Nasce o 'Lobby' da Economia Digital

A 4 de Maio vai ser lançado em Lisboa, no Parque das Nações (ex-EXPO 98), o Manifesto
da Coligação para a Economia Digital. Raul Junqueiro explica o significado
deste novo «D» para o séc. XXI.

(versão integral)

João Ramos e Jorge Nascimento Rodrigues

Logo: Coligação para a Economia Digital

Vinte e cinco anos depois do 25 de Abril há um novo «D» em marcha - o digital. Inimaginável para os criadores dos três «D» (democracia, desenvolvimento, descolonização) de então, que orientaram o movimento que derrubou a ditadura há um quarto de século, ele tem vindo a emergir na nossa economia e sociedade mas defronta um muro de «insensibilidade» dos poderes instituídos e dos interesses da velha economia ou o discurso inconsequente de muitos responsáveis políticos.

«Há muitas declarações de intenção no poder político. Mas na prática têm-se feito apenas algunas iniciativas governamentais dispersas, onde falta uma visão estratégica de conjunto, concertada e assumida. Sentimos que era o momento da sociedade civil ligada a esta nova economia digital se organizar. Não podíamos estar mais à espera de ministros e políticos. Era a hora de 'gritarmos' um pouco», afirmou Raúl Junqueiro, o líder da recém-criada 'Coligação para a Economia Digital', cujo Manifesto vai ser divulgado, no Parque das Nações (ex-Expo 98), em Lisboa, no próximo dia 4 de Maio.

Nesta primeira fase, o Manifesto foi já dado a conhecer ao Presidente da República que se mostrou «muito receptivo para a ideia de que a sociedade portuguesa tem de ser alertada para este tipo de preocupações», sublinhou-nos o nosso interlocutor. Jorge Sampaio, que tem continuado a investir nas suas aulas de computador como é publicamente conhecido, teria, na ocasião,manifestado a disponibilidade para poder vir a participar em actividades futuras da Coligação.

Pacto de Regime urgente

Os subscritores do documento acentuam que a questão hoje em dia não é mais de «discurso», mas de assumir o digital como «prioridade» de acção. «Tal como os políticos o fizeram com a adesão à Comunidade Europeia ou em relação à questão de Timor, agora em foco, é preciso perceber que a 'adesão' plena à revolução digital é decisiva. A janela de oportunidade é agora. Se o não fizermos, as consequências serão gravíssimas», prossegue Raul Junqueiro, que reclama a necessidade de um «Pacto de Regime» urgente entre os partidos políticos e os parceiros sociais em torno deste objectivo.

A 'Coligação' reuniu como fundadores a Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), de que Junqueiro é presidente, a Associação para a Promoção do Multimedia em Portugal (APMP), o Núcleo Empresarial para as Tecnologias de Informação e Electrónica (NETIE), a Associação Portuguesa de EDI e Comércio Electrónico (APEDI), a Associação Portuguesa de Software (ASSOFT), a Associação Portuguesa para o Desenvolvimento do Teletrabalho (APDT) e a Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), entidades ligadas ou à nova economia ou à nova vaga de empreendedores.

Segundo o documento, o movimento quer contribuir «para o desenvolvimento da Economia Digital através de acções de educação, consciêncialização, sensibilização, formação e diálogo, e ainda através da criação de uma base tecnológica nacional, suporte essêncial para o seu desenvolvimento».

Após esta primeira aparição pública, a Coligação irá contactar os meios governamentais e políticos, as autarquias e os parceiros sociais, e admitirá o alargamento dos seus apoiantes quer em termos de outras entidades associativas, como de aderentes a título individual.

Um dos passos seguintes vai ser a elaboração de um documento que conterá um plano de acção para a promoção da Economia Digital, que procurará beber inspiração numa reflexão estratégica envolvendo personalidades que serão convidadas a aderir ao movimento. O documento terá como coordenador Amado da Silva, professor da Universidade Católica Portuguesa.

Um paradoxo bem português

A ideia nasceu há alguns meses na cabeça de Raul Junqueiro, Rui Marques (da APMP) e Manuel Fernandes Tomaz (da ANJE) face à «frustação no final de diversos seminários, encontros e outros eventos, em que sentimos que o discurso político sobre a nova realidade emergente começava a dar sinais de estar um pouco gasto», conta o nosso interlocutor.

Por outro lado, constataram a ironia de um paradoxo provavelmente não exclusivo do nosso país: «Somos um país com uma infraestrutura da rede de comunicações moderna e digital e com exemplos de sucesso na adesão às novas tecnologias, como são os casos do uso do Multibanco e a massificação da utilização dos telemóveis. Há uma clara explosão na natalidade de empresas ligadas à área das tecnologias de informação e das comunicações e apetência para o consumo de bens relacionados com a Internet e a Web. Assiste-se ao desenvolvimento de uma cultura digital no seio de camadas mais jovens e uma consciência ampliada da importância dos conteúdos em português. Mas permanecem barreiras sérias que há que vencer para potenciar a oportunidade trazida pela economia digital», adianta Raul Junqueiro.

A Coligação enlencou diversas 'barreiras' que vão desde o conservadorismo de uma larga camada de decisores públicos e privados do país aos mais diversos níveis, agarrados a «paradigmas pré-digitais», ao facto de muitas profissões em sectores críticos - «como a Justiça, para citar um caso flagrante com processos ainda a ser cosidos e juízes a redigir à mão sentenças!» - continuarem a funcionar em moldes verdadeiramente arcaicos, aos obstáculos à total liberalização na área das telecomunicações, ao desconforto real de uma parte da população portuguesa, tanto culta como menos culta, face ao novo mundo digital, ao carácter disperso da modernização da Administração Pública e às próprias carências de recursos humanos qualificados para estas áreas novas. «Há mesmo quem alimente a ideia de que pode travar o futuro», ironiza o principal signatário do Manifesto que vai ser divulgado na próxima semana.

Em particular, a Coligação pretende abanar algumas partes do próprio tecido empresarial nacional, que continuam «a olhar para os negócios trazidos pela revolução digital de um modo convencional», diz-nos Raul Junqueiro, para sublinhar que o mito muito expandido de que «a mudança ainda vai demorar muito tempo» é desmentido quase todos os dias. E conclui, com alguma veemência: «As novas plataformas tecnológicas, como o comércio electrónico, a WebTV, a televisão digital terrestre, as hipóteses de massificação do uso dos computadores com a oferta do 'hardware', a tendência para a passagem das comunicações para o protocolo da Internet, e a quase diária dança mundial das fusões e aquisições estão a baralhar os cenários que muita gente tinha como adquiridos. Quando acordam no dia seguinte dão-se conta que o seu mundo mudou, sem lhes pedir licença».

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