PME de Santander desafia hegemonia americana

Dois «chicos» do Norte de Espanha vão partir à conquista dos Estados Unidos e desafiar a poderosa MapQuest no negócio emergente da georeferenciação de informação local e empresarial

Jorge Nascimento Rodrigues em Santander

Site da Geofactory | Portal LaNetro | Artigo sobre a LaNetro
O feitiço cantábrico | Cantábria na Web | Traduccion en castellano

Vivenda da Geofactory em Santander Depois de cobrir cinco mil cidades na Europa e na América Latina e de gerar mapas para o «callejero» (localização de ruas em cidades) do portal LaNetro.com em sete países (Espanha, Portugal, França, Itália, Brasil, Argentina e México), uma pequena empresa de 60 trabalhadores em Santander vai partir à conquista da América do Norte e desafiar a poderosa MapQuest pertencente ao grupo AOL.

A Geofactory Technologies, de seu nome de baptismo, ainda não tem sequer um ano de vida - foi constituída em Junho do ano passado. Mas está apostada em transformar 2001 no ano I do «ataque» à cidadela do «high-tech», começando por 160 cidades dos EUA em aliança com um dos portais de conteúdos locais, com quem ainda estão em negociação.

Quem use o Yahoo! para gerar mapas ou o Travelocity para localizar hoteis e outras rotas turísticas nos Estados Unidos dá de caras com o logotipo da MapQuest, que teve o condão de ser pioneira, de ter desenvolvido um agressivo marketing e de ter sido adquirida, no ano passado, pela AOL.

Mas os fundadores da Geofactory não se intimidam. Acreditam na qualidade gráfica, na facilitação da exportação de mapas em formatos desde o GIF ao Flash sem exigência de grande largura de banda e na flexibilidade de personalização dos seus mapas por parte do utilizador, que consideram vantagens competitivas da oferta da empresa cantábrica.

À mesa de jantar

Luis Marina e Antonio Ribalaygua Esta aventura internacional começou à mesa de jantar na casa de Luis Marina, 32 anos, na noite de Natal de 1999. «Eu tinha no regaço um produto criado pela minha empresa de sistemas de informação geográfica e deveria decidir o que fazer - ou vendê-lo ou formar uma empresa baseada na Internet que tirasse proveito da georeferenciação da informação, um segmento que tinha cada vez mais procura», refere Antonio Ribalaygua, 36 anos, que desafiou o amigo para dar a resposta. Luis tinha, então, criado uma empresa de consultoria em Internet.

A estes dois irrequietos cantábricos juntaram-se Jose Luis del Val e Roberto Rico e o acaso de um encontro com o líder madrileno da LaNetro, Javier Dolset. «Javier aconselhou-nos a criarmos uma empresa e a amadurecermos a ideia de um negócio claramente emergente. Sugeriu que dali a um mês analisassemos um 'business plan'», recorda, por seu lado, Luis Marina, que hoje é o CEO da pequena empresa de Santander. A LaNetro viria, depois, a liderar um investimento de 250 milhões de pesetas (cerca de 300 mil contos) à frente de um grupo de investidores que deteriam 40% da Geofactory, criada em Junho passado.

O interesse estratégico da LaNetro era compreensível - a criação de um serviço de georeferenciação seria um valor acrescentado imediato nos portais locais que lançara.

Não à megalomania Apesar do «crash» do NASDAQ nos EUA já ter ocorrido há uns meses, vivia-se, ainda, em Espanha um período de euforia em torno da Internet e muitos dos planos de negócios «eram desenhados com uma fila de zeros», pensando nos milhões a obter nos IPO (entrada em bolsa). «Nós tomámos consciência do efeito do 'crash'. Sempre nos fez confusão a megalomania e sentimos que um modelo de negócio assente nas idas à Bolsa e não no lucro não iria a lado algum». sublinha Antonio, o responsável tecnológico da empresa, que prossegue com alguma ironia: «Para espanto dos nossos investidores traçámos um plano que pretendia gerar lucros quanto antes e apoiado em custos espartanos. Não andavamos na Lua à espera de cairem milhões. Dissemos não aos luxos.Não gastámos uma peseta em publicidade. A estratégia era tirar lucro de um segmento emergente».

Os dois «chicos cántabros» acertaram na «mouche» com a precaução. O negócio começou a dar lucro operacional logo ao fim do primeiro mês de actividade.

O leitor interrogar-se-á como foi possível este «milagre» na Nova Economia, uma área caracterizada por «gastar em vez de lucrar», na análise demolidora, ainda recente, do guru de Harvard Michael Porter. O segredo foi não se deixar iludir com o chamariz dos portais (que viviam da publicidade na Web). A Geofactory definiu um segmento de negócio muito mais amplo - o da georeferenciação de informação e dados que assume hoje em dia um alto valor acrescentado quer para o utilizador individual, como sobretudo para as empresas.

O ouro da localização

Com a plataforma da Internet, o negócio dos mapas, guias e rotas, do controlo de frotas ou de pontos de interesse, que «estava prisioneiro dos pesados e estáticos» Sistemas de Informação Geográfica (os GIS, no acrónimo original em inglês), transformou-se radicalmente. A Internet trouxe uma vantagem competitiva para os serviços de valor acrescentado em cima da cartografia digital. Foi isso que Antonio Ribalaygua, que tinha criado uma empresa na área do GIS, se apercebeu. O segundo impulso foi dado pelo disparo da mobilidade de comunicações com as novas plataformas de telecomunicações, como o GSM, com o desenvolvimento dos novos aparelhos móveis (telemóveis e assistentes pessoais digitais) e com novas linguagens de programação como o WAP.

O interesse óbvio do segmento levou a LaNetro a fazer uma proposta irrecusável de aquisição a 100% da Geofactory. Os fundadores da pequena empresa de Santander detém hoje 6% do grupo madrileno.

Com base na aquisição da Geofactory, a LaNetro desenvolveu uma nova área de negócios em torno dos serviços baseados na localização, que representa, actualmente, 25 a 30% da sua facturação e que, até final do ano, atingirá os 40 a 45%.

Viragem para o B2B

A percepção da dimensão deste segmento de negócio levou a própria Geofactory a operar uma viragem para aplicações «customizadas» para clientes empresariais. «Iremos basear 75% da nossa actividade nesta área, que é uma espécie de B2B», acentua Luis Marina, que enumera vários eixos de georeferenciação de dados: localização em tempo real de frotas de veículos; geoposicionamento de imóveis; televendas; controlo de alarmes; e serviços públicos e municipais aos cidadãos.

Na mira estão sectores como o imobiliário (um dos clientes é o Bescasa, em Portugal), as empresas de segurança (a Prosegur é um dos clientes), os bancos (para geo-marketing), as companhias de seguros (reboques e ambulâncias para veículos acidentados), as construtoras (gestão de gruas em obras, por exemplo), todo o sector da logística e distribuição, os operadores de telecomunicações móveis (50% do tráfego futuro vai centrar-se em serviços deste tipo), os próprios media (para georeferenciação de conteúdos) e a administração pública.

O feitiço cantábrico
Nos corredores da LaNetro são conhecidos pelos «chicos cántabros», um cognome que honra a individualidade desta parcela do grupo madrileno. As gentes da Cantábria são herdeiras de um povo guerreiro que, à semelhança dos lusitanos, deu muitas dores de cabeça aos romanos na colonização daquela parte norte da Península Ibérica. Os fundadores da Geofactory prezam muito a terra onde estão estabelecidos. «Em Santander há uma óptima qualidade de vida e um ambiente excelente para trabalhar. Em momento algum pensámos em nos mudar para a região de Madrid», sublinha Antonio Ribalaygua, que confessa, a rir, já quase ter seduzido o líder da LaNetro, Javier Dolset, com o feitiço cantábrico, um bom antídoto à mega concentração na capital espanhola.
Para fazer jús à exigência de um bom ambiente de trabalho, a empresa adquiriu um «chalé» em La Pereda, nas imediações da cidade, numa zona outrora rural (ainda se podem ver umas vacas a pastar) hoje em urbanização com vista para o «campus» universitário de Santander.
A Cantábria, onde ficam situadas as Grutas de Altamira e os Picos da Europa, está em quarto lugar entre as regiões espanholas (depois de Madrid, Catalunha e Asturias) em termos de remunerações dos quadros e conta com um nível de educação elevado na sua população activa, en virtude da qualidade do ensino universitário e da formação profissional. 95% dos 40 quadros em «full-time» da Geofactory são licenciados e a idade média dos 60 trabalhadores ronda os 26 anos.
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