Dólares lusos no Silicon Valley

Grupos e investidores portugueses arriscam no hi-tech californiano

Jorge Nascimento Rodrigues com o «cérebro» da Finet.com, em Walnut Creek

Daniel Rawitch O leitor provavelmente não imagina, mas mais de 9 milhões de contos lusos já foram investidos num só caso no «hi-tech» do Silicon Valley. 50 milhões de dólares (45 milhões de euros) de proveniência portuguesa foram aplicados nos últimos anos numa das novas «estrelas» da Web californiana, a Finet Holdings Corp, desde terça feira passada designada por Finet.com Inc (com a sigla FNCM no NASDAQ e com página de apresentação na Web em www.finet.com, onde se apresenta como America's Home Finance Network).

«Os portugueses foram os primeiros a apostar no nosso projecto, quando lançámos a nossa oferta inicial pública de acções. Na ocasião, um investidor português colocou 4 milhões de dólares na nossa empresa, o que nos permitiu arrancar com a nossa estratégia e realizar a primeira aquisição decisiva com a compra da Monument, uma entidade hipotecária muito bem posicionada», confirma Daniel Rawitch (na foto), de 40 anos, o «cérebro» da Finet, que nos recebeu no seu escritório em casa, nas montanhas de Walnut Creek, situadas na chamada «Contra-Costa» da Bay Area de São Francisco.

Uma estratégia não radical

Esta empresa de serviços financeiros desenvolve actualmente na Web uma solução original de empréstimos e hipotecas para compra de casa nos Estados Unidos. «Decidimos, desde o início, que a Web era uma plataforma fundamental talhada mesmo por medida para o negócio hipotecário. A janela de oportunidade existia, já que os grandes grupos bancários do sector ainda não despertaram a sério para a Web, enredados na contradição do que fazer com os seus canais tradicionais», afirma o nosso interlocutor.

«Mas não lançámos uma guerra contra os intermediários tradicionais de hipotecas nem contra os agentes imobiliários. Pelo contrário, optámos por os mobilizar para esta nova visão, fornecendo-lhes soluções para se posicionarem na Web, e criando com eles uma rede de 'brokers', onde desenvolvemos 90% do nosso negócio. Apenas 1% funciona numa relação directa entre a Finet e o consumidor final», explica-se Dan Rawitch, ao mostrar-nos a toalha de papel da cervejaria de Los Gatos onde gizou a esferográfica todo este plano em 1994.

Os dois principais «sites» profissionais da Finet (o iQualify.com e o Interloan.com) são considerados entre os 10 melhores da América neste novo sector.

Visite aqui o iQualify.com, On Line Mortgage Applications and Approval, e o Interloan.com


O investimento foi liderado por um investidor português, José Salema Garção, que com ele trouxe, depois, os grupos Amorim e Espírito Santo e outros investidores, como o Banco Privado Português e a Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento. Os portugueses controlam hoje 55% da Finet e já valorizaram o seu investimento em 5 ou 6 vezes.

Um português, António Falcão, do grupo Amorim, tem assento no «management» de topo da Finet que é dirigida desde 1998 por Mark Korell, considerado um dos melhores especialistas americanos do sector, que tinha sido, até ali, o dirigente máximo da Northwest Mortgage, a maior firma americana de empréstimos imobiliários e de hipotecas. Dan confessa-nos ter levado «seis meses a convencê-lo», mas a sua 'aquisição' foi a garantia para muitos investidores de que o projecto tem pernas para andar.

A Finet atingiu este mês uma capitalização de mais de 500 milhões de dólares (450 milhões de euro, mais de 90 milhões de contos) com um preço recente de 6,5 dólares por acção, tendo os analistas do sector definido os 20 dólares como meta «realista» a atingir no prazo de 18 a 24 meses. A concretizar-se o objectivo, corresponderá a um ganho potencial, para os portugueses, de mais de 180 milhões de contos, um verdadeiro «ovo de Colombo» de multiplicar fortuna.

Não é tiro no escuro

«Aparecem-me muitas propostas de negócio por dia. Mas só aposto naquilo que me 'cheira'. Sem dúvida que apostar neste tipo de empresas é um risco, mas eu chamar-lhe-ia um risco controlado. Não é um tiro no escuro», garante-nos José Salema Garção em Lisboa. Ele não se acha um especialista de negócios na Web, mas segundo Dan Rawitch é «um investidor muito intuitivo».

Salema Garção explica-se: «O projecto é muito interessante. Quando me foi apresentado ainda não havia esta febre em torno da Internet. Mas pareceu-me que estava claramente virado para o futuro. E tudo indica que acertámos em cheio. A Finet antecipou-se e agora a correcção da sua estratégia é confirmada pelo interesse que bancos de investimento americanos têm manifestado em fazer reforços de capital na empresa».

O mercado hipotecário americano envolve hoje 1,4 triliões de dólares (pouco mais de 1,2 triliões de euros, uma soma incomensurável em contos) estando terrivelmente fragmentado. Espera-se que a Web possa captar 5% de quota em 2005, «o que, mesmo sendo uma percentagem muito pequena, representa um movimento de muitas dezenas de biliões de dólares, suficiente para criar um importante mercado digital», conclui Dan Rawitch.

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