A Baía do Genoma

A cidade da Golden Gate e o Vale do Silício mais famoso do mundo querem posicionar-se no primeiro lugar da próxima vaga económica, a da bioeconomia. Um investimento inicial de 4 biliões de dólares (mais de 4 mil milhões de euros) numa área deprimida da cidade de São Francisco é o primeiro sinal desta aposta estratégica para as primeiras décadas do século XXI. Esta região da Califórnia depois de se ter tornado célebre como Silicon Valley quer ganhar agora o cognome de Genomics Bay

O Ardina na Web regressa ao Vale em Maio de 2000

Jorge Nascimento Rodrigues em São Francisco

Um mega-projecto de «campus» científico e de empresas biotecnológicas orçado em mais de 4 biliões de dólares (mais de 4 mil milhões de dólares) está a nascer em São Francisco, na Califórnia. Denominado «Mission Bay Biosciences Campus» (na Web em www.missionbaysf.com) irá revolucionar mais uma das áreas urbanas deprimidas ligadas à história industrial e portuária da cidade, a sul do denominado Multimedia Gulch, a zona urbana onde pontificam hoje as empresas do multimedia e da Web.

O projecto urbano é liderado por uma empresa privada, a Catellus Development (cotada no NYSE de Nova Iorque e na Web em www.catellus.com), e pretende ser um modelo de desenvolvimento muito completo, envolvendo uma área de condomínios habitacionais para 6000 fogos e mais de 10 mil moradores, uma zona de comércio de alta qualidade, uma área de 500 metros quadrados para fixação de laboratórios e empresas biotecnológicas, uma zona empresarial de alta tecnologia com incentivos, um hotel de 500 quartos e um «campus» de bio-investigação da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF).

O «campus» da UCSF já começou a ser construído e a sua primeira fase deverá estar concluída em 2003. Quando concluídas todas as fases, o investimento universitário rondará 1 bilião de dólares e pretende fixar 9000 investigadores e pessoal de apoio. O primeiro lote de condomínios foi atribuído à Avalon Bay (na Web em www.avalonbay.com) e os blocos para empresas deverão estar concluídos em 2002.

A próxima corrida

Localização do Projecto Mission BayDepois de se ter tornado na capital mundial do multimedia, São Francisco quer chegar ao cinquentenário do desenho do modelo de dupla hélice do ADN (descoberto em 1953 por James Watson, Francis Crick e Rosalind Franklin), que se realizará em 2003, posicionada no primeiro lugar da «corrida» da bioeconomia, cujo apito de partida começou recentemente com o efeito mediático das descobertas em torno do genoma humano.

Trata-se de uma estratégia regional mais ampla. Toda a Bay Area de São Francisco quer estar preparada para dar as cartas na bioeconomia que dominará o dinamismo económico de meados da próxima década, à semelhança do que a Web representa hoje. «Esta região será a líder do Século do Bio», afirma Sue Markland Day, directora do Bay Area Biosciences Center. A convicção baseia-se na massa crítica existente.

Sue Day avalia em 250 mil pessoas o número actual de investigadores e técnicos ligados ao sector da biotecnologia nesta região e calcula o investimento anual em Investigação & Desenvolvimento em mais de 2,2 biliões de dólares (mais de 2,3 mil milhões de euros). Para Jon Jenni, director para a área da biotecnologia do San Francisco Partnership (na Web em www.sfp.org), existem mais de 700 empresas neste sector económico em toda a região.

'Cluster' sem par

Foi na Universidade da Califórnia em São Francisco que a saga da biotecnologia deu os primeiros passos há quase 30 anos. Foi em 1973 que Herb Boyer juntamente com Stan Cohen, da Universidade de Stanford, criaram as primeiras moléculas de ADN recombinante e, três anos mais tarde, juntamente com Richard Swanson, um capitalista de risco, lançaram a primeira empresa da área, a Genentech, a «avó» do sector, sedeada em São Francisco Sul. A UCSF detém o recorde de 250 novos produtos patenteados nesta área e viu nascer do seu seio, entre professores, alunos e produtos patenteados, 57 «spin offs» desde meados dos anos 70.

Acresce que a região alberga em Walnut Creek a sede do Projecto público de Sequênciação do Genoma Humano e o braço armado da mediática Celera Genomics, a PE BioSystems, está localizado em Foster City, no corredor do Silicon Valley.

 A importância da genómica na próxima grande revolução económica 

Segundo o levantamento realizado por Cynthia Robbins-Roth, no best seller do momento, intitulado From Alchemy to IPO - The Business of Biotechnology (compra do livro), as principais empresas de «biochips» - uma das áreas de ponta de cruzamento entre a investigação em torno do ADN e a informática - estão, também, sedeadas ao longo do Vale, em Palo Alto (Incyte Pharmaceuticals, Protogene Laboratories, CipherGen), Sunnyvale (Molecular Dynamics e Hyseq), Menlo Park (GeneTrace Systems) e Santa Clara (Affymetrix).

Robbins-Roth, que foi investigadora na Genentech e que dirige hoje a BioVenture (na Web em www.bioventureconsultants.com) em San Mateo, declarou-nos que «a força estratégica deste 'cluster' não tem par no mundo».

A mais recente «estrela» da genómica, a Double Twist, citada na semana passada na revista «Time» (edição de 22 de Maio) fica sedeada em Oakland, na outra margem de São Francisco. Aliada à Sun Microsystems e à Oracle, duas das vedetas do Silicon Valley, a Double conseguiu a proeza de ser a primeira a «mapear» o genoma humano com base num esforço de supercomputação jamais visto, o que lhe permitiu «mostrar» onde cerca de 105 mil genes humanos estarão ou poderão estar localizados.

 Veja aqui o artigo da Time sobre a Double Twist 

Uma nova aposta em São Francisco

Esta cidade do Pacífico conseguiu nos últimos dez anos revolucionar as suas antigas zonas históricas industriais e portuárias, poupando-as à «selva» de uma paisagem entre a arqueologia industrial degradada e a pobreza e criminalidade reinantes. É um exemplo digno de registo para outras urbes.

Seguindo uma estratégia denominada de reurbanização dos «Novos Territórios», São Francisco criou o Multimedia Gulch - a área a Sul da Market Street, a principal artéria da cidade - onde hoje estão instaladas mais de 400 empresas de multimedia e web, entre as quais se contam a Macromedia e a Studio Archetype, entre as mais conhecidas internacionalmente.

No conjunto, a cidade conseguiu atrair a instalação de 800 empresas desta nova área que envolvem 50 mil pessoas e que facturam mais de 2,5 biliões de dólares por ano, segundo um estudo de Marie Jones, a directora de desenvolvimento económico do San Francisco Partnership.

O actual mega-projecto de biotecnologia para a zona de Mission Bay (a que fazemos referência atrás), bem como o processo de renovação urbana e industrial do cais nº70 ainda mais a sul, são a continuação «lógica» desta aposta.

A cidade de São Francisco e a Bay Area são líderes, nos Estados Unidos, de atracção de investimentos de capital de risco para estas novas actividades económicas ligadas ao multimedia e à web. Segundo Frederick W. Quattlebaum, da Price WaterhouseCoopers, em 1999, em 290 operações realizadas envolvendo 3 biliões de dólares (3,2 mil milhões de euros), 34% dessas operações e 43% do montante global foram realizados nesta região da Califórnia. Estes números significam quatro vezes mais do que na região de Boston e quase cinco vezes mais do que nas regiões de Los Angeles e Nova Iorque (onde funciona o também famoso Silicon Alley).

Para este desempenho muito contribuiu o Programa de Estudos Multimedia (na Web em http://msp.sfsu.edu) lançado pela Universidade Estatal de São Francisco (SFSU) em 1992 nos primórdios do CD-ROM. O programa começou a ser dado na sala de estar do gabinete de Robert Bell, um professor de cinema que lançou o curso com 26 alunos e duas turmas. Nos últimos oito anos, saltou para 260 turmas e mais de 1500 alunos por ano entre os 16 e os 65 anos, centrado em torno da Web, do tridimensional, do filme e do vídeo, referiu-nos Christopher Marler, actual director do programa.

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