A nova convergência

A estratégia para a primeira década do século XXI
que vem do Silicon Valley

Muitas das estratégias empresariais e governamentais continuam ancoradas no que já pode ser considerada a "velha" convergência dos anos 90 que originou o que o que os mercados financeiros baptizaram de "TMT" (tecnologias de informação, media e telecomunicações) e o que os políticos têm referido, de um modo simplificado, como "Sociedade da Informação". As oportunidades de inovação e de novos negócios para esta primeira década do século XXI estão a deslocar-se para outro tipo de cruzamentos sectoriais e de intersecções entre disciplinas de investigação. O Silicon Valley, na Califórnia, uma vez mais, pretende estar na dianteira, apresentando uma nova visão do futuro próximo.

Jorge Nascimento Rodrigues, Outubro 2002

Sítio na Web da Joint Venture Silicon Valley
Entrevistas disponíveis em inglês em www.gurusonline.tv
com William Miller e com Paul Roche

Na "nova convergência" está envolvido um mercado potencial de 1 bilião de dólares (1 trilião na designação anglo-saxónica e brasileira) até 2010, o que abre, desde logo, o apetite aos estrategos empresariais. A taxa de crescimento anual acumulada deste mercado emergente é calculada em 60%, segundo o estudo realizado pela McKinsey & Co para a Next Silicon Valley Initiative, promovida por uma organização sem fins lucrativos daquela região da Califórnia, a Joint Venture Silicon Valley Network. Esta chuva de milhões vai ser alimentada por uma nova "convergência", fruto do cruzamento e da intersecção entre três revoluções tecnológicas - a biotecnologia, as tecnologias de informação e a nanotecnologia.

[Em ternos comparativos refira-se que o mercado global das tecnologias de informação será em 2005 na ordem do 1,5 biliões de dólares (1,5 triliões na designação anglo-saxónica e brasileira), segundo dados da IDC, que não dispõe, ainda, de estimativas para 2010. O valor de 1 bilião (1 trilião) avançado para a "convergência" em 2010 abrange apenas as zonas de intersecção entre as três áreas, pelo que a dimensão deste mercado é imensa.}

Estes analistas referem que uma estratégia empresarial ou governamental baseada na convergência dos anos 90 do século passado - que conduziu à emergência da baptizada "Sociedade da Informação", ao "boom" da Nova Economia e ao nascimento do que as bolsas designaram por sector "TMT" (tecnologias de informação, media e telecomunicações) - já não garante qualquer liderança. Mesmo uma aposta na área da biotecnologia, apesar dos seus impactos milionários na farmacêutica e no negócio de saúde em geral, é insuficiente. A era que vai suceder à Informação não é, apenas, biotecnológica, argumentam.

«A oportunidade está em conseguir uma posição de liderança na convergência daquelas três revoluções, o que algumas empresas e instituições já estão a fazer», afirma-nos Paul Roche, da McKinsey, que participa no grupo de personalidades e especialistas que tem preparado os relatórios estratégicos para a renovação do Vale californiano.

A interacção entre disciplinas de investigação já levou à emergência da genómica e da proteonómica (estudo das proteínas) em que a biologia se misturou com a ciência da informação. E o cruzamento sectorial já tornou visíveis novas áreas de negócio como a bioinformática, os biomateriais, os "biochips" e os bio-sensorees, para só citar alguns casos mais divulgados.

Oportunidade para inovar

«A principal mensagem, diz-nos William Miller, professor da Graduate School of Business na Universidade de Stanford, é que a inovação vai ocorrer provavelmente dentro destas novas intersecções entre disciplinas de investigação ligadas às três áreas». Miller é considerado a eminência parda do Next Silicon Valley Leadership Group e tem-se batido por uma estratégia pró-activa do Vale californiano no sentido de ultrapassar rapidamente as sequelas do "crash" da Nova Economia. Miller foi editor do livro Silicon Valley Edge, lançado no ano passado pela editora da Universidade.

A "receita" é simples e antiga naquele Vale - trata-se de descobrir a nova vaga tecnológica e de ser líder mundial nela. Miller argumenta que o Vale o conseguiu desde os anos 50 e que, agora, é o espaço geográfico melhor posicionado em talentos, capital de risco, patentes e experiência empreendedora para repetir a façanha.

Por mais paradoxal que pareça, o actual período de crise, cuja recessão e depressão se poderá prolongar ao longo do quinquénio, é a melhor altura para criar empresas - as célebres "start up" - ou desenvolver novas áreas de negócio nos grupos empresariais em torno desta nova convergência. É, também, o momento-chave para afinar estratégias de Investigação & Desenvolvimento e políticas de "clusterização" geográfica em torno desta convergência.

«O passo da inovação vai agora, de novo, acelerar-se e não decrescer», diz William Miller

Os analistas envolvidos comparam o período actual ao que se viveu no Silicon Valley entre 1987 e 1994, após o mini-"crash", o amadurecimento do negócio do computador pessoal e os despedimentos massivos de 1989 a 1992 (cerca de 70 mil na alta tecnologia, número similar ao que se registava no final de 2001). «O passo da inovação vai agora, de novo, acelerar-se e não decrescer», sublinha Miller, referindo que foi uma acumulação de inovações nos anos precedentes que levou ao disparo da Nova Economia em 1995.

A alavanca da nanotecnologia

Apesar da focalização mediática que, ainda, hoje se sente na "webização" da economia e da sociedade e na enorme atracção pelos feitos da biotecnologia pós-genoma, o estudo a que nos referimos acentua que a grande alavanca da próxima década está num palavrão tecnológico, porventura quase desconhecido da maioria dos leitores - a nanotecnologia, ou seja a manipulação da matéria (viva ou não) a nível atómico e molecular. «A nanotecnologia é uma tecnologia capacitadora, na terminologia que usamos a nível científico. O seu papel pode ser equivalente ao do transístor depois de 1947, mais até do que o da World Wide Web. As oportunidades de aplicação da nanotecnologia são ainda mais vastas do que as da web», referiu-nos Miller.

Ora a nanotecnologia é uma das áreas em que se exige uma enorme "sinergia" entre disciplinas, como a física, a biologia molecular, a química e a engenharia. Parte da "guerra" tecnológica do futuro reside na capacidade de criar um bom "pool" nacional e uma rede internacional neste campo. Com a globalização e a cada vez maior circulação de cérebros - já não há só "fuga de cérebros" num só sentido, diz outra especialista do Silicon Valley, a professora AnnaLee Saxenian - , «as melhores inovações vão ocorrer em vários sítios do mundo e não só num ou noutro», conclui William Miller, que advoga uma estratégia metanacional também no campo da I&D.

Sinergias a criar

O desafio colocado por esta nova convergência é enorme. A "intersecção" e "cruzamento" que exige entre áreas distintas da investigação e do negócio coloca a necessidade de combater frontalmente o que o relatório designa por "silos", "feudos" científicos e tecnológicos, em regra de costas viradas, que, mesmo no Silicon Valley, se manifestam. Paul Roche advoga algumas medidas: «Alguns caminhos já estão testados, como programas multidisciplinares em doutoramentos e mestrados; parques científicos e tecnológicos em que se fomente o cruzamento da investigação; programas para colocar em contacto executivos das três áreas - biotecnologia, tecnologias de informação e nanotecnologia».

O outro desafio prende-se com a transição da mão-de-obra especializada de "uma vaga para a outra", não só em termos da reintegração dos despedidos como da re-orientação da formação de novos quadros saídos dos Politécnicos ou das Universidades do Vale ou atraídos de outras regiões dos EUA e de outras partes do mundo (como China, Índia, Coreia do Sul, Europa). No passado isso conseguiu-se, no Silicon Valley, com uma progressão de re-especialização da área da defesa para os circuitos integrados nos anos 70, depois para o computador pessoal nos anos 80 e mais recentemente para a web. As exigências estão, de novo, colocadas à revisão das estratégias de ensino, formação, investigação e mesmo criação de "start ups". Dar o tiro certeiro e actuar rapidamente é, de novo, o cerne da vantagem competitiva.

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