Internacionalizar sem ideias feitas
Ou como os pequenos e médios grupos portugueses
olham a globalização

Não só os grandes se podem globalizar. Os grupos portugueses pequenos
e médios estão, também, na corrida ao mundo e falam das armadilhas, dos
truques e dos dissabores da experiência nas últimas décadas num livro
de histórias que sai no final de Outubro de 2002.

Experiências de Internacionalização - A globalização das empresas, editado
pelo Centro Atlântico na sua colecção «Desafios»

Mesa Redonda com grupo Nelson Quintas (Cabelte e Fibope), Suberus
(cortiça) e Móveis Viriato, realizada no Palácio da Bolsa, no Porto

Jorge Nascimento Rodrigues

Internacionalizar não é só "desígnio estratégico" dos grandes grupos portugueses, que enchem hoje títulos de jornal pelo impacto da agonia das bolsas e da queda das divisas nos países "emergentes". Há, também, uma internacionalização dos pequeninos e dos médios. «Nalgumas áreas de negócio, é uma questão de sobrevivência para os grupos médios», diz-nos José Silva Pais, 48 anos, administrador da Cabelte Holding, do grupo Nelson Quintas, um quadro de topo que já lidou com samurais, euskadis e roliças mineirinhas nas muitas internacionalizações no negócio dos cabos de fibra óptica e das cablagens para o "cluster" automóvel que negociou. Os pequenos e médios grupos empresariais portugueses constatam que «o espaço vital comercial é cada vez mais reduzido no mercado doméstico», refere, ainda, Silva Pais, que é um dos 19 autores que, em discurso directo, falam de Experiências de Internacionalização - A globalização das empresas, um livro que vai sair no final deste mês, editado pelo Centro Atlântico, na sua colecção "Desafios".

Espírito cosmopolita

Fruto deste "aperto" do mercado doméstico, há mesmo quem advogue que «a internacionalização é para todos, pois a dimensão portuguesa é um bairro a nível mundial», exclama Mário Barbosa, 56 anos, administrador-delegado da Fibope, outro dos protagonistas do livro que o semanário Expresso e a editora reuniram no Palácio da Bolsa, no Porto, para um encontro sobre as "estórias" reais da globalização e as armadilhas e truques que «não vêm nos livros de casos, nem nos manuais oficiais». A Fibope é uma "joint-venture" do grupo Nelson Quintas com os canadianos do Intertape Polymer Group para o fabrico de filmes biorientados, uma película para embalagem com grande dose de inovação tecnológica. Mário Barbosa é um cosmopolita desde tenra idade e hoje prepara uma estratégia de implantação de "fibopinhas" noutras partes do mundo. «Viajar deveria ser uma obrigação pessoal. É preciso uma visão cosmopolita, o que falta a muitos no mundo industrial», remata.

«O espírito de abertura ao mundo é fundamental», sublinha, também, Henrique Martins, 59 anos, um dos fundadores e administrador do grupo Suberus, que, como o próprio nome indica, se dedica à cortiça. Henrique, com apenas a quarta classe de antigamente, é um campeão da globalização que desenvolveu «a arte de falar com as mãos» pelo mundo fora. Como o negócio central do grupo são as rolhas, o destino é seguir o filão do «novo mundo do vinho», o que o levou a investir em sítios tão diferentes, como Napa Valey (na Califórnia), nas províncias de Mendoza e Santa Fé na Argentina, e ainda no Brasil, na Austrália e na Nova Zelândia.

Cultura do «outro»

Mas «não se pode ir à aventura», recomenda o líder da Suberus. «É preciso ir visitar para estudar as gentes», afirma, por seu lado, António Rocha, 52 anos, fundador e administrador dos Móveis Viriato, especializados desde há mais de uma década no mobiliário para hotelaria. A agilidade é o segredo deste grupo: «Estamos aptos a ir a qualquer parte do mundo, mas preparamo-nos», diz António, outro viajante pelas cinco partes do mundo, que sublinha a importância de conhecer a cultura do «outro».

As diferenças culturais são, por vezes, abissais, como no Japão ou na América do Norte. É preciso uma clara adaptação ao processo de negociação em cada região. «Não vá, por isso, com ideias feitas, pois os hábitos tradicionais latinos de negociação não funcionam em muitas partes do globo», recomenda Silva Pais, que acrescenta: «E mesmo em relação a países que julgamos similares, como o Brasil., depois verificamos que a cultura empresarial e os 'corredores' de funcionamento são, de todo, diferentes».

Acresce que é preciso lutar contra uma barreira enorme criada ao longo do tempo pelos próprios portugueses: «Há um défice de imagem de Portugal no exterior», afirma Henrique Martins, que critica «a diplomacia do chá e do pastel de bacalhau» por não dar grande ajuda especializada à internacionalização nos países onde se sente a nossa presença de investimento ou onde há oportunidades emergentes que estão, claramente, ao nosso alcance.

Mas, apesar deste obstáculo de imagem, há uma vantagem portuguesa muito especial que vem de algum espírito de improviso: «Fazemos coisas do arco da velha, que só mesmo nós, portugueses, estamos para isso», comenta, com humor, o líder da Suberus, recordando peripécias em várias partes do mundo.

Uma das conclusões gerais da leitura do livro é que não há uma "receita única" para investir no estrangeiro, nem em termos de geografia (se a prioridade é o mercado ibérico ou o mercado de língua portuguesa, por exemplo), nem na forma de o fazer (se sozinhos, à boleia ou em aliança com multinacionais ou em "joint-venture" com locais). «É preciso actuar de acordo com a situação do negócio onde está e do país para onde quer ir», conclui Henrique Martins.

ARMADILHAS A EVITAR
  • Nunca ir à aventura: «Por vezes é preciso fazer vários testes em deslocações prévias»
  • Pressa é inimigo do sucesso: «Nalgumas regiões do globo, como no Japão ou na China, o processo negocial pode durar anos»
  • Arrogância provinciana: «Os hábitos tradicionais latinos de negociação não funcionam de todo em várias partes do globo»
  • Impreparação cultural: «Falta de sensibilidade para as diferenças é mortal»
  • Ingenuidade: «Língua e história comuns não significam cultura empresarial e enquadramento legal e informal similar»


  • VIRTUDES INDISPENSÁVEIS
  • Jogo de cintura: «Estar couraçado para o proteccionismo em muitos países - como em Espanha - ou alterações súbitas nas regras do jogo, como na América Latina»
  • Cosmopolitismo: «Viajar deveria ser quase uma obrigação pessoal»
  • Improviso: «Fazemos coisas do arco da velha; só mesmo nós, portugueses, estamos para isso»
  • Trabalho de casa: «É preciso preparação para a adaptação aos processos de negociação em cada região»


  • NÃO HÁ RECEITA ÚNICA
  • Triangular com multinacionais para entrar em mercados
  • Ir a reboque de grandes grupos na sua deslocalização ou globalização
  • "Joint-Venture" com entidades e parceiros locais (imperativo em países como a China ou o Brasil ou Países Árabes)
  • Aquisição de empresas locais que sirvam de "alavanca" com as cores do país (em Espanha, por exemplo, é preciso ser espanhol)
  • Ir para onde a oportunidades de nicho surja "em qualquer parte do Planeta"
  • Ir onde estão matérias-primas mais baratas (como nos casos do Magrebe para a cortiça ou no Leste da Europa em várias áreas)
  • Seguir os clientes na sua deslocalização e internacionalização (como no caso do cluster automóvel)
  • Seguir o filão de um conceito emergente de mercado (como no caso do "novo mundo do vinho")
  • Explorar a oportunidade da língua, cultura e história comuns (como no caso do Brasil e África)
  • Atacar os mercados mais competitivos em nichos de ponta (União Europeia ou América do Norte)
  • Atacar os mercados transfronteiriços ou vizinhos na Península (como em relação às várias regiões de Espanha) ou geograficamente próximos (como Marrocos)


  • RECOMENDAÇÕES
  • Com parceiros locais coloque sempre um quadro de topo português "ao lado para acompanhar"
  • Utilize imigrantes em Portugal com qualificações para poderem ser "pontas de lança" nos países de destino do seu investimento (por exemplo, para a China ou para o Leste da Europa)
  • Por vezes, é preciso usar regras não-documentadas
  • Os grandes grupos na sua internacionalização deveriam "levar mais de arrasto as PME portuguesas"
  • O Estado português no estrangeiro tem de dar mais apoio especializado
  • Página Anterior
    Canal Temático
    Topo de Página
    Página Principal