A raposa que desafia a Microsoft

Em apenas quatro meses o novo "navegador" na Web atraiu mais de 26 milhões de utilizadores em todo o mundo e está a gerar uma nova vaga de start-ups. Na sua origem, um jovem da Florida de 19 anos que eliminava "bugs" desde os 14 e que declarava que queria ser jornalista. A revista norte-americana Wired elegeu Firefox o seu tema de capa no mês passado - "A Revolta Firefox". A equipa criadora do "navegador" foi nomeada para os Óscares da Top Rave-Wired Renegade of the Year, que decorreu em São Francisco no final de Fevereiro.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Março 2005

Referências na Web
"Blogue" de Blake Ross | Divulgação do Firefox
"Descarga" gratuita do "browser" | Artigo na revista Wired

Três nomes marcaram o ano tecnológico de 2004 - "blogue", "Lenovo" e "Firefox". O primeiro foi, mesmo, eleito a palavra do ano pelo dicionário em inglês "online" Merriam-Webster's - os "blogues" vão em mais de 10 milhões no mundo e transformaram-se no mais jovem dos media. Por seu lado, Lenovo é o nome de combate internacional da multinacional chinesa Legend e ficou-nos na memória quando a 7 de Dezembro comprou à IBM a divisão de computadores. Finalmente, Firefox é provavelmente menos conhecido do leitor menos assíduo das ferramentas Web. Esta "raposa" cor de fogo é o logotipo e marca do mais recente "navegador" ("browser") lançado pela Fundação Mozilla a 9 de Novembro passado como alternativa ao usual Internet Explorer (IE), da Microsoft, que vem nos pacotes de software quando compramos um computador. A janela de oportunidade derivou dos protestos constantes dos utilizadores do IE face à percepção generalizada de falta de segurança.

O que agitou os meios especializados da Internet foi o facto de este "navegador" ter chegado aos 10 milhões de utilizadores num ápice e de estar, no seu quinto mês, a caminho dos 27 milhões. Todos os meses "comem" um ponto percentual do mercado dominado pelo IE. No plano técnico trata-se de uma ferramenta programada em "fonte aberta" ("open source", no jargão da informática) que tem permitido aos programadores em todo o mundo criarem extensões em torno deste código e aos tecnólogos empreendedores criar start-ups em volta dos negócios que esta plataforma tecnológica pode gerar.

No plano do marketing, está a ser uma revelação tendo gerado um movimento de evangelistas - os seus principais veículos são o boca-a-boca entre utilizadores, o marketing viral via "blogues" e assinaturas no correio electrónico, e os botões e "banners" em sítios na Web afiliados. Hoje em dia há, nos quatro cantos do mundo, "merchandising" de todo o tipo com o logo da raposa cor de fogo, criado pelos próprios fãs - desde tatuagens, porta-chaves até às vulgares t-shirts. Numa ousadia de enfrentar o incumbente (a Microsoft), a equipa por detrás do Firefox movimentou uma campanha de angariação de donativos - através do sítio na Web www.spreadfirefox.com - que permitiu a publicação de um anúncio de duas páginas em 16 de Dezembro no The New York Times. Dez mil apoiantes garantiram 250 mil dólares que pagaram um dos mais caros espaços do mundo nos media.

O Google estabeleceu, desde início, uma relação estreita com o novo "navegador" e a Yahoo! acaba de lançar uma barra de ferramentas especialmente desenhada para o Firefox. A interacção entre "navegadores" e "motores de pesquisa" é natural e correm rumores de uma simbiose no futuro, algo como um "Googlefox", apesar de isto não ser confirmado. Os pesos pesados anti-Microsoft empregam dezenas de programadores da "escola" Firefox - a Sun emprega-os em Beijing, na China, e a IBM em Austin, no Texas, por exemplo.

O miúdo que eliminava "bugs"

A revista norte-americana Wired elegeu Firefox o seu tema de capa no mês passado - "A Revolta Firefox". A equipa criadora do "navegador" foi nomeada para os Óscares da Top Rave-Wired Renegade of the Year, que decorreu em São Francisco no final de Fevereiro. Nos bastidores da raposa cor de fogo estão Blake Ross, de 19 anos, que deu o rosto à capa da Wired, e Bem Goodger, um neozelandês de 24 anos que finalizou o projecto a partir de 2003 e que, recentemente, ingressou no Google.

Blake é um dos fenómenos de adolescentes norte-americanos que se transformam em tecnólogos precoces - aos 14 anos começou na Florida a resolver "bugs" para o grupo Mozilla, um leque de programadores responsáveis pela manutenção do código dos "navegadores" do defunto Netscape que foi derrotado pelo IE em 1998. Há cinco anos atrás, o adolescente de 14 anos dizia que queria ser jornalista. Agora é meio empreendedor no Silicon Valley - acaba de criar uma start-up com Joe Hewitt, outro crânio do software - e meio estudante universitário, pretendendo concluir o curso na Universidade de Stanford. Mas, confessa no seu "blogue", que "não acredita que vá passar o resto da minha vida nos computadores".


ENTREVISTA a Blake Ross
(ainda antes de ser nomeado para "renegado do ano")

«Todos nós continuamos a trabalhar gratuitamente no projecto pelas mesmas razões com que o começámos: porque achamos que ele faz a diferença, e isso dá-nos imenso prazer. Além do mais, um sem número de start-ups começaram a nascer nos últimos meses para desenvolverem extensões baseadas na nossa plataforma. As empresas começam a compreender as oportunidades que se abriram».

Está admirado com a fama súbita do Firefox?

Estou surpreendido com a velocidade, mas não com o facto de ter tido sucesso. Já em 2002, nós que estivemos envolvidos neste novo "navegador" sabíamos que era bem real a procura desesperada por uma experiência na Web segura e mais fácil.

O que é que permitiu este disparo?

Sem dúvida o boca-a-boca foi a melhor arma de marketing. Mas não julgue que isso foi feito só através da promoção nos "blogues" ou noutros novos media online. Muito do que aconteceu foi recomendação pessoal, literalmente de humano para humano - miúdos do colégio a dizerem aos pais para testar o Firefox, amigos convencendo amigos, empresas convencendo os seus empregados a usá-lo, etc.

Quando desenharam o conceito deste novo "browser" estavam a pensar em "totós" da Web como eu, ou no nicho dos tecnólogos sempre à procura da última coisa na berra?

Creio que o nosso segredo foi construir algo que apela a audiências da Web muito divergentes. Sempre nos preocupámos com o utilizador comum da Web, mas também não desprezámos os tecnólogos. As nossas extensões permitem a qualquer um mais sofisticado montar o "browser" que pretenda. A elite tecnológica são os primeiros a adoptar - se os tivéssemos alienado, não teria havido o boca-a-boca que nos permitiu o sucesso.

A vossa ideia é deitar abaixo a Microsoft, começando por agrupar todos os que ideologicamente são contra este monopólio? Mas não temem ter o mesmo fim que a Netscape depois de 1998?

Creio que evitaremos a sina da Netscape. Não andamos a colocar bandeiras vermelhas por todo o lado clamando que vamos ter 95% do mercado em seis meses. Não estamos a tentar 'deitar abaixo' a Microsoft. A Fundação Mozzila é uma entidade sem fins lucrativos. Temos, de facto, alguns bons aliados. Mas, acima de tudo, creio que as empresas compreendem hoje melhor a importância de uma Web aberta, entendem-no melhor hoje do que nos tempos da Netscape.

Como surgiu a ideia da raposa cor de fogo?

No início não era esse o nome. Tivemos de mudar o nome inicial do produto que era Firebird - "pássaro de fogo". Decidimos que deveríamos manter o "fire" e andámos durante dois a três meses às voltas: Fireblast, Firefly, Firebomb, Fireworks? Nada nos agradou. E acabámos, por acaso, em Firefox - porquê? Bom, a raposa tem aquela conotação que nos agradou: inteligente e ágil! Mas confesso que, depois, os designers de Silverorange e Jon Hicks da HicksDesign nos apareceram com este fabuloso logotipo da raposa.

Nestes dois anos de desenvolvimento do projecto, qual foi o momento que mais o marcou?

Pode crer que cada dia que passa me espanta ainda mais. Os momentos mais gratificantes vêm desta audiência incrível de gente comum - pais e mães, avós, o seu dentista, a florista, o livreiro local. Recebo correio electrónico diário deste tipo de gente a dizer-me que o Firefox lhes melhorou a experiência na Web.

Qual é o modelo de negócio do projecto? É possível basear a sua sustentabilidade em doações de fãs e no trabalho gratuito dos programadores?

Quem julgue isso tem de olhar mais fundo para outras fontes de rendimento do "browser". De qualquer modo, todos nós continuamos a trabalhar gratuitamente no projecto pelas mesmas razões com que o começámos: porque achamos que ele faz a diferença, e isso dá-nos imenso prazer. Além do mais, um sem número de start-ups começaram a nascer nos últimos meses para desenvolverem extensões baseadas na nossa plataforma. As empresas começam a compreender as oportunidades que se abriram.

Vai acabar o curso em Stanford, ou o apelo do empreendedorismo do Silicon Valley vai submergi-lo?

Gastei os meus anos de liceu na Netscape e não vou voltar a perder uma oportunidade única, por isso é seguro que vou terminar Stanford. Mas o apelo do empreendedorismo é forte e vou tentar comer o meu bocado do bolo. Recentemente criei uma start-up com um velho colega do grupo original do Firefox.

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