O Silicon Valley depois do «crash»

O pânico ainda não se apoderou dos quadros, apesar dos despedimentos em crescendo e das falências das «dot-com». Entretanto alguns mitos da Nova Economia começam a ser colocados em causa e a inépcia dos grupos da «velha» economia é colocada a nú. A reflexão sobre a estratégia regressa ao primeiro plano. Alguns campiões do Vale californiano, como o Yahoo!, a Cisco e a Intel começam a suscitar interrogações.

Jorge Nascimento Rodrigues em São Francisco em Fevereiro de 2001

Patrocinado pela PriceWaterhouseCoopers e com o apoio do ICEP de São Francisco

Visitas anteriores do Ardina na Web ao Silicon Valley

IDEIAS-CHAVE
  • O que findou foi apenas o 1º Acto da Nova Economia
  • Uma nova marca não se cria à base de gastos milionários de publicidade
  • Os primeiros a posicionarem-se não têm garantia de vantagem competitiva sustentada («first mover advantage» é um mito)
  • Muitas ideias colocadas em prática nesta 1ª fase da Nova Economia eram prematuras - poderão triunfar amanhã em novas reincarnações
  • Regresso ao controlo apertado dos custos - acabe com o despesismo
  • Regresse à estratégia - deixe de andar nas nuvens
  • O que você precisa até 2005: inteligência tecnológica; pensamento não convencional; visão; competências pessoais melhoradas
  • Duas tendências em ascenso: computação distribuída/P2P e biotecbologia

  • OS ARTIGOS QUE NÃO PODE DEIXAR DE LER (*)
    (*) A maioria destes artigos não está disponível gratuitamente «online»

    Sobre o regresso à estratégia
  • Rule 3 - Leadership is confusing, por Tom Peters, revista FAST Company, nº 44, Março 2001
  • The State of Strategy 2001, por Lawrence Fisher, revista Strategy+Business, nº22, 1º trimestre de 2001, editada por Booz Allen & Hamilton
  • The 3 Phases of Value Capture, por Rhonda Germany e Raman Muralidharan, revista Strategy+Business, nº22, 1º trimestre de 2001
  • The Last Mile to Somewhere, por Tim Laseter, revista Strategy+Business, nº 22, 1º trimestre de 2001
  • Big Ideas, por Michael Porter, revista FAST Company, Março 2001
  • The Past and Future of Competitive Advantage, por Clayton M. Christensen, na revista Sloan Management Review, edição Inverno 2001


  • Balanço da Nova Economia
  • Entrevista com Marc Andreessen: Act II, na revista FAST Company, nº 43, edição de Fevereiro de 2001. Tradução em português na revista portuguesa Executive Digest, de Março 2001 (ano 7, nº 77), sob o título: «Juro dizer a verdade»
  • Artigo de Rosabeth Moss Kanter «The 10 Deadly Mistakes of Wanna-Dots», na revista Harvard Business Review, edição de Janeiro de 2001
  • Artigo de Lester Thurow «Does the 'E' in E-Business stand for 'exit'?», na revista Sloan Management Review, edição Inverno 2001, volume 42, nº 2

  • AS REVISTAS NA WEB
    FAST Company | Strategy+Business
     Sloan Management Review | Harvard Business Review 

    Apesar do «crash» do NASDAQ ir fazer um ano daqui a dois meses e do disparo nos «layoffs» ser visível, nas estatísticas, a partir de Outubro do ano passado, o clima psicológico entre os quadros e os empreendedores do Vale californiano ainda não é de pânico.

    Os analistas falam de um «optimismo residual» herdado de 18 anos de «boom» da Terceira Vaga, e em particular dos últimos seis anos com a emergência da Web.

    Este clima é extensível a nível nacional nos Estados Unidos.

    Os inquéritos de campo confirmam este «desfasamento»: 71% dos inquiridos numa sondagem da Gallup para a CNN e o jornal USAToday crêm que o seu emprego não está em risco nos próximos doze meses e 76% acham que se forem despedidos conseguirão arranjar nova colocação em menos de quatro meses. Apesar disso, 45% já rastreia permanentemente hipóteses de mudança de emprego - o seguro morreu de velho.

    Muitos despedidos e falidos das «dot-com» na Bay Area de São Francisco tomaram calmamente a decisão de «meter férias» e gozar algum dinheiro que não foi derretido no «crash» da Bolsa.

    O que é seguro para toda a gente é que a revolução da Web não terminou. Apenas se fechou o primeiro acto, como sugestivamente intitulava a revista FAST Company (de Fevereiro de 2001), baseada numa sondagem em que 93% dos respondentes concordou com a afirmação de que «a Internet ainda está na infância» e de que «maiores mudanças ainda estão para vir».

    O beijo da morte

  • Declarações de Marc Andreessen à FAST Company provocam onda de choque

    Enquanto o pânico não chega e os analistas económicos se entretêm a discutir uma verdadeira sopa de letras - se a recessão nos EUA vai ser em V, em U ou em W -, os mais lúcidos dedicam-se a um regresso à reflexão estratégica.

    As declarações de Marc Andreessen – em larga medida, o «responsável» pela massificação da World Wide Web através do «browser» que popularizou em 1995 com a criação da Netscape no Silicon Valley – de que chegou «a hora de cortar com os mitos» estão a provocar uma onda de choque.

    A ideia de que o primeiro a chegar tem a vantagem competitiva garantida (a chamada «first mover advantage», no calão da gestão) e de que uma marca na Web se fará, sobretudo, à custa de uma fortuna em publicidade, são uma espécie de «beijo da morte», nas palavras de Andreessen à revista FAST Company (na sua edição de Fevereiro de 2001).

    O actual líder da Loudcloud Inc. adverte, ainda, contra um mito mais recente – o da convergência nos futuros aparelhos de informação. O mais provável é que a inovação produza uma ainda maior divergência e uma maior especialização, diz ele. O futuro é um mosaico de soluções e não de «unicidade» no mundo dos aparelhos de informação do século XXI.

    Aperto no despesismo

  • Revista Strategy+Business lança ataque ao «despesismo» das start-ups da Nova Economia

    A orgia de publicidade em 1999-2000 provocou, agora, o seu contrário - o renascimento do controlo apertado de custos como doutrina de estratégia operacional, em particular em «start-ups».

    Os teóricos da revista Strategy+Business (na sua edição do 1º trimestre de 2001), da Booz-Allen & Hamilton, criticam a ideia de ganhar quota de mercado independentemente dos custos e salientam, também, que as estratégias de fidelização não se podem basear numa oferta despesista.

    O serviço ao cliente não pode ser um fardo e transformar-se numa desvantagem de custo. O resultado é a falência, quando não há mais saco azul dos capitalistas de risco e possibilidade de tirar milhões a partir da crença dos investidores bolsistas.

    Os grupos vão nús

  • Violento ataque de Rosabeth Moss Kanter à mediocridade da estratégia Web dos grupos da «velha» economia

  • Lester Thurow duvida das estratégias «híbridas» dos grupos da «velha» economia

    Mas não só a «ingenuidade» das estratégias das «dot-com» subiu ao pelourinho.

    Os grupos da «velha» economia que procuraram entrar na onda da Web estão a ser criticados com dureza. Eles revelaram, ao longo destes últimos cinco anos, salvo raras excepções, uma inépcia a toda a prova, conclui a respeitada Rosabeth Moss Kanter, considerada um dos gurus do «management» no feminino, no seu mais recente artigo publicado na revista Harvard Business Review (edição de Janeiro de 2001).

    Um inquérito de campo realizado sob sua orientação entre Novembro de 1999 e Julho de 2000 em várias partes do mundo junto de mais de 1000 organizações revelou que os grupos estabelecidos (nas indústrias, nos media, nas telecomunicações, nos serviços financeiros) pecaram por ignorância, ausência de cultura da Web entre os seus dirigentes, decisões «baratinhas» em termos de recursos humanos, promoção da incompetência e incapacidade de mudar o comportamento interno das suas organizações.

  • OS ERROS MAIS FREQUENTES DOS GRUPOS
    (vistos pelos trabalhadores e quadros entrevistados)
  • 50% acha que não foram colocados quadros tecnicamente competentes e com cultura Web à frente das novas áreas
  • 35% acha que a liderança das suas empresas não percebia nada do assunto
  • 30% é de opinião que há resistência à mudança também entre os empregados
  • 25% declara que a administração não tem cultura Web nem a usa regularmente
  • 25% afirma que há conflitos abertos entre departamentos e sectores da empresa em relação à Web

  • Fonte: Estudo de Rosabeth Moss Kanter em «The 10 Deadly Mistakes of Wanna-Dots», Harvard Business Review, Janeiro 2001

    Os grupos da «velha» economia agarraram-se, entretanto, à teoria do «hibridismo», na tentativa de uma estratégia dual em termos de modelo de negócio, com um pé no «click» e outro na argamassa (no físico). Mas esta ginástica não é fácil pela gestão de contradições de interesses internos que envolve.

    O céptico Lester Thurow veio agora dizer num artigo polémico escrito para a revista Sloan Management Review (edição de Inverno 2001) que esta estratégia dual «poderá não funcionar» em muitos casos, pois ainda não é claro que tipo de mercadorias se adaptam melhor a cada um dos canais («offline» e «online»).

    O regresso à estratégia e um duelo entre gurus

  • Michael Porter contra o experimentalismo estratégico

  • Tom Peters a favor da improvisação, da intuição e do pragmatismo

  • Clayton Christensen exige análise concreta da situação concreta

    Num ambiente de desilusão, Michael Porter aproveitou a oportunidade para reclamar o regresso à estratégia. Segundo ele, a década que passou foi uma tragédia para a estratégia. Ter-se-ia difundido a ideia entre os gestores e os empreendedores da Nova Economia de que «num mundo de mudança tão rápida não é preciso estratégia».

    Porter advoga na revista FAST Company (edição de Março 2001) que a estratégia da empresa tem de ter estabilidade e que não pode ser constantemente reinventada. O experimentalismo estratégico não funciona, adverte.

    Tal como não funciona o voluntarismo extremado, à base de um discurso de metáforas heróicas, como o que ainda continua a escrever Gary Hamel (como em Leading the Revolution, a sua última obra - compra do livro).

    Entretanto, desenvolveu-se um duelo de gurus sobre como «fazer» estratégia. Tom Peters, na mesma edição da revista FAST Company (Março 2001), contraria Porter e diz que os próximos anos vão exigir do gestor e do empreendedor muita arte de improvisação, intuição, pragmatismo e jogo de cintura para se perceber quando uma vantagem competitiva deixa de o ser.

    Esta opinião mais «flexível» de Peters é corroborada pelo especialista em inovação Clayton Christensen que fala da necessidade periódica de uma análise concreta da situação concreta, num artigo publicado na revista Sloan Management Review (edição Inverno 2001). O autor do consagrado Dilema do Inovador (compra do livro), afirma que é preciso deitar fora o mito de que a vantagem competitiva de uma empresa é «estável». Ela deriva, em cada caso, do contexto e por isso é, sempre, historicamente transitória.

    Os campiões do Vale em cheque

  • Yahoo!, Cisco e Intel vêm os modelos de negócio mostrar primeiras brechas

    Este debate teórico aparentemente aborrecido tem tido um largo impacto no Silicon Valley.

    As últimas turbulências na Yahoo! (nomeadamente com a resignação de responsáveis fora dos EUA) parecem indicar que este modelo da Nova Economia descurou a estratégia. Os analistas afirmam que a vantagem competitiva dos portais generalistas estará a chegar ao fim e que o seu negócio baseado na publicidade «online» (90% da facturação no caso da Yahoo!) é frágil.

    Outro problema estratégico toca a Cisco Systems, considerada até hoje o modelo por excelência da gestão de uma cadeia de valor de fornecedores, parceiros e «start-ups» compradas, com uma subcontratação muito ampla. O pêndulo parece estar a mudar de direcção e o reforço da integração estratégica interna parece voltar a dar cartas em muitos casos.

    Finalmente, a Intel parece ter chegado ao limite da sua estratégia de economias de escala na área dos «chips». Novos conceitos tecnológicos em ruptura com o convencional, como os aplicados no «chip» Crusoé da Transmeta, uma empresa de Santa Clara onde o finlandês Linus Torvalds (o fundador do Linux) hoje trabalha, estão a desafiar a vantagem competitiva do líder de uma das indústrias mais marcantes da Terceira Vaga.

  • DUAS TENDÊNCIAS AO RUBRO
    Genómica e «P2P» (acrónimo para «peer-to-peer», ou conexão electrónica entre pares, sem necessidade de um eixo centralizado) são as duas «buzzwords» do momento no Silicon Valley. As duas conferências de maior impacto que se realizaram na semana de 12 a 18 de Fevereiro em hoteis do centro de São Francisco centraram-se no estado da arte destas duas áreas emergentes.
    A decisão de um colectivo de três juízes de São Francisco considerando roubo as funcionalidades permitidas pelo Napster (hoje uma empresa sedeada em Redwood City, no Vale californiano) foi considerada uma «vitória de pirro» pela maioria dos assistentes da 1ª Conferência sobre P2P organizada pela editora O’Reilly & Associates.
    A «napsterizaçâo» de muitos sectores é hoje considerada uma inevitabilidade e a corrente do P2P e da computação distribuída pretende começar a desenvolver os primeiros modelos de negócio e lançar as primeiras soluções.
    Foi levantado um pouco do véu de iniciativas em curso pela InfraSearch liderada por Gene Kan (entrevista disponível na Janela na Web aqui), pela Groove de Ray Ozzie (o criador do Lotus Notes) e pela Sun Microsystems em torno do JXTA (de «juxtapose»).
    Por outro lado, a divulgação dos artigos científicos sobre o estado da sequênciação inicial do genoma humano publicados nas revistas Nature (a 15 de Fevereiro, nº409) e Science (a 16 de Fevereiro, volume 291, nº5507) provocaram um enorme frenesim na Conferência Anual da American Association for the Advancement of Science, este ano realizada em São Francisco. O seminário sobre o Genoma Humano subitamente tornou-se no pólo de todas as atenções.
    Artigo na revista NATURE | Artigo na revista Science

    Para além do óbvio interesse científico do que foi revelado, espera-se, no plano económico, um disparo da biotecnologia, a emergência em particular da indústria de proteínas humanas e o efeito da provável entrada no mercado de 100 potênciais medicamentos que estão na última fase de testes clínicos.
    O Silicon Valley foi considerado o «cluster» de empresas neste sector mais bem posicionado, particularmente na cidade industrial do Sul de São Francisco, onde fica o enorme «campus» da Genentech, a pioneira da biotecnologia.
    Página Anterior
    Canal Temático
    Topo da Página
    Página Principal