A Economia Digital Emergente

Relatório publicado em Abril de 1998
pelo Secretariado para o Comércio Electrónico
do Departamento do Comércio Norte-Americano

Nos anos mais recentes, a economia dos Estados Unidos superou todas as expectativas. Muitos observadores pensam que isso se deveu aos avanços das tecnologias de informação "guiadas" pelo crescimento espetacular da Internet. O próprio presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, num testemunho ao Congresso norte-americano em Fevereiro de 1998, afirmou que "os avanços no poder computacional e nas comunicações parece terem sido uma força de primeiro plano por detrás desta tendência positiva" (testemunho em www.bog.frb.fed.us/boarddocs/HH/).

Alguns comentaristas foram mesmo mais longe e sugeriram que este avanço gerou "um boom de longa duração", que projectará a nova economia para as alturas nos próximos 25 anos (ver nomeadamente o artigo sobre "A História do Futuro - 1980/2020" na revista Wired de Julho do ano passado, em www.wired.com/wired/5.07/longboom.html).

Contudo, alguns economistas, como Paul Krugman, da Sloan School of Management do MIT, e Paul Romer, de Stanford, manifestam-se muito cépticos àcerca da contribuição das tecnologias da informação para a produtividade global. Há ainda pouca evidência directa nas estatísticas governamentais de que tais investimentos tenham aumentado drasticamente a produtividade em muitas outras indústrias.

Independentemente desta avaliação, uma coisa é certa - o seu impacto na economia foi significativo. As tecnologias da informação cresceram a uma taxa que é o dobro da do conjunto da economia - e esta tendência vai continuar, tudo o indica. Os investimentos neste sector representam hoje 45 por cento de todo o investimento em capital fixo nas empresas. A tendência para a baixa dos preços destes produtos empurrou a inflação para baixo. Segundo os nossos cálculos, em 1996 e 1997, a baixa de preços no sector diminuiu a inflação num ponto percentual. Sem esse contributo, a inflação global - que se ficou pelos 2% - teria sido de 3,1% no ano passado.


Peso duplicou numa década

Um dos factos mais importantes, nos últimos anos, foi o aumento do peso das tecnologias de informação no produto nacional bruto. Essa percentagem passou de 4,2% em 1977 para 6,1% em 1990, quando o PC começou a penetrar nas casas e nos escritórios. Depois entre 1993 e a actualidade saltou para 8,2 % (estimados para 1998), em virtude do arranque da actividade comercial na Net. Em vinte anos, aquele peso no PNB passou para o dobro!

Se avaliarmos em termos de contribuição para o crescimento económico real (ajustada em função dos preços e da performance), a evolução no último quinquénio mostra as seguintes percentagens: 20,9% em 1993, 41% em 1995 (o pico neste período), 34,7% para 1996 e 28,3% para 1997. Em média, as tecnologias de informação foram responsáveis por quase 1/3 do crescimento real da economia. O seu impacto também se reflectiu na capitalização de mercado. Este valor agregado para as cinco maiores empresas do sector - Microsoft, Intel, Compaq, Dell e Cisco - disparou de 12 biliões em 1987 para 588 biliões dez anos depois, segundo um estudo da Goldman Sachs. Um multiplicador próximo das 50 vezes!

Por seu lado, as capitais de risco puseram 12 biliões de dólares em «start-ups» das comunicações, computadores e periféricos, electrónica e instrumentação, semicondutores e software só nos dois últimos anos, segundo dados da Price Waterhouse (ver em www.pw.com/vc).

Mas, apesar destes números, a revolução digital ainda vai no adro. As tendências apontam para que o seu crescimento seja influenciado por quatro tipos de actividades económicas: a própria construção da Internet, que poderá passar dos 100 milhões de utilizadores para 1 bilião em 2005, segundo Nicholas Negroponte, o director do Media Lab do MIT; o comércio electrónico entre firmas através da Net, iniciado há dois anos, e que poderá atingir os 300 biliões de dólares em 2002, segundo os dados da Forrester Research; a distribuição puramente electrónica de produtos e serviços, como programas de software, jornais, CDs de música, que já não precisam mais de lojas ou quiosques, ou mesmo bilhetes de avião e movimentos bolsistas, um sector que no conjunto poderá tornar-se no maior e mais visível fluxo económico da nova economia digital; e, finalmente, o retalho de produtos tangíveis, com encomenda electrónica e distribuição física, como computadores, livros, software, carros e flores.


Ao alcance dos pequenos

Uma das consequências que o comércio electrónico através da Net vai trazer é torná-lo ao alcance mesmo dos mais pequenos. Nos anos 70 e 80, as empresas começaram a transferir informação comercial, enviando e recebendo ordens de encomenda, facturas e guias de remessa através da transmissão electrónica de dados, o EDI (em inglês, electronic data interchange), um standard para compilação e transmissão de informação entre computadores, através de redes de comunicação privadas denominadas VAN (em inglês, value-added networks), ou redes de valor acrescentado. O custo de instalação e a manutenção destas VAN colocavam a comunicação electrónica comercial fora do alcance das PME. Este tipo de empresas ainda hoje depende do telefone e do fax para fazer negócios.

A Net veio alterar radicalmente esta situação. Empresas de todos os tamanhos podem agora comunicar entre si electronicamente, através da rede pública da Internet, ou por meio de redes internas - as intranets - ou extensíveis aos seus parceiros - as extranets -, e inclusivé através das VAN já referidas. E as empresas estão rapidamente a utilizar as oportunidades que isto gera. Casos como os da Cisco nos «routers», ou da Dell na venda de computadores, ou o sector das componentes para a Boeing, estão tão convencidos dos benefícios que daí podem advir, que acreditam que uma grande parte do seu negócio poderá "migrar" para a Net nos próximos três a cinco anos!

No caso da Boeing, por exemplo, esta já recebe 50% das suas encomendas via EDI e crê que com a Net poderá até ao ano 2000 automatizar até 60% das encomendas de componentes que lhe chegam via fax, telefone e carta.

A capacidade de atração de clientelas novas é também impressionante, por exemplo, no caso da Dell – 80% dos seus clientes individuais na Net e das PME que compram através do «site» da Dell não eram anteriormente clientes. E a sua média de compras é superior à do cliente típico da Dell.

Em geral, este comércio electrónico é incentivado pelos ganhos nas compras, pela redução dos stocks, pela diminuição dos ciclos temporais, por um mais eficiente e efectivo serviço ao cliente, por custos mais baixos de vendas e marketing e por novas oportunidades de venda.


Os funis de conteúdos

Cerca de 90 por cento dos utilizadores da Web ainda vão «on line» sobretudo para obter informação e noticias. Certamente que um negócio de conteúdos na Web requer um investimento em capital menor do que na imprensa, por exemplo, baixando significativamente as barreiras à entrada. Contudo, estabelecer meramente uma presença na Net não garante que o negócio triunfa.

Assistimos hoje a uma afirmação de algumas marcas e de um limitado número de «sites» que se estão a tornar em verdadeiros «funis» de conteúdos que guiam o utilizador, o que obriga as empresas que pretendam "tocar" audiências de massa na Net a pagar grandes somas para segurar "espaço na prateleira" desses «sites». Neste cenário, os custos de publicidade e de marketing tornam-se incomportáveis para muitos.

As estatísticas indicam, por ora, que o tráfego na Web está a beneficiar o modelo do "funil". Talvez, que com tempo, isto mude, à medida que as pessoas acedam à Web através da TV, ou de telefones, ou de assistentes digitais pessoais, e à medida que ela se torne mais fácil de navegar.

Começamos a verificar já uma tendência no sentido da publicidade local e classificada mudar de poiso. A imprensa escrita tem vindo a assistir à encolha das receitas provenientes dos classificados, à medida que os agentes de imobiliário, os distribuidores de automóveis e os próprios proprietários, e as empresas à procura de pessoal aumentam a sua publicidade nas publicações especializadas, no marketing directo e nos serviços «on line». Um estudo da Associação da Imprensa Americana realizado em 1996 sublinhava que os jornais poderão perder até 50% dos seus classificados nos próximos cinco anos, se a tendência continuar. Se isto acontecer, a margem operacional, hoje de 14%, baixará para os 3%.

Outras indústrias cobiçam também este bolo. Empresas de software, companhias telefónicas, fornecedores de serviços Internet, redes de televisão competem hoje com os jornais. Segundo um estudo da Find/SVP, de Nova Iorque, mais de 60 empresas, desde a Warner Brothers até à PacTel ou à NBC estão a lançar-se em força na organização de «sites» com um grande ênfase em conteúdo local. Apesar dos baixos custos de operação, os conteúdos na Web ainda não gerem rendimentos adequados. Apesar disso, os analistas projectam um crescimento significativo dos rendimentos «on line». A Forrester Research prevê que as receitas de publicidade, assinaturas e comissões de transações chegarão aos 8,5 biliões de dólares em 2002, ou seja ao patamar dos 5% dos 175 biliões gastos em publicidade em 1996 nos jornais, na TV, na rádio, no correio directo, e noutros media tradicionais, segundo números da McCann-Erickson.


O que está em alta

As viagens são um outro dos segmentos em alta. A maior fatia são as vendas de bilhetes de avião. Em 1996, utilizadores da Web compraram 276 milhões de dólares em viagens aéreas. Para 1997, estimam-se 816 milhões, e pelo ano 2000 o montante poderá atingir os 5 biliões, ou seja 7% das receitas de passageiros nas companhias aéreas americanas.

A diferença nos custos é abissal. Um bilhete vendido por um agente de viagens, usando o sistema de reservas informático, custa a processar 8 dólares, se for feito directamente pelo agente na companhia aérea ficará em 6 dólares, mas se o próprio cliente comprar à companhia aérea electronicamente... então custará a processar apenas 1 dólar!

A Southwest Airlines foi a primeira das grandes companhias aéreas americanas a permitir aos clientes comprar directamente os bilhetes através do «site» na Internet em 1996, ultrapassando o agente e as comissões. Rapidamente emergiram novos serviços Web, como «sites» patrocinados pelas próprias companhias áereas, agentes virtuais como o Expedia (http://expedia.msn.com) da Microsoft, ou o Travelocity (www.travelocity.com) do grupo Sabre, e até novos agentes de viagens «on line». As próprias companhias aéreas estão a usar a Web para gerar receitas adicionais, através de leilões à melhor oferta e de descontos especiais para ciberutilizadores.

A banca «on line» é outra das promessas. Ela está ainda na sua infância. Apesar da maioria dos 100 maiores bancos da América terem um «site», só 24 deles são "verdadeiros bancos na Net" - ou seja, permitindo aos clientes ver extractos da conta bancária, transferir fundos e pagar contas. Na lista dos 133 "bancos realmente na Net" do Online Banking Report de Abril passado (ver em www.onlinebankingreport.com/top100banks2.shtml e www.onlinebankingreport.com/fullserv2.shtml), 109 não pertenciam, curiosamente, à lista dos 100 maiores bancos americanos.

Contudo, os ganhos nos custos estão quantificados. Uma operação processada ao balcão custa 1,07 dólares, através da banca telefónica pouco mais de meio dólar, através de ATM (similar ao Multibanco) 27 cêntimos, através do PC um cêntimo e meio, e através da Net apenas um cêntimo!

Alguns bancos inclusive perceberam o papel de "portão" que a Web pode desempenhar e estão a construir «sites» que são uma espécie de «one-stop shop» do cliente para adquirir todo o tipo de serviços financeiros, incluindo seguros. As companhias de seguros parecem estar um pouco atrasadas.

No campo bolsista, cerca de 5 milhões de pessoas já negoceiam acções «on line» e pagam entre 8 a 30 dólares por operação, enquanto que os «brokers» tradicionais cobram 80 dólares.


Destinos de compras

Um estudo da CommerceNet e da Nielsen no final de 1997 descobriu que 10 milhões de norte-americanos nos EUA e no Canadá - ou seja 16% dos utilizadores da Net - já tinham feito compras no retalho através da Web, ou seja mais uns 3 milhões que seis meses atrás. Enquanto que, em 1996, as pessoas compravam apenas software e equipamentos, no ano seguinte já compravam uma maior diversidade de items.

Segundo a American On Line (AOL), com 11 milhões de clientes, verificou-se uma viragem no padrão de compras «on line» durante o Natal de 97 - o vestuário subiu ao topo, e os livros ficaram em terceiro lugar, depois do software e dos equipamentos. Também muito populares foram a comida, as flores, a música e os brinquedos. O método dos leilões está, também, a tornar-se muito popular.

Os carros são outro dos segmentos em crescimento. Segundo a JD Power & Associates, cerca de 16% dos compradores de carros e camiões novos usaram a Net numa parte do processo de compra em 1997, um aumento de seis pontos em relação ao ano anterior. Para o ano 2000, estimam que a percentagem suba para 21%.

Para se fazer compras «on line» é necessário ir a uma loja virtual, mas este conceito clássico de retalho transposto para a Web está a esboroar-se. Alguns «site» de media, de fornecedores de serviços na Net ou de motores de pesquisa ou directórios permitem ligações para os retalhistas. Estão a transformar-se em "destinos para compras". A Time Warner tem um mercado na Web (http://hbostore.hermann.com) com retalhistas alojados para a venda de livros, música, viagens, computadores e electrónica, vitaminas e muito mais! No caso do Yahoo!, o utilizador pode comprar no The Visa Shopping Guide by Yahoo (http://shopguide.yahoo.com), usando um agente que lhe faz a procura e selecção. O retalho virtual poderá crescer se a questão da segurança nas transações e a garantia de privacidade em relação à informação pessoal habitualmente cedida nos inquéritos «on line» forem asseguradas.



Como os Governos Devem Agir

A equipa deste relatório propõe seis regras a seguir universalmente:

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