O Segredo do Renascimento Cíclico
do Vale do Silício

Assim se fundou a Genentech...
Jorge Nascimento Rodrigues regista o que desvendam
Paul Romer, Peter Cohan, Geoffrey Moore, Christopher Meyer e John Kao

O Silicon Valley tem produzido umas levas de heróis desde o final dos anos 30. Eles são os filhos de grandes vagas de inovação que ficam associadas ao nascimento de novas indústrias que, neste meio século, marcaram a chamada sociedade da informação.

Até hoje já foram quatro, segundo as nossas contas. Primeiro a electrónica, depois o circuito integrado, mais tarde o computador pessoal, e agora a indústria da Web (veja a Cronologia). A próxima poderá ser a biotecnologia. Esteja por isso de olho nela.

O mito da garagem

a célebre garagem da Hewlett-Packard Ficou célebre o mito da garagem em que dois empreendedores saídos da Universidade de Stanford, com pouco mais de 500 dólares no bolso emprestados por um professor com visão, criaram a avó do Silicon Valley, a Hewlett-Packard, há quase sessenta anos.

O mito repetiu-se quando dois jovens fabricaram, noutra garagem, o primeiro Apple, que viria revolucionar a nossa relação com os computadores pessoais, então a dar os primeiros passos em meados dos anos 70.

CAPITALIZAÇÃO
DE MERCADO (1997)
Locais Biliões
dólares 
 Silicon Valley  452 
 Wall Street 405 
 Detroit 113 
 Hollywood 56 

Pelo meio, houve a rebeldia de um grupo de oito engenheiros que se libertaram do 'pai' tecnológico - que tinha sido um dos inventores do transístor, William Shockley - e criaram no Vale em 1957 a Fairchild Semiconductors, a fábrica-escola que viria a ser o começo do novelo da indústria dos 'chips'.

A interrogação permanece sobre qual é o segredo desta capacidade de renascimento económico daquele vale californiano. É uma faixa de menos de 80 quilómetros ao longo da via rápida 101 entre São Francisco e São José, com muitas aglomerações urbanas coladas umas às outras e cerca de sete mil empresas de alta tecnologia. É o local dos Estados Unidos, e do mundo, com maior capitalização de mercado (mais de 450 biliões de dólares é quanto valem as suas empresas cotadas, a preços de 1997), mesmo superior à da Wall Street.

Onde está a originalidade

Muita gente julga que foram lá inventadas as 'coisas' pioneiras. Mas não.

Os artigos científicos que desencadearam a computação não foram lá escritos. Por exemplo, Alan Turing, o matemático inglês, produziu o memorável «paper» 'On Computable Numbers' em 1936, no outro lado do Atlântico.

o célebre efeito do transístorO primeiros computador com 15 metros de comprido foi montado em 1943 por um grupo da IBM na Universidade de Harvard, do outro lado da América.

O efeito do transístor, para muitos a maior invenção do nosso século, foi descoberto em 1947 nos Laboratórios da Bell, longe dali, ainda que um dos 'pais' tenha depois voltado ao Silicon Valley.

Os jovenzinhos 'hackers' apareceram primeiro no MIT, em Boston. Os primeiros computadores pessoais também não surgiram ali.

A Web muito menos foi lá criada - mas na Suíça. E o primeiro 'browser' surgiu numa recondita Universidade no noroeste americano.

«O que faz a força e originalidade de Silicon Valley, diz-nos Paul Romer, o mais afamado economista de Stanford, é pegar nas invenções que vêm de fora - o transístor, ou o 'browser', ou a manipulação genética -, atrair gente de talento de todo o lado, e transformá-las em alavancas de novas indústrias. Foi assim com os 'chips', depois com os PC, agora com a Web, e amanhã poderá ser com a biotecnologia». No plano cultural, é um pouco o mesmo, recorda Romer - não tendo sido o berço do rock and roll, muitos grupos afamados dos anos 60 e 70 por lá nasceram, como os The Grateful Dead, Santana, Jefferson Airplane e Credence Clearwater Revival.

A opinião de Romer é corroborada por Geoffrey Moore, um dos analistas financeiros do Vale, líder do The Chasm Group, muito procurado depois de ter escrito, este ano, The Gorilla Game (Compra do Livro), que nos resume assim o 'mecanismo': «A região soube apanhar o primeiro momento da revolução da computação e nunca mais parou, criando uma cadeia de valor, em que cada um descobre o seu lugar, o que depois permite alavancar a entrada de outros. Cada um vai dando de comer a outros e assim sucessivamente».

Peter Cohan, um dos gurus de gestão da nova geração americana a que já nos referimos, comenta-nos que o Silicon Valley é «o único lugar do mundo em que a alta tecnologia foi, desde os anos 30, considerada sistematicamente como negócio estruturante de uma economia regional moderna».

OS QUATRO 'FACTORES DE PRODUÇÃO'
  • o empreendedor, mesmo repetente com falhanços
  • o capital de risco
  • uma aglomeração multinacional de talentos
  • o princípio de 'dar de comer a todos'
  • E Christopher Meyer, outro consultor de renome do Vale que já entrevistámos, arrisca que o principal produto 'Made in Silicon Valley' não é... tecnologia. «Você vai ficar boqueaberto - mas é um modelo de cultura empresarial, de gestão da mais velha e mais bem sucedida economia baseada no conhecimento», conclui.

    Cohan acrescenta que «ali se inventou uma nova forma de gerir talentos». «É o local onde há a cultura mais forte de troca de ideias, de permuta de saber, ao vivo, não só nem principalmente por e-mail, mas nos cafés ou com faca e garfo», ironiza John Kao, o ideológo da inovação, que se mudou de Nova Iorque para criar em São Francisco uma 'Fábrica de Ideias' num armazém portuário. Chamam-lhe o 'cafeeing', que bem pode ser à volta de um café 'expresso' - agora na moda - ou de umas cervejas. A Genentech, a pioneira da biotecnologia, ao que dizem nasceu assim, como podem ver na imagem que imortalizou o 'momento', que publicanos no topo.

    OS QUATRO VALORES DO VALE
  • olhar para a frente, e nunca para trás
  • o voluntarismo de fazer coisas mesmo na garagem ou num reboque
  • o anti-elitismo de uma filosofia de criar o 'amigável' com o utilizador
  • a colaboração ao café, a permuta informal de ideias e de saber
  • Apesar do termo 'Silicon Valley' só ter aparecido em 1971, pela pena do editor de então de uma revista da especialidade, as raízes vêm de trás, do século passado, quando Leland Stanford criou El Palo Alto e ergueu a Universidade em homenagem ao seu filho que morrera de tifo na Itália.

    Frederick Terman com os seus dois pupilos-empresários Mas o 'salto qualitativo' dá-se com a visão de um reitor de engenharia, Frederick E. Terman, que nos anos 30 empurrou os seus dois alunos Hewlett e Packard para a aventura empresarial, e que depois nos anos 50 está por detrás da decisão de criar o 'Parque Industrial' para os talentos universitários com sentido empreendedor.

    Depois juntou-se a finança, mas uma muito especial. Os que fazem dinheiro com a tecnologia na anterior vaga tornam-se os financiadores e guias espirituais dos jovens promissores da vaga seguinte. Eugene Kleiner, um dos fundadores da Fairchild Semiconductors, e um dos pupilos de William Shockley, um dos pais do transístor, criou a primeira firma de capital de risco no Vale, a Kleiner Perkins Caufield & Byers, hoje um símbolo. Criou-se, assim, uma 'indústria' do capital de risco. Sand Hill Road, em Menlo Park, é o símbolo máximo desta originalidade - mais de 300 sociedades coladas umas à soutras em mansões com mais de mil Porsches estacionados à porta.

    Segundo Donald Valentino, que em 1972 criou uma das primeiras sociedades de capital de risco, a Sequoia Capital, «o que nós fazemos não é cálculo financeiro; é apoiar empreendedores, mesmo repetentes com falhanços, que visionam o futuro, que criam empresas inovadoras que lançam novas indústrias, que criam uma nova economia».


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