O cientista da «grelha»

Habitue o ouvido a um novo palavrão. "Grelha" vai entrar no discurso nos próximos anos, tal como a Web o fez, inesperadamente, a partir de meados dos anos 90. A grid computing (computação em grelha) começa a dar que falar e já entrou no meio industrial. Descobrimos o homem que desde o princípio dos anos 90 tem sido o seu maior entusiasta.

Jorge Nascimento Rodrigues com Tom DeFanti visto pelo traço de Paulo Buchinho

Artigo relacionado na Janelanaweb: Chegou a "Grelha"

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Referências sobre Thomas DeFanti
Projecto I-WAY apresentado na Supercomputing 1995
Projecto Chicago Science, Technology and Research Transit Acess Point
Electronic Visualization Lab do Department of Computer Science da Universidade de Illinois em Chicago
The Globus Project (tudo sobre o "grid" à escala mundial)
National Center for Supercomputing Applications na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign

Subitamente um palavrão novo entrou na literatura do "informatiquês". "Grelha" - grid, no original em inglês - é a imagem dada para um novo tipo de ciberinfraestrutura que nasceu nos meios científicos norte-americanos, mas que já começa a espalhar-se nalguns meios industriais, particularmente em sectores em que os requisitos de trabalho cooperativo e de capacidades de computação são elevados, envolvendo muitas equipas e uma significativa dispersão geográfica. A "grelha" é um dos braços da computação distribuída, tida como a "extensão" e "evolução" da Web, como um dos candidatos à "next hot thing" da Nova Economia. E é uma clara alavanca de competitividade.

A "grelha" envolve hoje vários projectos na América do Norte e na Europa (particularmente na Holanda e no Reino Unido) e em Setembro (de 2001) recebeu um financiamento de 53 milhões de dólares (58 milhões de euros, 12 milhões de contos em moeda portuguesa antiga) do National Science Board dos EUA, um envolvimento muito forte da IBM, nomeadamente na Europa, e o apoio da União Europeia a um projecto similar denominado "Data Grid".

A ideia vem dos anos 60 com o trabalho pioneiro do americano J.C.R. Licklider (ver artigo "Chegou a 'Grelha") - conhecido por Lick na comunidade científica - falecido em 1990, mas só começou a ganhar expressão na comunidade científica em meados dos anos 90 com um projecto denominado simbolicamente I-WAY realizado em Novembro de 1995 e divulgado no mês seguinte numa Conferência da comunidade da Supercomputação - Supercomputing 95 - realizada em San Diego, na Califórnia. O projecto ligou então 11 redes e 17 locais nos Estados Unidos e Canadá e teve à sua frente um cientista do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de Illinois em Chicago, Thomas DeFanti.

O projecto I-WAY implicaria cerca de 30 testes em áreas como a astronomia, astrofísica, climatologia, bioquímica, biologia molecular, imagem médica, química, ciências da Terra, educação, engenharia, modelação geométrica, ciência dos materiais, matemática, microfísica e macrofísica, neurociências, monitoração, física do plasma, telepresença e teleoperação, visualização, "data mining" e computação distribuída propriamente dita, nomeadamente a ideia de um computador virtual de dimensão mundial.

Hoje, Tom tem 53 anos e é professor de ciências da computação na Universidade de Illinois em Chicago, onde dirige o Laboratório de Visualização Electrónica - Electronic Visualizatoon Laboratory. Ele garante que vai continuar a dedicar toda a sua vida académica à ascensão imparável da "grelha".


No contexto de 1995, então muito "aquecido" pelo lançamento comercial do "browser" para a World Wide Web, pelo IPO (ida à bolsa) da recém-nascida Netscape e pelo "take off" da Nova Economia, como é que sentia, na altura, o futuro da computação distribuída? Alguma vez imaginou que o seu papel pudesse catapultá-la para ser hoje considerada a fase seguinte à Web?

T.D. - O encontro da comunidade da Supercomputação do princípio de Dezembro de 1995 (Supercomputing'95), em San Diego, na Califórnia, foi o primeiro a abraçar totalmente a Web como um meio fundamental para a publicação dos proceedings (contribuições científicas apresentadas) nesta área e que serviu para divulgarmos as ideias e os protótipos saídos dos testes realizados no mês anterior em torno do projecto I-WAY (Information Wide Area Year) à escala norte-americana (Estados Unidos e Canadá), em quase 30 áreas e envolvendo várias dezenas dos computadores mais rápidos e das melhores máquinas de visualização electrónica. O encontro mostrou - demonstrou - a possibilidade de usar computação e comunicações de alta "performance" para resolver à distância e em tempo real problemas complexos exigindo enormes recursos, e revelou um enorme entusiasmo.

Funcionou como uma ruptura?

T.D. - Bom, nós já vínhamos a realizar grandes exposições de computação distribuída e em rede desde as conferências da Siggraph de 1992 em Chicago e de 1994 em Orlando. O papel do projecto I-WAY em 1995 foi o de ter forçado a interoperação por via de um sistema de modo de transferência assíncrona, na gíria designado por ATM [não confundir com o multibanco, Nota de Edição], entre as redes federais norte-americanas de então - como a vBNS (Very High Speed Backbone Network Service), Esnet (Energy Sciences Network), DREN (Defense Research and Engineering Network), MREN (Chicago Metropolitan Research and Educational Network) - e as companhias de telecomunicações com fornecimento de serviços na área (então a MCI, Sprint, AT&T, Ameritech e Pacific Bell).

De todos os testes que desenvolveram no quadro desse projecto I-WAY em 1995 quais é que se revelaram mais adequados para gerar aplicações industriais de computação distribuída?

T.D. - Sem dúvida, as aplicações no campo das ciências da Terra que serviram de inspiração para ambientes de realidade virtual colaborativa no campo da exploração petrolífera. Também a simulação para design colaborativo foi adoptada em quase toda a indústria pesada.

O que é que pessoalmente mais o impressionou nessa experiência de 1995?

T.D. - Verificámos que as redes ATM interoperavam melhor do que poderíamos imaginar e chegámos à conclusão de que a questão essencial não era técnica, mas a de educar as pessoas a saber usar produtivamente as redes para a computação distribuída. O projecto I-WAY levou directamente a outro, ao STAR TAP (Science, Technology and Research Transit Access Point), lançado a partir de Chicago, que ligou internacionalmente redes de ensino e de investigação de alta velocidade, e que serviu também como teste para a criação nomeadamente do National Center for Supercomputing Applications da National Science Foundation, localizado na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.

Em certo sentido, esses projectos posteriores ao I-WAY de 1995 foram motivados pela enorme frustração que se apossou de todos quantos tinham estado envolvidos nesse projecto pioneiro. A vossa "frustração" foi resolvida?

T.D. - O projecto I-WAY durou apenas um mês em Novembro de 1995. Mas nós tínhamos imenso saber acumulado para podermos, desde logo, começar a reconstruir sustentadamente essas conexões e tivemos o apoio do gabinete da presidência norte-americana para o fazer através das agências federais - como a National Science Foundation, o Departamento de Energia, a NASA e o DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency).

Quais são os "filhos" mais directos dessas experiências entre 1995 e 1998?

T.D. - Praticamente todos esses projectos lançados depois de 1995 continuam. Para só citar dois casos, I-Soft tornou-se The Globus Project (comunidade mundial em Globus.org e o CAVERNsoft (de Cave Automatic Virtual Environment), um software de teleimersão (de teleconferência a 3 dimensões), amadureceu e começou a ser distribuído.

Qual é a sua avaliação pessoal para o futuro da computação distribuída, e particularmente para a "grelha"?

T.D. - Creio que a computação distribuída através da "grelha" vai ser universal.

Acha que esta área pode transformar-se num novo catalisador para a computação e para a Nova Economia?

T.D. - Eu estou a devotar a minha vida profissional para que o seja!

Qual é o seu mais recente projecto nesta área?

T.D. - Uma "grelha" de computação em redes de 10 Gigabites ao nível metropolitano, regional, nacional e internacional.

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