O erro da biotecnologia

A engenharia genética e a mais recente genómica estão assentes num dogma nascido com a descoberta da "hélice" do ADN nos anos 50. Os resultados divulgados há um ano sobre o genoma humano demonstram que esse ponto de partida está errado, segundo o biólogo norte-americano Barry Commoner

Jorge Nascimento Rodrigues com Barry Commoner, director do Center for the Biology of Natural Systems, sediado no Queens College, City University of New York

Site da revista Harper's
Artigo - «Unravelling the DNA Myth» - na Harper's de Fevereiro de 2002
(não está disponível online)
Human Genome Project Information
National Human Genome Research Institute
Crítica ao artigo de Commoner na Reasononline - «Is biologist Barry Commoner a Mutant?»

Artigos de Barry Commoner disponíveis online
«Why Genetic Engineering is so dangerous»
Entrevista à revista Scientific American em 1997
Artigo de 1973 sobre ambientalismo («Ecology and Social Action»)

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A biotecnologia pode ter pés de barro e as esperanças da Wall Street e do NASDAQ em arranjarem um substituto para a Nova Economia poderão sair goradas. Os fundamentos teóricos da engenharia genética ligados à descoberta da dupla hélice do ADN em 1953 por Francis Crick e James Watson - e que lhes daria o Prémio Nobel em 1962 - terão sido postos em causa pelos resultados dos projectos sobre o Genoma Humano divulgados em Fevereiro do ano passado pelas revistas Nature (15/02/2001) e Science (16/02/2001).

Para surpresa da comunidade científica mundial, os projectos revelaram que o genoma humano não contaria mais do que 25 a 35 mil genes, quando são conhecidas mais de 100 mil proteínas humanas. Os dados revelaram, ainda, que cerca de 40% dos genes humanos se envolvem em "entrançamentos alternativos" que geram múltiplas proteínas, cada uma delas com uma sequência diferente entre si e em relação ao gene original. A ideia de que o gene estaria sob total controlo, de que "movendo-o" de um organismo para o outro, ele continuaria a fazer o mesmo, terá ficado sem bases credíveis.

O terramoto de Fevereiro (de 2001)

«Isto deita abaixo a teoria definida sobretudo por Crick, e transformada em dogma central, segundo a qual haveria uma correspondência um-a-um entre os genes e as proteínas e que cada gene seria capaz de produzir a sua proteína mesmo numa espécie diferente. O que era uma ideia sedutora, mas, como se vê, falsa. O problema é que ninguém quer reconhecer abertamente isto», afirma-nos Barry Commoner, um cientista norte-americano, nascido em 1917, hoje à beira dos 85 anos, conhecido pelo seu activismo, desde os anos 50, em causas como o nuclear, o ambiente e os transgénicos.

Convencido deste "terramoto" de há um ano estar a ser "censurado" pelos media científicos, Commoner publicou um artigo polémico na edição de Fevereiro da revista nova-iorquina Harper's, intitulado sugestivamente «Decifrando o mito do ADN. As fundações falsas da engenharia genética», que, em poucas semanas, já provocou uma torrente de 300 cartas. Na sequência do artigo, alguns dos investigadores envolvidos no Projecto do Genoma Humano terão confidenciado ao velho activista que «sabem que as ideias de Crick estão erradas, mas não o querem reconhecer publicamente». Commoner diz, com ironia, que «o principal resultado dos 3 mil milhões de dólares do projecto desde 1990, dirigido por Watson, é a refutação da sua própria premissa de partida».

A tese de Commoner é que há outros intervenientes fundamentais no processo da vida para além dos genes - as proteínas -, um ponto de vista que ele defende há décadas. Com mais alguma ironia comenta: «O que nos separa em número de genes de algumas plantas ou moscas é muito pouco... Pelo que é preciso muito mais do que os genes para explicar a complexidade dos traços hereditários e das diferenças entre espécies». Os críticos de Commoner dizem que a ironia é fraca como argumento e insinuam que o artigo jamais veria a luz do dia se fosse sujeito a revisão científica para publicação nalguma revista da especialidade. «Os velhos radicais nunca morrem. As suas teorias só morrem quando eles morrerem», escreve um dos críticos mais ferozes deste zoólogo e biólogo que chegou a ser candidato presidencial nos EUA pelo Partido dos Cidadãos (Citizen's Party) em 1980.

A primeira vítima

Esta ideia de que o ADN não é o segredo final da vida e de que a "transferência" de um gene de um organismo para outro não é um passeio pacífico, absolutamente controlado quanto aos resultados, pode fazer uma primeira vítima - a indústria biotecnológica ligada aos transgénicos.

A tal propriedade do "entrançamento alternativo" - verificada desde 1978 na replicação de vírus e nas células humanas desde 1982 - pode originar múltiplas variantes de uma proteína ou mesmo uma outra que pouco tenha de similar à original. «Tudo isto tem efeitos difíceis de predizer a nível do ecossistema e da saúde pública, e sobretudo no caso de 'transferências' entre diferentes espécies, como acontece com os alimentos transgénicos», alerta Commoner, que dirige hoje em Nova Iorque o Centro para a Biologia dos Sistemas Naturais, criado por ele nos anos 60 em St.Louis, em cuja Washington University leccionou desde 1947.

A onda de choque aberta pelo artigo de Commoner atingirá ainda outras áreas da biotecnologia. Inspiradas pela "proximidade" numérica de genes entre a espécie humana e algumas plantas e insectos, muitas empresas que haviam trabalhado na descodificação dos genes desses organismos, exultaram com os resultados do projecto do Genoma Humano. Commoner abriu a porta para o balde de água fria na expectativa desse "salto" fácil dos segredos das plantas e insectos para os humanos.

Também a "clonagem" humana - muito em foco há um ano atrás com reportagens nas revistas Time (19/02/2001) e na Wired (edição de Fevereiro de 2001)- ficou na linha de mira das críticas de Barry Commoner: «A clonagem - inclusive a meramente terapêutica, que no fundo é o mesmo princípio dos alimentos transgénicos - é perigosa. Mesmo na clonagem animal ainda estamos muito longe de compreender o que se passa. E como se sabe, os resultados no campo da vida não são reversíveis, para que se avance sem segurança».

Barry Commoner investigou durante 34 anos as funções virais e a célula e suas implicações no diagnóstico do cancro. Nascido em Brooklyn, licenciou-se em zoologia em 1937 no Columbia College e graduou-se em biologia em Harvard. Especializou-se em fisiologia celular e entrou para a Washington University, em St.Louis, em 1947. Um dos seus livros marcantes é The Closing Circle, de 1971.

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