Crescer em tempo de crise

Três empresas portuguesas revelam estratégias

Reportagens por Jorge Nascimento Rodrigues, Fevereiro de 2003


VINICOR

Cortiça muda a cara de Ponte de Sor

Na Web em www.suberus.com.

Dentro de cinco anos, a localidade alentejana poderá ser o pólo mais avançado do "cluster" da cortiça em Portugal. É uma revolução no mapa deste sector nos últimos 25 anos com unidades fabris de produção de rolhas concentradas no Norte, em particular em Santa Maria da Feira, a várias horas de TIR das unidades de preparação junto à matéria-prima no Alentejo. O pontapé de saída para esta mudança estrutural foi dado pela decisão estratégica do grupo Suberus em 1997 de instalar em Ponte de Sor a primeira unidade de produção de rolhas no Alentejo próximo da matéria-prima tirada do sobreiro.

Baptizada de "Suber XXI" foi inaugurada com honras de primeiro-ministro em 2001 e já visitada por engano pelo Presidente Jorge Sampaio, que ficou impressionado, em pleno Alentejo, com uma fábrica... que tem 110 autómatos programáveis, 24 computadores na linha de produção, 110 consolas gráficas para os operadores, um veículo de movimentação de palhetes guiado por laser e um armazém totalmente robotizado. Os operadores utilizam o correio electrónico para as comunicações com a gestão, podem consultar os manuais de qualidade em quiosques multimédia no meio da fábrica, e os clientes devem usar a Web para fazer o acompanhamento das suas encomendas. Um pequeno detalhe de modernidade não é visto à primeira vista - todas as paletas contentorizadas têm um pequenino "chip" do tamanho de uma moeda de 20 cêntimos que regista a história completa do nascimento das 30 mil rolhas que leva dentro. «Uma espécie de ADN», ri-se Henrique Martins, um dos fundadores do grupo Suberus. Este tipo de "chip" foi, então, uma co-estreia mundial com uma aplicação piloto similar no aeroporto londrino de Heathrow. Um outro grupo, o Cork Supply, iniciou a produção de rolhas em Coruche, no Ribatejo, criando-se um potencial novo "corredor" industrial no país.

O efeito de atracção desenvolveu-se rapidamente - mais recentemente, o grupo Amorim - o líder mundial com 35% de quota mundial - instalou uma unidade de preparação em Ponte de Sor e finaliza-se a fábrica do grupo Álvaro Coelho & Irmãos. Também o grupo Juvenal decidiu juntar-se. Por detrás desta "revolução" alentejana está um nortenho, Henrique Martins, o fundador do grupo Suberus que factura 100 milhões de euros na cortiça, detendo 7% da quota mundial. Em meados dos anos 90, ele ficou indignado com uma reportagem da BBC mostrando os pontos fracos da indústria da cortiça portuguesa...e elogiando a rolha de plástico. Martins resolveu então «dar o exemplo» e apostar num projecto de futuro. «Reuni uma equipa que pensasse a fábrica do futuro, com malta com metade da minha idade», diz-nos Martins, que mobilizou o filho único, Henrique Silva - então com 20 e poucos anos e saído da Universidade da Beira Interior - e mais as equipas de engenharia e de investigação da Vinicor. Para capitanear a criação da "Suber XXI", apareceu um professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto com proximidade familiar a Santa Maria da Feira, que ficou impressionado com o projecto do fundador da Suberus. Américo Azevedo pegou, então, em ideias do seu trabalho de doutoramento, ficou admirado em encontrar «similitudes entre o processo de produção da cortiça e o dos semicondutores, em que estava envolvido» e desenhou, de raiz, o que chama com orgulho «a fábrica do novo paradigma tecnológico». Na equipa de concepção da nova unidade, foram envolvidos fabricantes portugueses, que instalaram na Suber XXI equipamentos que «não existiam ainda em mais lado algum», sublinha o académico. Envolveram-se nesta "aventura" alentejana, a Efacec Robótica (que instalou o primeiro armazém automático de paletas de rolhas do mundo), a Microprocessador e a CAI-Controlo e Automação. No pensar do modelo industrial e de gestão houve o contributo da consultora Luís Pessoa, no âmbito do Programa "Infante".

A "Suber XXI", que envolveu um investimento de 8,2 milhões de euros, viria a ser reconhecida como «empresa demonstradora de tecnologias avançadas», tendo-lhe sido atribuída a pontuação máxima pela Direcção Geral da Indústria. Hoje é um cartão de visita para os múltiplos clientes que o grupo tem no Mundo, que invejam que uma fábrica assim não esteja nos vários pontos onde a Vinicor está com unidades de acabamento junto às regiões vinhateiras emergentes - em Napa Valley, no Norte da Califórnia, em Mendoza ou Rosario, na Argentina, no Barossa Valley na Austrália - onde o grupo investiu recentemente 5 milhões de euros numa nova unidade -, ou na China, na região de Yantai, nas ricas "terras negras" da província agrícola de Shandong, a sul de Beijing, onde acaba de entrar.


GRUPO LENA SGPS

A era dos conglomerados regionais

Na Web em www.grupolena.com.

Os últimos cinco anos permitiram o crescimento rápido de um conjunto de grupos familiares regionais que agora vivem o desafio de dar coerência estratégica a um diversificado portefólio de negócios num período de crise económica. As sinergias internas aos grupos e o facto de não terem todos os ovos no mesmo cesto poderão ser pontos fortes. Um dos exemplos regionais é o grupo familiar Lena SGPS que nasceu a partir da Construtora Lena fundada por António Vieira Rodrigues em 1974. O grupo sediado em Leiria - como o próprio nome indica, tratando-se de um dos rios da cidade - estende-se a toda Região Centro, factura 300 milhões de euros, e conta hoje com mais de 60 empresas controladas maioritariamente pelo fundador e pelos seus dois filhos - António, de 42 anos, e Joaquim, de 40. Desde os anos 80 que o grupo iniciara uma diversificação para áreas de negócio correlacionadas ou complementares da construção civil e obras públicas, com uma aceleração a partir de 1998, tendo adquirido o controlo de 40 novas empresas nos últimos quatro anos. «Diluir o risco da concentração na construção», foi a máxima seguida, diz-nos António Barroca Rodrigues, o filho mais velho.

A partir do núcleo histórico das obras públicas (ainda hoje 55% do volume de negócios global) e da construção civil, o grupo entrou nas auto-estradas (tem participação no consórcio das Auto-Estradas do Atlântico que detém a A8 que parte de Lisboa para atravessar a região litoral, e também na OesteRota), nos produtos termoplásticos para rodovias e no gás natural (onde participa na Tagusgás). Muitos dos novos negócios surgiram como "spin-offs" de necessidades internas - como foram os casos da gestão de frotas que deu origem a uma área de comércio automóvel e combustíveis, da logística (participando no Terminal Multimodal do Vale do Tejo, perto da Golegã), e do entretenimento que projectou o grupo no segmento do turismo regional, detendo hoje um kartódromo em Fátima e uma empresa de "outdoor" em Ourém, além de investimentos em hotelaria e agências de viagens. Entrou, também, na área dos media, com a constituição da Sojormedia, detendo posições na imprensa não diária, na TV cabo e em projectos Web na Região Centro e Litoral do país.

Com a liquidez financeira do grupo, a estratégia tem sido mobilizar empreendedores (externos ou intra-empreendores do grupo) com "know-how" em áreas estratégicas de negócio definidas pelo grupo, adquirindo o controlo das empresas e envolvendo os novos parceiros em "sub-holdings" por área de negócio. Desde 1998 que o grupo Lena tem estado numa fase de estruturação tendo criado sete «conselhos estratégicos por área de negócio, que funcionam informalmente e têm evoluído ou evoluirão para sub-holdings», refere Joaquim Barroca Rodrigues. Há já "sub-holdings" na área da construção, dos media, do gás e do comércio automóvel, e até finais de 2004 deverão ser formalmente organizadas as restantes. A internacionalização a partir de 1996 tem sido outra saída de crescimento - tendo começado pelo Brasil e avançado para Moçambique e, mais recentemente, para a Europa do Leste, com a primeira "joint-venture" na Roménia, estando na calha a Bulgária.

O problema crítico tem sido "harmonizar" esta babilónia de estilos de gestão em várias dezenas de empresas. Além da criação dos referidos "conselhos estratégicos", o grupo tem uma Direcção de Apoio Estratégico que funciona na "holding" central, onde centraliza serviços transversais ao grupo (como marketing, finanças, recursos humanos, tecnologias de informação, apoio jurídico). O grupo criou também um "Canal Lena" para potenciar o cruzamento de clientes e de oportunidades existentes na rede de empresas e tem vindo a harmonizar "boas práticas", desenvolvendo um sistema de micro-certificação interna e de auditorias anuais.


ARCUS

Micro-consultora entra na Polónia

Na Web em www.arcus.com.pt.

O desenho de sistemas de governo electrónico local já começa a ser um produto de "exportação" português. A autarquia de Castelo Branco está a desenvolver uma parceria com uma cidade do interior rural polaco, Pulawi, para a colaboração em ferramentas e estratégias de disseminação da sociedade da informação em regiões agrícolas e distantes dos centros nevrálgicos dos respectivos países. O projecto iniciou-se com uma geminação das duas cidades em Setembro passado e deverá estar concluído em 2004. Pulawi fica na região de Lublin, não muito longe das fronteiras com a Rússia e a Ucrânia, e nesse seu horizonte transfronteiriço especializou-se na agricultura, nas agro-indústrias, na biotecnologia e na veterinária. Tem uma vida cultural intensa, organizando uma bienal de Jazz, e uma apetência dos seus cidadãos para a aproximação "electrónica" à administração local.

Por detrás desta "aventura" a Leste está uma micro-consultora portuguesa criada por um ex-professor de química e ex-investigador no Departamento de Protecção Radiológica e de Segurança Nuclear do Laboratório Nacional de Engenharia Industrial, em Sacavém. «Aposta pessoal intuitiva», justifica-se Eduardo Lopes Rodrigues, 43 anos, o fundador da Arcus, a consultora sediada no Estoril que já tem actividade na Polónia e em breve na Eslovénia e na República Checa. «A partir de 2004, a estética da União Europeia vai mudar. A deslocalização das oportunidades emigra claramente para o Leste», sublinha. A Arcus mantém, também, um escritório em São Paulo, no Brasil, onde desenvolve uma estratégia de aproximação a prefeituras.

Eduardo nos anos 90 resolveu virar a sua atenção para o "desenvolvimento sustentado", nas vertentes da "eco-eficiência", do desenvolvimento regional, da Sociedade da Informação e das políticas e práticas públicas de suporte. Participou numa obra colectiva publicada na Holanda, e entrosou-se com redes de investigação transeuropeias nesse âmbito. Foi um estudo para a Fundação Dublin, irlandesa, que lhe abriu a porta para este primeiro projecto piloto na Polónia, onde fez parceria com o ramo polaco da Open Society Foundation. A Arcus integrou, então, o MBCOMM, um consórcio polaco, em que também participa a autarquia albicastrense.

Página Anterior
Canal Temático
Topo de Página
Página Principal