou desses capitalistas colectivos que são hoje historicamente triunfantes.

Mas porque razão?

E.I. - Continua a haver nos meios políticos e sindicais uma grande desconfiança. A perspectiva de favorecer os fundos de pensões permanece ainda muito longínqua, o assunto continua a ser tabu, ainda que a opinião pública pareça ser hoje mais favorável. O resultado é que a França é uma nação em vias de «proletarização».

Deduzo que esse é o calcanhar de Aquiles da actual Revolução Francesa?

E.I. - Absolutamente. A Revolução está a meio caminho. Está inacabada. Está a ser impulsionada de fora, como eu digo no meu livro. Obviamente que não se trata de limitar ou interditar os capitais de fora. A sua presença é benéfica e inevitável no mundo global de hoje - não pode ser é unilateral, nem exclusiva; tem de coexistir com um capital francês com massa crítica. E isso compete aos franceses - são eles que estão em falta.

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