Chiron e Logoplaste nas aplicações de software para "start-ups"

Nasce ASP na Margem Sul do Tejo

Lançada esta semana, no Parque de Ciência e Tecnologia da Faculdade
de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, a e-Chiron,
um fornecedor de aplicações de software empresarial direccionado para PME
e para as aplicações transversais nas áreas da gestão ambiental, da gestão da qualidade e do ensino "on-line"

Jorge Nascimento Rodrigues no Madan Park, no Monte de Caparica

 Os protagonistas | O "site" da e-Chiron | Razões para Você mudar de vida 
Tudo sobre ASPs | A história da Chiron | Outras histórias da Net.pt

Se o leitor está à frente de uma 'start-up' ou de uma PME da Nova Economia, este ASP (no original "application service provider", designação para as empresas fornecedoras de aplicações de software) pretende convencê-lo a diminuir drasticamente a sua factura com o quebra-cabeças dos sistemas de informação e avança com uma garantia de serviço de implementação entre duas semanas a um mês.

Baptizado de e-Chiron acaba de ver a luz no Monte de Caparica, no Madan Park, o Parque de Ciência e Tecnologia localizado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Com um capital social de arranque de 100 mil contos e um investimento progressivo na ordem dos 500 mil, pretende estar a facturar 1 milhão de contos em 2002 com uma posição de referência no mercado português das 'start up' da Nova Economia e no segmento das PME com ligação à gestão ambiental, à gestão da qualidade e ao ensino à distância. A diferenciação e vantagem competitiva pretende residir nesta segmentação e focalização iniciais. O projecto terá como parceiro na área do centro de dados um operador privado português de telecomunicações em fase de fecho de negociações.

«O nosso objectivo é fornecer software aplicacional para as PME que encarem a Internet e a Web como o meio preferencial de comunicação e de negócios. Também vamos concentrar-nos em nichos transversais que conhecemos bem - como a qualidade, o ambiente e o património - , em virtude do 'know-how' desenvolvido nos últimos quatro anos pela Chiron e na última década pela equipa de investigadores que integra as empresas do grupo», sublinha Nuno Coelho, 36 anos, um dos fundadores da e-Chiron, que veio da experiência de criação da IP Global, o primeiro fornecedor privado português de serviços para a Internet, que viria a ser integrado depois no universo da Sonae.

O quebra-cabeças das TI

No fundo, um dos "alvos" preferenciais de mercado são empresas cuja cultura e problemas de crescimento são similares aos vividos pela Chiron, a empresa-mãe da e-Chiron que se tornou mais conhecida a partir do sistema de informação ambiental criado para o Centro Espacial Kennedy, da NASA (a que a Janela na Web se referiu na altura), ou pela ex-IP. Para as 'start-up', este ASP da Margem Sul do Tejo vai lançar soluções chave na mão, um "tool-kit" de rápida implementação, para que «os decisores destas jovens empresas se concentrem no seu negócio e não percam tempo, dinheiro e paciência com as tecnologias de informação», reforça o nosso interlocutor, que veio trazer ao projecto uma componente de marketing tecnológico muito viva.

Dado que colocar nas mãos de terceiros recursos de informação altamente confidenciais é uma decisão que não pode ser tomada de ânimo leve, os ASP têm de garantir segurança absoluta: «No nosso caso, o desenvolvimento pela Chiron do Sistema de Informação Criminal da Polícia Judiciária, sem dúvida um dos mais sensíveis do país, é como um cartão de visita garantindo a idoneidade do nosso código de conduta», garante João Ribeiro da Costa, de 43 anos, o investigador de sistemas que fundou a Chiron e agora a e-Chiron.

Os ASP nasceram precisamente para resolver um quebra-cabeças cada vez mais oneroso e consumidor de recursos e tempo. Algumas empresas de maior dimensão tornaram-se mesmo verdadeiras Torres de Babel nas Tecnologias de Informação (TI) e geraram autênticos "elefantes brancos" internos, nomeadamente ligados aos ERP ("enterprise resource planning") que foram atingidos por um terramoto com a emergência da Web.

O negócio que um ASP lhe propõe é simples: o cliente pode alugar as aplicações de software de que necessita não tendo que se preocupar com os equipamentos, com os diferentes pacotes de software que se digladiam dentro da empresa, com as actualizações permanentes (em que se gastam rios de dinheiro), com os prejuízos trazidos pelo 'ir abaixo' do sistema interno, com o recrutamento de gente para a manutenção e operação. O ASP pretende, com a sua confiança, fazer tudo isso por si - poupa-lhe no investimento, no tempo e nos recursos.

Em termos de tendência, com a emergência da Web e a consolidação da Internet nos últimos cinco anos, o que está a ocorrer no mundo das TI é «a evolução das aplicações licenciadas para as alugadas e a passagem de uma localização pesadíssima no cliente para o acesso às aplicações através da rede a partir de um fornecedor autónomo», refere João Ribeiro da Costa.

Por isso, os ASP tornaram-se moda nos Estados Unidos e, para muitos analistas, são um negócio da China emergente no mundo do B2B. Este segmento deverá rondar os 23 mil milhões de dólares em 2003 nos EUA e tem um atraso de 2 a 5 anos na Europa, segundo um estudo da McKinsey. No nosso país, tem-se sucedido, ultimamente, o anúncio de lançamentos de serviços para este mercado (por parte da PT Prime, da Case, da Solsuni, da Minimal, da OniSolutions e da Easysoft).

Namoro na padaria

A ideia da e-Chiron tornou-se realidade graças à aposta de um grupo industrial português, a Logoplaste, que detém 25% da jovem empresa. Os fundadores ainda andaram pelas empresas ligadas ao capital de risco dos grandes grupos e bancos e foram surpreendidos com a enorme receptividade. Mas optaram por «um investidor com uma estratégia clara na economia digital, que nos dava liberdade e nos trazia uma ajuda fundamental em termos de uma larga experiência de gestão», refere Nuno Coelho. «Alguns consultores até nos sugeriram um leilão, a ver quem dá mais - mas não queríamos o dinheiro pelo dinheiro, e evitámos a tentação», exclama.

Mas, o leitor continua certamente a interrogar-se - e o que levou um conglomerado de 32 empresas industriais no negócio das embalagens de plástico com mais de 20 milhões de facturação a juntar-se a uma pequena empresa de base tecnológica que facturou cerca de 250 mil contos no ano passado num projecto que acarreta o risco do pioneirismo?

O enigma tem duas respostas: a Logoplaste tem uma estratégia de diversificação de investimentos para a chamada Nova Economia e, como em todas as boas parcerias, o que contou, efectivamente, foi a relação "emocional", entre os protagonistas.

É o próprio Filipe de Botton (filho do fundador) que conta a incrível história de um "namoro" na padaria, na Sacolinha, em Cascais, em Janeiro deste ano: «A conversa passou-se na compra do pão, naturalmente, entre dois amigos - eu e o João. Eu disse-lhe que 'íamos fazer umas coisas na Internet e que convinha falarmos'. Começámos por falar de umas coisas e acabámos a conversar sobre o projecto da e-Chiron. O interesse estratégico foi evidente e o modelo de negócio, apesar de ser da dita Nova Economia, até é parecido com o que praticamos na nossa actividade industrial desde há muitos anos. Mas a confiança pessoal, a empatia humana - essa 'química' - foi decisiva».

O palavra puxa palavra acabou por envolver a Logoplaste num projecto que Filipe de Botton reclama ser «estratégico, de longo prazo» e não «meramente de portfolio financeiro» (ainda que tenham outros, deste género, na área da Web, como o Carreiras.net e o e-Deal.pt. «Não estamos a engordar um porquinho para depois o vender. A identidade estratégica é tal que até nem colocámos no horizonte o famoso IPO, a ida ao mercado de capitais», conclui o empresário.

OS PROTAGONISTAS
Nuno Coelho, um engenheiro mecânico, ainda mantém o "sangue quente" do espírito de 'start up' nas veias. Tendo vivido o projecto da IP até à sua compra pelo grupo Sonae, ainda foi responsável pelo lançamento da operação na área de negócios empresariais da Novis-Empresas. Acabou por ver desafiado o seu espírito de risco num almoço vegetariano com o fundador da Chiron. A entrada, depois, da Logoplaste foi uma agradável surpresa - o interlocutor era um dos seus conhecidos das andanças pelas corridas de automóveis.
João Ribeiro da Costa, um investigador de currículo internacional, é o principal rosto do actual pequeno grupo Chiron e foi um dos fundadores da empresa-mãe em 1996, que se tornou mediática a partir da sua entrada como fornecedor de um sistema crítico para o Centro Espacial Kennedy da NASA. Depois da criação da Chiron2, no ano passado, lança agora a e-Chiron, ideia que viu concretizada graças a um "namoro" de padaria.
Filipe de Botton, filho do fundador da Logoplaste, Marcel de Botton, tem liderado uma estratégia de diversificação de investimentos financeiros do grupo, ultimamente para a área da Nova Economia. Conhecida pela sua posição no fabrico de embalagens rígidas de plástico através de unidades de produção instaladas dentro do espaço fabril dos próprios clientes, o grupo está em cinco países e tem 32 empresas. Um artigo interessante sobre a Logoplaste pode ser lido na revista Ideias & Negócios (nº 27, de Setembro 2000).

RAZÕES PARA VOCÊ MUDAR DE VIDA
Porque razão deverá uma empresa largar a sua Torre de Babel interna das TI e usar um ASP como fornecedor das aplicações que necessitar?
Os analistas da Zona Research.com, num estudo de Agosto passado (2000), são convincentes. Os argumentos com maior impacto na cabeça dos decisores são três: redução do custo total de aquisição e implementação dos sistemas de TI; possibilidade de concentração estratégica no negócio e eliminação de armadilhas que desviam a atenção; e focalização dos recursos internos de TI efectivamente não dispensáveis nas aplicações críticas.
Segundo um estudo preliminar da própria e-Chrion, as economias podem variar numa faixa entre os 30 e os 70% do custo total de aquisição e implementação.
Apesar do atraso europeu, uma investigação da Ovum.com, de Março passado (2000), realizada para o ASPIC-Consórcio da Indústria de ASP, revelava que o "clima" entre os empresários quanto à adesão aos serviços dos ASP no próximo ano e meio variava entre os 25% na Escandinávia e mais de 60% na Alemanha e no Reino Unido, com a França na faixa dos 40%.
O mesmo estudo referia que, na Europa, os sectores mais interessados eram a banca, o transporte, a energia, e o turismo e viagens. As aplicações mais procuradas em regime de aluguer eram, por ordem decrescente de interesse, o alojamento de páginas na Web, o comércio electrónico, o correio electrónico, o CRM ("customer relationship management", sistemas de gestão da relação com o cliente), os salários e a produtividade.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal