Guimarães capital mundial do "micro-chip"
em Setembro de 2003

Durante duas semanas Portugal vai receber mais de mil especialistas de todo o mundo nas áreas das micro-tecnologias e da micro-electrónica em dois encontros internacionais. Os sensores vão ter por quatro dias a sua capital mundial na cidade-berço da Nação portuguesa, numa iniciativa da Universidade do Minho, e a comunidade científica e tecnológica dos circuitos reúne no Estoril, perto de Lisboa, por iniciativa da ChipIdea e do Instituto Superior Técnico. As potencialidades de um "cluster" das microtecnologias no Norte de Portugal.

Jorge Nascimento Rodrigues, Setembro 2003

O Minho pode transformar-se na região de excelência das micro-tecnologias em torno dos dois pólos de Braga e Guimarães da Universidade do Minho. Este desafio estratégico é potenciado, também, por uma rede empresarial que reúne a Infineon em Vila do Conde, a Leica em Vila Nova de Famalicão, a Blaupunkt e a Grundig em Braga, e a Lear em Póvoa do Lanhoso. O "cluster" nortenho dos "micro-chips" poderá ficar mais completo se envolver mais intimamente como clientes o sector automóvel da Galiza e Norte de Portugal e como fornecedores o "Silicon Valley" do software de Braga.

O primeiro acto de afirmação internacional deste "cluster" emergente no Norte de Portugal é a organização entre 21 e 24 deste mês em Guimarães da XVIIª Conferência "Eurosensors", a mais importante a nível europeu e a segunda a nível mundial. Como o próprio nome indica, a conferência centra-se na área dos sensores, uma das vertentes actuais das micro-tecnologias em grande ascensão com múltiplas aplicações na biomedicina, telecomunicações, defesa, espaço e automóvel. Estão inscritos 450 investigadores e responsáveis de multinacionais de 41 países que vão apresentar mais de 330 artigos científicos.

A mensagem de Ari Requicha

Um dos momentos altos da conferência será a intervenção de Aristides (Ari) Requicha, um português radicado em Los Angeles, na Universidade do Sul da Califórnia, considerado um dos expoentes mundiais em nano-tecnologias. Requicha virá dizer ao fórum que «a confluência de três correntes de investigação - a nano-tecnologia, as redes e a robótica distribuída - está a abrir novos horizontes que prometem aplicações revolucionárias em campos como os da medicina, biologia e ambiente».

«A confluência de três correntes de investigação - a nano-tecnologia, as redes e a robótica distribuída - está a abrir novos horizontes que prometem aplicações revolucionárias em campos como os da medicina, biologia e ambiente», segundo Ari Requicha, o português dos anno-robôs.

Em paralelo decorrerá uma feira que conta com a presença de "estrelas" internacionais, como a Infineon, Raytheon Semiconductors, Proton, Microfab, Nokia, Kluwer, Keithley e algumas portuguesas, como a EDP e a Efacec. A editora holandesa Elsevier publicará os melhores artigos apresentados numa edição do Journal Sensors and Actuators.

Pólo europeu no Minho português

No centro desta conferência e da estratégia de "cluster" minhoto está a área de Micro-tecnologias do Departamento de Electrónica Industrial da Universidade do Minho. Distribuída pelos dois pólos universitários e Braga e Guimarães, a área tem desenvolvido projectos pioneiros implantados em micro-"chips".

Fomos assistir às demonstrações de um micro-laboratório para análises de fluxos biológicos humanos que poderá ser usado por um médico na hora da consulta - o pequeno protótipo do tamanho de um moeda de um cêntimo já efectua análises de concentrações de albumina e ácido úrico na urina - e de vários tipos de micro-antenas (inferiores a 10 milímetros) para aplicação na 3ª geração de telemóveis, na tecnologia sem fios "Bluetooth" e em implantes biomédicos. Neste último caso, por exemplo, refiram-se sensores estimulantes de nervos e músculos do tamanho de "chips" milimétricos para doentes paraplégicos e quadraplégicos.

«Estes são os dois projectos mais próximos do mercado e que nos dão originalidade a nível europeu», refere Higino Correia, o responsável pela área das Micro-tecnologias, que tirou um doutoramento na Universidade de Delft, na Holanda, e leccionou nos Estados Unidos (ver o próprio sítio na Web de Higino Correia). Para a eficácia na construção destes protótipos, o grupo dispõe do único sistema de micro-maquinagem volúmica do silício para criação de estruturas tridimensionais, existente em Portugal, e que cabe em cima de uma pequena bancada.

Impacto transversal

O grupo minhoto dispõe, ainda, de outros protótipos dirigidos à área biomédica, como um sistema de micro-radiografia digital para aplicação pelos dentistas. A tecnologia barata de micro-detecção de raios X que o grupo desenvolveu permite micro-aplicações industriais para análise de ligas metálicas.

A equipa da Universidade do Minho pode, ainda, fabricar todo o tipo de micro-sensores para o automóvel (por exemplo, medição da viscosidade do óleo e sistemas de comunicação sem fios evitando grande parte das cablagens) e fazer um casamento "tecnológico" com o sector da confecção para a implantação de micro-"chips" em fatos especiais, avançando com o desenvolvimento em Portugal da indústria dos "wearables" (roupa com electrónica).

Mas o impacto "transversal" das micro-tecnologias dominadas pela equipa do Minho é impressionante: um micro-pirómetro para a indústria têxtil que está a ser concluído com a colaboração da Leica poderá ter aplicações nas áreas da defesa, do espacial e de todos os processos industriais que lidem com altas temperaturas; e um mini-biorector de controlo e monitorização do crescimento do fermento de padeiro poderá ser aplicado para as indústrias cervejeira, da panificação e produção de fermentos. A equipa pode, ainda, fabricar todo o tipo de micro-sensores para o automóvel (por exemplo, medição da viscosidade do óleo e sistemas de comunicação sem fios evitando grande parte das cablagens) e fazer um casamento "tecnológico" com o sector da confecção para a implantação de micro-"chips" em fatos especiais, avançando com o desenvolvimento em Portugal da indústria dos "wearables" (roupa com electrónica).

O grupo de investigação tem como projecto a criação de uma infra-estrutura com dimensão crítica para o fabrico dos micro-sensores a instalar provavelmente no campus de Azurém da Universidade do Minho, em Guimarães, e que contará com o apoio de multinacionais e empresas portuguesas do sector. A equipa tem em curso um processo de registo de patentes e prevê o lançamento de um "spin-off" empresarial para a comercialização dos protótipos.

"Estado Sólido" no Estoril

Com a presença esperada de 600 congressistas de todo o mundo, vão realizar-se no Estoril, entre 15 e 19 de Setembro, duas conferências internacionais do sector da micro-electrónica. Organizadas por José Epifânio da Franca, fundador da ChipIdea, a mais internacional das empresas portuguesas de "chips", as conferências europeias do "estado sólido" nas áreas dos sistemas e circuitos (ESSCIRC) e das tecnologias e aparelhos (ESSDERC) vão trazer mais de 300 artigos científicos a 12 sessões plenárias. Especialistas de renome da Infineon, National Semiconductors, Philips, Toshiba, Texas Instruments, IBM Microelectronics e de diversas universidades americanas, inglesas e japonesas vão apresentar as mais recentes tendências na área. Os apoios para a sua organização vieram da Atmel norte-americana, da Infineon, da Junta de Turismo do Estoril, do BPI/Fundo Caravela e da IDW, que organiza o Internet café. Outros apoios portugueses procurados bateram com a porta.

A realização deste tipo de conferências em Portugal poderá atrair os decisores do mundo dos semicondutores a considerarem o nosso país na rota das localizações possíveis de investimentos directos de "outsourcing".

Epifânio da Franca sublinhou que «demorou mais de 10 anos a conseguir trazer para Portugal este tipo de conferências». A razão é simples: «Tradicionalmente, elas realizam-se na cintura tecnológica da Europa Central e Nórdica, e sempre houve grande resistência em descê-las para onde não existe indústria nem massa crítica científica relevante na área».

A realização deste tipo de conferências em Portugal poderá atrair os decisores do mundo dos semicondutores a considerarem o nosso país na rota das localizações possíveis de investimentos directos de "outsourcing".

Os "operários" da micro-fábrica minhota
A equipa da Área das Micro-tecnologias do Departamento de Electrónica Industrial da Universidade do Minho é liderada por Higino Correia e distribui-se pelos dois pólos em Braga e Guimarães e conta com cinco equipas. Paulo Mendes, Pedro Trabulo, Paulo Garrido e Luís Gomes investigam as comunicações sem fio por RF e as antenas e inductâncias integradas num "microchip"; Graça Minas, Júlio Martins e José Ribeiro cuidam dos micro-sistemas de análise clínicas; Gerardo Rocha e Nuno Ramos dos micro-detectors de raios-X em tecnologia CMOS; Filomena Soares e Pedro Gomes investigam os mini-bioreactores para estudo do crescimento e monitorização do fermento padeiro; e Carlos Couto, Sérgio Ribeiro e Luís Gonçalves os micro-pirómetros.
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