A e-fraudezita da moda

«Dotcon», uma chuveirada de água fria em cima do «dotcom»

GERRY GRIFFIN, jovem autor inglês, TROCOU o «m» pelo «n» e lança-nos
à cara umas quantas questões INCÓMODAS sobre esta euforia em torno
da nova economia, como «cocktail» de inauguração desta «Contra-Corrente», uma coluna para o DESASSOSSEGO digital

Jorge Nascimento Rodrigues com Gerry Griffin

Gerry Griffin Não estará o exagero e frenesim em torno do «.com» e do «e» a embebedar-nos um pouco a todos? Uma chuveirada de água fria nas nossas cabecinhas é a proposta de «.con» (não confundir com «.com») para nos obrigar a pensar.

É um livro acabado de sair nas terras de Sua Magestade com marketing e vendas exclusivas na Web. Contra-Corrente foi ao encontro do autor, Gerry Griffin, de 33 anos, publicitário da Burson-Marsteller (do grupo Young & Rubicam), ex-director de Relações Públicas da London Business School, uma das revelações da jovem literatura económica britânica dos 90. O seu anterior êxito foi «The Power Game». Ele escreve estas obras a contra-corrente pelo puro prazer de desmistificar. Desta vez foi o «e» que foi ao pelourinho.

Gerry Griffin lançou «.con» na Web na sequência da edição do livro pela Suntop Media, uma jovem editora inglesa criada por Stuart Crainer e Des Dearlove, dois autores britânicos de livros de gestão e coordenadores do prestigiado Financial Times Handbook of Management. Com venda só através do «site», Gerry tenta assim cortar nos custos e arrecadar lucros, algo que ele não pretende que seja puramente virtual.

 O livro apresenta-se | A editora inglesa SuntopMedia 

Confessemos que não é fácil estar a contra-corrente quando a revista TIME elege Jeff Bezos, o fundador da Amazon.com, como fígura do ano que passou, e quando logo, nos alvores de 2000, somos surpreendidos por um «take over» do «boi» Time Warner, um dos conglomerados dos «media» mais conhecidos, pela «rã» American On Line (AOL) que largou 160 mil milhões de dólares para o concretizar!

À primeira vista o «e» e o «.com» estão em total euforia. Para quê, então, vir um inglesito de pelo na venta, sentado em cima de uma caixa de cervejas, colocar-nos «macaquinhos» no sótão?

É o que ele nos explica no animado diálogo que se segue.


Gerry, você escreve logo a matar no início deste seu «.con» que o comércio electrónico - o «e-commerce» mágico, como se generalizou - é uma pura ilusão para a maioria dos negócios, mais morfina tentadora do que coisa real. Não está apenas a querer chocar-nos?

GERRY GRIFFIN - Bom, eu gosto de desmistificar, é verdade, e pode soar a provocaçãozita. Mas é a pura verdade - a Web e a Nova Era Digital são supostas simplificar-nos a vida, não é? E o que é que está a suceder? O contrário, a Web e o digital estão a confundir e ofuscar a nossa vida, e ainda por cima somando-lhe mais custos em cima. A promessa é que o mundo fica a seus pés, oferecendo uma audiência global instantaneamente - mas isso é pura miragem. A maioria dos negócios está a usar a Web apenas como exposição de uma brochura dos seus serviços.

Por isso, ironicamente fala de «.con» e não de «.com» no título do seu livro?

G.G. - Pois, «con» quer dizer uma fraudezita, é só trocar o m pelo n. E juntar o que escrevo em pós-título: cortando através dos exageros para extrair real valor da Internet.

Também somos inundados com a ideia de que estão a surgir novas leis económicas, que convém percebermos para tirarmos proveito delas. Ou isso é pura e-politiquice e absolutamente nada rigoroso em termos de economia?

G.G. - Bom, vamos a ver se você cai na real. Quando se faz um produto ou se oferece um serviço e depois se vende , o que é que se faz? Subtraem-se os custos do preço final e paga-se à cadeia de valor, não é verdade? O que fica é o lucro - ou a promessa dele! A Amazon.com dá-se ao luxo de até nem prometer ainda um tostão de lucro, ou, pelo menos, de não ser muito específica sobre quanto e quando. Quando se sai fora destes princípios básicos, pode acabar-se com resultados absolutamente aberrantes. Alguns já ficaram à beira da bancarrota. Acha que na Web vai ser diferente?

Mas Jeff Bezos acaba de ser escolhido pela TIME como Homem do Ano (1999)...

G.G. - Meu caro, a família americana - o papá e a mamã dos dias de hoje - tem mais capital metido em acções e quotas na tecnologia, do que tem investido na sua própria casa. Se a bolha da Net rebenta - vai a coluna vertebral da América com ela. A escolha deste Homem do Ano é mais para segurar a situação do que um reflexo do sucesso de um Bezos transformado em ícone.

A propaganda sobre o «boom» interminável não o comove?

G.G. - Os booms têm um recorde histórico de acabarem em finais abruptos. A loucura das hiper-valorizações actuais, acreditando-se que qualquer negócio na Web fará fortuna, vai dar muitos amargos de boca.

Mas a Web é apenas mais uma ferramenta tecnológica, ou é mais do que isso - é um novo espaço de mercado e inclusive um novo espaço social?

G.G. - OK, não é uma mera ferramenta - é potencialmente, se quer que lhe diga, uma ferramenta espantosa. MAS (e coloque este mas em maiúsculas) teremos de manter o controlo sobre ela, e explorar as possibilidades que oferece. O que não se admite é que vejamos o nosso espaço reconfigurado por ela. Ou seja, recordando que a tecnologia não faz nada por si, se ficamos alienados por ela, então é porque um outro agente, alguém, consciente ou inconscientemente nos provoca isso. O que é preciso é ajustar o digital ao nosso próprio espaço social, e não o contrário.

Então esta prole toda que anda vendendo o «e-business», a que você chama de «mercadores do boom» - e que Paul Krugman, há algum tempo atrás, apelidava jocosamente de «teóricos acidentais» -, está fazendo o quê?

G.G. - É absolutamente desapontador que uma Invenção com I grande como a Web esteja a ser usada para uns propósitos tão mesquinhos comercialmente falando. Veja todas estas consultoras criando todo este «hype» à volta do assunto, juntando ainda mais confusão e armando-se em grandes salvadores. Mercadores da treta!

Todo o mundo fala agora do virtual e de que a geografia de proximidade foi para o caixote do lixo. Você, neste livro, retoma Michael Porter e diz que até o que é preciso é cada um criar o seu próprio «cluster». Quer explicar?

G.G. - Pois, disse-se que a Web é para abrir as portas ao mundo e tornar as localizações específicas desnecessárias, mas empiricamente, o que é que você vê? Os negócios da Web tendem todos a se juntarem em «cluster». Olhe para o tal edifício inteligente na Broadway em Nova Iorque e para todos esses «valleys» e «alleys» de que se fala. O que isto significa é que a localização é importante. E se quiser de facto alavancar comércio electrónico a sério não dê ouvidos a essas tretas da localização «imaterial». Arranje mas é um bom contexto geográfico, e deixe-se de retórica.

Dos novos modelos de negócio que estão a surgir - novos, pelo menos segundo alguns analistas -, quais deles se lhe afiguram «robustos», dentro do conceito de «robustez» que fala no seu livro?

G.G. - Os robustos serão os que explorem realmente a natureza original da Web, o seu cariz indígena: a sua capacidade de interacção entre as pessoas em tempo real. E se o conseguir transpôr para um contexto comercial, então terá sustentabilidade económica pela certa - veja o caso dos «sites» de licitações. Vendo a coisa ao contrário: diga-me lá, de onde é que um portal saca o dinheiro? Da publicidade dos «banners»... que não produzem valor económico.

Com a febre das fusões e aquisições a bater à porta do mundo digital, o que é que é mais importante: uma orientação de nicho, ou a diversificação e a conglomeração?

G.G. - O consumidor o que é que está cada vez mais a exigir? 'À la carte', não é verdade? Então, talvez seja melhor agarrar um pedacinho da acção do que querer ser tudo para toda a gente. Alguns negócios de nicho estão inclusive a controlar mercados formidáveis - veja o caso dos livreiros. Portanto, não se julgue mais que nicho significa periférico.

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