Vencer o défice ibérico

Há uma diferença abissal entre a intenção estratégica do investimento directo português no país vizinho com uma aposta muito diversificada e o perfil maioritário do investimento directo espanhol em Portugal. Segundo dados da Dirección General de Comercio y Inversiones do Ministerio de Economía de Espanha, 75 a 90% do investimento bruto espanhol em sociedades não cotadas portuguesas centrou-se, nos últimos três anos, por ordem decrescente de importância, nas actividades imobiliárias, na gestão de participações, na banca e seguros e no comércio.

Jorge Nascimento Rodrigues

Investigação publicada em versão reduzida no semanário português Expresso em 9/03/2002

Artigo complementar no Expresso de Conceição Antunes
sobre casos de sucesso de investimento em Espanha

Informações estatísticas no ICEP (português)
e no Instituto Español de Comercio Exterior (ICEX)

Se cruzarmos a constatação estatística da diferença de intenção estratégica com os resultados da investigação feita por académicos portugueses àcerca da evolução do comércio intra-sectorial entre os dois países ibéricos verificamos que, na última decada, ao contrário do que sucedeu no relacionamento comercial português com os restantes países comunitários, não houve, regra geral, o reforço de uma "clusterização" benéfica para uma integração equilibrada de cadeias de valor, à excepção mais expressiva dos "clusters" automóvel e têxtil e vestuário.

Como nos refere Ricardo Pinheiro Alves, que publicou recentemente As Relações Ibéricas no âmbito da Globalização e Liberalização dos Mercados (editado pelo Gabinete de Estudos e Prospectiva Económica do Ministério da Economia português), «as trocas com Espanha mantiveram-se especialmente em sectores de baixa tecnologia, enquanto que o comércio de Portugal com a Comunidade Europeia parece ter evoluído no sentido de incluir também produtos com média incorporação de tecnologia».

Estratégia do "eucalipto"

Por outro lado, segundo o estudo de Horácio Faustino, do Instituto Superior de Economia e Gestão, de Lisboa, ocorreu «um ponto de viragem no comércio intra-sectorial com Espanha visível a partir de 1999», sendo claro que «nos estamos a afastar do padrão seguido nas relações entre os países mais desenvolvidos da Comunidade Europeia». Sintoma desta evolução são os coeficientes de cobertura do comércio externo entre os dois países que estão a divergir em tesoura - o português diminuíu tende regressado a uma faixa nos 45-46% (ou seja, as nossas exportações para Espanha não cobrem sequer metade do que importamos de lá) e o espanhol continua num patamar acima dos 250%!

O que parece óbvio, comenta Ricardo Alves, é que o investimento directo espanhol em Portugal se baseou «especialmente na instalação de estruturas comerciais destinadas a importar e vender produtos fabricados em Espanha». O perfil maioritário da actuação espanhola parece centrar-se numa estratégia de "eucalipto" - drenar o poder de compra emergente das classes médias e o investimento público português, e desenvolver uma burguesia "compradore" e rentista local. São de exceptuar, nomeadamente, os investimentos transfronteiriços dos galegos em Portugal.

A própria desvantagem comercial em relação a Espanha tem aumentado. Segundo a análise de Ricardo Alves, a nossa dependência, desde 1986, tem-se reforçado particularmente em seis áreas: bens agrícolas, indústria alimentar, indústria química, calçado, máquinas eléctricas e óptica e precisão. No estudo de Horácio Faustino sobre o comércio intra-sectorial, verifica-se que Portugal baixou de um máximo de 29 produtos em que era competitivo em relação a Espanha em 1996 para 19 em finais de 1999, e que só reforçou a sua posição exportadora liquída face a Espanha em seis tipos de produtos - veículos comerciais, algumas componentes de automóvel, confecção masculina, malhas, barras de aço e alguns aparelhos e componentes eléctricos.

O mercado ao lado

Apesar da estratégia de "eucalipto", «os espanhóis não estão a comprar tudo em Portugal», sublinha-nos Ricardo Alves. O próprio investimento directo espanhol em Portugal sofreu uma inversão no ano 2000: em termos liquídos, os espanhóis desinvestiram significativamente (um saldo negativo de 1,4 mil milhões de euros), sendo, nesse ano, o sexto investidor (em termos liquídos) estrangeiro. O comportamento português tem sido encorajador - o ano de 2000 foi inclusive o "Ano de Portugal" em Espanha, tendo o nosso investimento directo no país vizinho crescido 548% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério de Economia espanhol.

Em virtude do desinvestimento espanhol em 2000, o montante de investimentos liquídos portugueses em Espanha (2,2 mil milhões de euros), entre 1996 e 2000, é já superior ao que os espanhóis investiram, em termos liquídos, entre nós naquele período. Apesar de não representar mais de 5% do investimento directo estrangeiro em Espanha, é um volume considerável atendendo aos nossos recursos, e significou, por exemplo em 2000, o terceiro destino dos nossos capitais (depois da Holanda com a atracção das "holdings" e da "euforia" para o Brasil).

São cerca de 240 as empresas portuguesas com investimento directo em Espanha, segundo dados da delegação do ICEP em Madrid. É naturalmente um número pequeno face às 3400 empresas registadas em Portugal com capital espanhol maioritário (ainda que algumas destas sejam multinacionais de países terceiros e outras não passem de caixas postais).

Contudo, o perfil de investimento das empresas lusas revela o tipo de estratégias que têm tido sucesso em Espanha, e em particular por parte de PME portuguesas.

A análise deste agregado revela algumas estratégias seguidas pelos empresários portugueses:
- 1/3 destas empresas investiram nas regiões transfronteiriças, e particularmente na Galiza (o principal destino, com ¼ das implantações), com o intuito de ocupar o mercado "ali ao lado" da raia ou mesmo de o usar como "porta de entrada" para o mercado global espanhol (por exemplo, nos cafés, nos cimentos, na fileira do papel, no agro-alimentar);
- um pequeno número apostou em mercados regionais de Espanha mais distantes, como o País Basco e a Catalunha, como "teste" de clientelas mais exigentes (por exemplo, em nichos farmacêuticos ou na confecção de alta qualidade) e alavanca para o mercado global espanhol;
- a maioria sediou-se em Madrid com vista a desenvolver estratégias de nicho ou de segmentos específicos, que permitam alcançar, a prazo, posições de liderança no conjunto do mercado ibérico (visível, por exemplo, em estratégias na logística, na distribuição, no imobiliário, na hotelaria de luxo, e na área financeira).

Os exemplos que a jornalista do Expresso Conceição Antunes recolheu no terreno do país real são elucidativos desta tipologia.

Nestas estratégias revelam-se alguns "truques":
- pode entrar-se com dimensões pequenas explorando em particular nichos;
- é indispensável criar conceitos próprios para o mercado espanhol e não transpôr o que resultou em Portugal;
- e é fundamental "localizar" o máximo e procurar parcerias.

Contudo, é preciso tre em conta que «estes investimentos portugueses, que têm contribuído imenso para a melhoria da imagem de Portugal em Espanha, ainda têm um impacto pequeno na redução do défice comercial português em relação ao país vizinho», acentua José Vital Morgado, da direcção do ICEP em Madrid. Por isso, Vital Morgado é de opinião que «temos de Ter uma estratégia de longo prazo que passa por uma sensibilização das PME portuguesas para o potêncial do mercado espanhol» e conclui: «Só com um envolvimento sério das nossas PME poderemos alterar progressivamente a actual situação deficitária».

O exemplo da Irlanda

Apesar da Espanha ser este "mercado ao lado", é indispensável ter em conta que se trata de um mosaico de mercados em que nem sempre o ataque frontal e global é possível e com hipóteses de sucesso. A ideia de "Para Espanha em força!" não é, também, generalizável ao tecido económico português, ainda que seja importante virar a vara em relação à euforia desproporcionada em direcção ao Brasil. «A grande focalização no Brasil tem passado para segundo plano a presença física em mercados mais desenvolvidos», sublinha Ricardo Alves.

Espanha pode ser a primeira paragem no caminho da internacionalização para mercados mais sofisticados, como acentua o livro de Ricardo Alves, mas não é a única forma de começar. A ideia de acantonar Portugal em mais uma "região ibérica" dilui a vantagem geo-económica do nosso país, a tradição secular de abertura ao exterior e de diversificação internacional e reduz as potencialidades de uma boa parte do nosso tecido económico, mesmo de PME, que tem já uma cultura cosmopolita.

Entender Portugal como mera "região ibérica" pode condenar o país a transformar-se num campo de subcontratação de segunda escolha e deixar à Espanha o papel de "intermediário" para a Europa e a economia mundial. Mesmo as próprias autonomias históricas (Galiza, Catalunha e País Basco) e as ilhas atlânticas (Canárias) espanholas procuram sair da camisa de forças do mercado espanhol e afirmar-se internacionalmente.

O que seria hoje da Irlanda se, no seu período de emergência, se se tivesse acantonado no mercado do arquipélago e orientado exageradamente para o mercado "ali ao lado" britânico?

NÚMEROS A RETER
  • 240 empresas portuguesas investiram directamente em Espanha; desde 1996 em termos líquidos investimos cerca de 2,2 mil milhões de euros
  • 1/3 dos investimentos directos portugueses são transfronteiriços
  • Entre 1996 e 2000 o investimento líquido de Portugal em Espanha já é superior ao de Espanha em Portugal no mesmo período
  • O investimento directo bruto espanhol em Portugal dirigiu-se entre 80 a 90% para imobiliário, gestão de participações, banca e seguros, e comércio
  • Portugal é o 4º cliente de Espanha e esta é o nosso principal fornecedor e cliente
  • Portugal só reforçou a sua posição exportadora líquida em 6 segmentos no comércio com Espanha (veículos comerciais e componentes para automóvel; confecção masculina e malhas; barras de acço; aparelhos e componentes eléctricas) na última década
  • A divergência entre os coeficientes de cobertura das exportações pelas importações no comércio bilateral entre os dois países continua a agravar-se: 46% em Portugal e 250% em Espanha
  • O nosso país piorou a sua dependência em relação a Espanha em 6 sectores económicos (bens agrícolas; indústrias alimentares, indústria química; calçado; máquinas eléctricas; óptica e precisão) desde 1986

  • CONCLUSÕES ESTRATÉGICAS
  • Espanha apostou numa estratégia de "eucalipto" - o investimento directo dos grupos espanhóis em Portugal e o comércio intraindustrial com o nosso vizinho não favoreceu a "clusterização" das duas economias nem o aumento do nível de incorporação tecnológica dos produtos portugueses. Baseou-se na drenagem do poder de compra emergente e do investimento público portugueses e no fomento de uma burguesia "compradora" e rentista em Portugal
  • Portugal não deve colocar todos os primeiros ovos no cesto ibérico - o investimento directo português em Espanha é uma via da internacionalização do nosso tecido empresarial; pode ser um primeira forma de aprendizagem no mercado mesmo ao lado; mas esta prioridade não é receita para todos os sectores e negócios
  • Há quatro posicionamentos estratégicos no modo de investir em Espanha que têm resultado - investimento transfronteiriço (1/3 dos casos, com peso de PME e com destaque para a Galiza); "ataque" a mercados regionais espanhóis mais distantes (como País Basco e Catalunha) e mais sofisticados e que poderão servir de porta de entrada no mercado global espanhol; tornar a empresa uma referência ibérica nalguns segmentos (como logística, imobiliário, distribuição, fileira florestal, auto-estradas, por exemplo); colocar a empresa entre os líderes ibéricos em nichos (por exemplo, área financeira, embalagens industriais, cabos de alumínio, alguns negócios da química, águas engarrafadas, hotelaria de luxo)
  • Portugal não é uma mera "região ibérica" - fruto da sua história pode desenvolver estratégias de internacionalização diversificadas; tem um tradicional significativo grau de abertura à economia mundial; conta com um posicionamento geo-estratégico euro-atlântico e uma cultura cosmopolita. Acantonar o nosso país numa "região ibérica" seria diluir um pequeno país no espaço de uma média potência europeia com ambições, tornar o tecido económico português num campo de subcontratação de segunda escolha e deixar a Espanha desempenhar o papel de nosso "intermediário" para a Europa e o Mundo
  • Teria sido um erro estratégico irreversível se a Irlanda na sua fase emergente tivesse colocado os seus principais ovos no mercado britânico envolvente e aceite ser uma mera "região" daquele arquipélago
  • Todas as autonomias históricas de Espanha - como a Galiza, a Catalunha e o País Basco - e até as ilhas atlânticas (Canárias) procuraram nos últimos anos desenvolver posicionamentos estratégicos internacionais que as "libertem" do acantonamento no mercado doméstico espanhol
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