O PORTUGAL «PERIFÉRICO» MINHOTO-TRANSMONTANO-DURIENSE
QUE MEXE, DE VIANA A CHAVES, DO ATLÂNTICO AO ALTO TÂMEGA, COM
A INCONTORNÁVEL GALIZA NO HORIZONTE ESTRATÉGICO

Vencer a síndroma do «Interior» Norte

Uma "viagem", à volta de uma mesa na Associação Empresarial de Portugal, de Viana do Castelo a Chaves, entre dois eixos "periféricos", um no litoral atlântico e outro no interior profundo ao longo de uma língua geográfica do Douro ao Alto Tâmega. As estratégias de rompimento destes dois tipos de "interioridade" passam pela incontornável Galiza, o vizinho do Norte, e por descobrir oportunidades de negócio inovadoras onde o leitor menos esperará

Coordenação por Jorge Nascimento Rodrigues

Mesa Redonda organizada pela Agência para o Investimento no Norte de Portugal em Janeiro de 2002 na Associação Empresarial de Portugal, no Porto

O que a Universidade pode fazer pelo «interior»
Agência para o Desenvolvimento Regional do Entre Douro e Tâmega
Estaleiros Navais de Viana do Castelo | Companhia das Águas
IZAR Construcciones Navales

A "interioridade" tanto pode atacar no litoral como no interior profundo nortenho. A síndroma do "interior" pode resultar de acessibilidades em atraso que continuam a remeter cidades e regiões transmontanas para a beleza distante que apenas se conhece pelos postais ilustrados ou pelas raras reportagens de televisão. E, mesmo no litoral, em plena fachada atlântica, a falta de projecção estratégica pode condenar cidades marítimas a uma "interioridade" no meio de pólos urbanos mais fortes. Mas esse síndroma pode ser vencido - é a conclusão de uma mesa redonda realizada na Associação Empresarial de Portugal, no Porto, com o apoio da Agência para o Investimento no Norte de Portugal.

Planos estratégicos

O segredo, diz João Baptista, o recém-eleito autarca de Chaves, é «passar dos Planos de Desenvolvimento Municipal para planos estratégicos de desenvolvimento urbano e para planos estratégicos a um nível mais agregado, como, no nosso caso, para todo o Alto Tâmega». «Os PDM têm sido usados como ferramentas de discriminação negativa - dizem o que não se pode fazer. Nós precisamos de uma inversão - temos de definir as metas e objectivos de médio e longo prazo que temos de alcançar», acrescenta.

Numa região rica em produtos do território e com imensas potencialidades turísticas, nomeadamente termais e gastronómicas, Chaves e todo o Alto Tâmega sofrem de grande carência de infra-estruturas que "aproximem" a região do litoral português. Em virtude dessa "barreira", Chaves é, naturalmente, atraída pela lógica da proximidade transfronteiriça com o vizinho do Norte. «Há uma aposta clara na Galiza pelas vias rodoviárias e ferroviárias que potenciem a fronteira. Chaves fica a 40 minutos de Orense (a capital da província galega de Orense) e a uma hora de Santiago de Compostela. A auto-estrada das Rias Baixas fica a 10 quilómetros da nossa fronteira e o eixo ferroviário galego para Madrid fica a 12 quilómetros, falando-se inclusive da possibilidade de um ramal», prossegue o presidente da Câmara Municipal de Chaves, que considera a Galiza um elemento-chave do plano estratégico do Alto Tâmega. «Temos já sobre a mesa vários pedidos de instalação de empresas galegas», refere, numa lógica de atracção de deslocalizações galegas que tem abrangido, até à data, sobretudo o Minho português.

Cadeia de valor atlântica

O mesmo papel incontornável da Galiza surge com a articulação dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) com o "cluster" galego de construção naval, onde pontifica o grupo IZAR Construcciones Navales (saído da fusão entre Bazan e Astilleros Españoles, com grande expressão em Ferrol), o nono do mundo. «Somos sócios inclusive do 'cluster' galego que tem uma dinâmica muito forte em termos de navios comerciais e militares», sublinha Francisco Laranjeiro, da Administração dos ENVC, que se afirmam como o polo competitivo da cidade minhota e sua imagem de marca internacional.

Os estaleiros ainda hoje dão emprego a mais de 1000 pessoas e têm uma carteira de encomendas muito diversificada na Europa e no Mediterrâneo com mais de 2 milhões de horas, sendo, actualmente, o mais importante estaleiro de construção português. Viana do Castelo é hoje a capital da construção naval lusa. Os Estaleiros integraram a sua cadeia de valor em toda a fachada atlântica nortenha, fazendo subcontratação em 50% do volume de produção «numa franja que vai do Porto à Galiza», refere Francisco Laranjeiro.

Oportunidades inovadoras

O 'interior' duriense e transmontano não é um deserto de iniciativas empresariais inovadoras. Pelo contrário, as oportunidades podem estar onde menos se pensa. O leitor ficará admirado com a história das Águas de São Cristóvão, na serra de Montemuro, perto de Resende, no Douro. Um grupo de jovens empresários de Aveiro descobriu há um ano e meio uma oportunidade neste produto do território: «Fomos ver onde havia à escala nacional captações à venda, e escolhemos uma. Nós nem sabíamos onde ficava Resende», ironiza Belmiro Torres Couto que fundou com outro familiar a Companhia das Águas, uma empresa que aplicou à água engarrafada as estratégias de inovação que o fundador aprendera na Universidade de Aveiro. «Chamaram-nos malucos por estratificarmos a água em segmentos etários, nomeadamente para crianças, e em ampliarmos a segmentação em termos de produtos para além dos espaços comerciais e do escritório - incluímos hoje o próprio copo de água e prestamos o serviço de ir directamente ao cliente ao domicílio», refere este jovem empresário de menos de 40 anos.

O mesmo espírito de que «o 'interior' é uma grande oportunidade» anima Pedro Barros Pereira, responsável pela empresa de Parques do Entre Douro e Tâmega (EDT), que lançou um projecto de recuperação dos espaços industriais urbanos da antiga fábrica Tabopan em Amarante - por onde estão a começar - e em Vila Pouca de Aguiar. A EDT é uma parceria de uma empresa do grupo IPE com as duas autarquias, com a Agência de Desenvolvimento Regional do Entre Douro e Tâmega, com a Mota & Companhia (com raízes em Amarante) e outros empresários regionais. A ideia é criar condomínios industriais com «um conceito integrado de habitação, comércio e indústria» e sem o pesadelo das «externalidades negativas» habituais no 'interior': falta de fiabilidade da rede eléctrica, custo das comunicações, particularmente Internet, e ausência de massa crítica de fornecedores e serviços às empresas instaladas. O objectivo é começar a instalar empresas - e nomeadamente empresas do litoral - a partir do segundo semestre deste ano.

Curiosamente tanto Belmiro Torres Couto como Pedro Barros não consideram a questão dos recursos humanos qualificados como problemática. «Há uma enorme reserva de mão-de-obra técnica qualificada que tem empregos precários na região ou que está emigrada no litoral e que poderá regressar, que deseja regressar se houver oportunidades qualificantes de emprego», conclui Pedro Barros.

O QUE A UNIVERSIDADE PODE FAZER PELO 'INTERIOR'
A polémica é natural. Para os autarcas e dinamizadores empresariais do 'interior' é indipensável estender o aparelho do ensino superior e politécnico a todos os meios urbanos do país para criar pólos de atracção de estudantes (as cidades 'estudantis' geram um tecido empresarial de serviços), elevar as qualificações da juventude local e evitar a fuga de futuros cérebros e talentos para onde as universidades estão. Mas Henrique Diz, um bragantino, presidente do Departamento de Gestão da Universidade de Aveiro e coordenador do projecto de Centro de Investigação sobre Inovação e Competitividade do Território, discorda frontalmente dessa estratégia de "pulverização". «É necessário massa crítica multidisciplinar na impantação de universidades ou de pólos universitários. Também aqui há um efeito de 'clusterização'», sublinha, apontando um caminho para a aliança estratégica entre as universidades existentes e as cidades que não dispõem de estrutura de ensino superior: «Há duas oportunidades a explorar - é possível 'deslocalizar' pós-graduações de acordo com as necessidades de cada região e devem desenvolver-se plataformas de ensino à distância articuladas com uma base presencial».
O tecido empresarial do 'interior' reclama, também, por uma maior "ligação" das Universidades à economia local e regional, e critica as Universidades que estão fechadas sobre si próprias. Mariana Sottomayor, uma investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto lamenta que haja universidades "envelhecidas" que continuem de portas fechadas, e fala da sua experiência positiva quer em Tours, em França, na área da farmacêutica, como em Múrcia, em Espanha, numa região mediterrânica agrícola. Mas, Henrique Diz, acha importante colocar "balizas" nessa relação: «Não compete às Universidades prestar serviços ao tecido empresarial que não estejam ao nível das suas competências centrais. Consultoria e controlo de qualidade, por exemplo, devem ser com o mercado e não com a Universidade. A nossa missão principal é criar difusores do conhecimento, criar quadros com formação crítica e capacidade de aprendizagem, que se possam adaptar ao mercado empresarial e de trabalho real». E prossegue: «Nós desenvolvemos na Universidade de Aveiro uma interacção muito grande com o meio empresarial que permite colocar alunos em final de curso a desenvolverem projectos em empresas na cadeira de projecto no ano terminal. E em particular preocupamo-nos numa interacção com o tecido local de PME e microempresas, onde, aliás, há uma empregabilidade alta para os quadros saídos da universidade».
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