A nova aposta do Norte - Os «clusters» de inovação

A fígura teórica popularizada pelo académico Michael Porter anima
o desenvolvimento de estratégias regionais em torno das componentes
de automóvel, dos semicondutores, do software e da energia eólica.
A Galiza (Galicia) surge como parceiro «natural».

Jorge Nascimento Rodrigues numa mesa redonda no Europarque organizada pela Agência para o Investimento no Norte de Portugal e pelo semanário Expresso

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

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Notícia associada
Niugarit, o B2B para o sector de componentes português em fase de preparação

Logo AINP O papel da geografia na valorização do tecido económico é conhecido desde que Michael Porter popularizou o conceito de «cluster» sectorial. Baseado na ideia, o Norte litoral português pretende, agora, dinamizar um conjunto de novas fileiras em torno do que designa por «clusters» de inovação, que permitam melhorar o perfil da sua especialização regional, potenciando a continuidade fronteiriça e cultural com a Galiza e a sua abertura ao mercado mundial por via de uma forte tradição exportadora.

Apesar da impressionante reengenharia e renovação dos sectores industriais de especialização histórica nortenha nos últimos anos, como o têxtil, o calçado e o mobiliário, a região continua a ter uma fraca produtividade, uma baixa qualificação de recursos humanos nas estatísticas e uma visão internacional dos empresários muito marcada pela exportação para o contentor.

A criação da Agência para o Investimento no Norte de Portugal (AINP) pela Associação Empresarial de Portugal, pela Comissão de Coordenação da Região do Norte (CCRN) e pelo ICEP pretende mudar esta imagem, incentivando a aposta nesses novos «clusters», designadamente nos componentes para automóvel, na electrónica de semi-condutores, nas tecnologias de informação e na energia eólica.

«Não se trata de descurar os 'clusters' tradicionais da região. Mas de procurar estruturar outros ligados à inovação», sublinha Jaime Quesado, o director executivo da Agência, que pretende pôr a funcionar um «guichet» único para os investidores interessados no Norte e promover o próprio aproveitamento do recém lançado Programa governamental «Inovar», que explicitamente apoia a promoção de «clusters» de inovação, como o em torno do material de transporte e das tecnologias de informação e comunicação. Para uma visão global desta mudança desejada, o Expresso reuniu no Europarque, em Santa Maria da Feira, alguns dos proponentes desta estratégia.

A excepção raiana

A Galiza é hoje um tema constante no discurso empresarial do Norte. Curiosamente, trata-se de potenciar uma excepção na raia luso-espanhola, que continua a ser caracterizada, em larga medida, pelas costas viradas. «A Bacia do Rio Minho é a excepção ao tipo de relações históricas transfronteiriças que temos no resto do nosso país. Esta bacia é uma região fortemente humanizada e ocupada, e inclusive há já um fluxo significativo de milhares de pessoas que cruzam a fronteira de um lado e outro para trabalhar», refere Juvenal Peneda, coordenador do Gabinete de Cooperação da CCRN. «O Norte de Portugal é já o principal destino da exportação da Galiza, se se exceptuar a produção da fábrica de automóveis da PSA em Vigo. Registe-se que alguns processos de internacionalização de empresas galegas de sucesso começaram pelo Norte de Portugal, como foi o caso da Zara», acrescenta Peneda, que não se cansa de repetir que os galegos já perceberam há muito que na estratégia empresarial é indispensável «olhar para o outro lado da fronteira».

Este «olhar» para o espaço galego é provavelmente bem ilustrado pela estratégia na área dos componentes de automóvel que o Centro para a Excelência e Inovação da Indústria Automóvel (CEIIA), sediado no Europarque, pretende dinamizar. «O 'cluster' automóvel é um dos que permitem uma óbvia estratégia de sinergia com a Galiza, em virtude do pólo da Citroen em Vigo, a maior fábrica mundial do grupo construtor francês. Há mais de 100 empresas portuguesas de componentes no Norte, exportando 64% do sector nacional», diz José Rui Felizardo, responsável do CEIIA, um lisboeta que pretende recuperar o atraso em relação à estratégia seguida na Galiza, que «desde há seis anos que vem trabalhando neste 'cluster', tendo criado o CEAGA, um centro de dinamização do sector que agrupa mais de meia centena de empresas galegas».

Veja o exemplo galego no sector automóvel, o Cluster de Empresas
de Automoción de Galicia

Por outro lado, o CEIIA está envolvido no muito mediático estudo em curso com a Pininfarina italiana para a produção de um veículo de nicho, um «carro de cidade», já baptizado de «Metrocubo», cujas conclusões deverão ser divulgadas em Setembro próximo, e que José Rui Felizardo espera que seja «mais uma achega para a potenciação do sector nortenho de componentes e eventual atracção de um novo investimento directo estrangeiro de vulto». Felizardo referiu, ainda, a preparação de um B2B para o sector de componentes em Portugal.

Chips e talentos

O Norte tem atraído, por outro lado, algumas implantações de multinacionais na área da electrónica, sendo um dos casos recentes mais badalados na comunicação social o da Infineon, em Vila do Conde. «Há uma janela de oportunidade no Norte nesta área dos semicondutores e inclusive de cruzamento da electrónica com outros 'clusters' regionais como o do automóvel», adianta José Silva Matos, do Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. «Mas, para além desses investimentos na área de montagem ou de testes, há toda uma outra vertente que importa dinamizar, que é a da criação de aplicações pelos nossos talentos», sublinha, para acrescentar que «é fundamental que se incentive a criação de centros de design na área e de empresas de sistemas». «Este tipo de PME de base tecnológica são, também, um factor ancorante de investimento estrangeiro e revelam uma mentalidade global muito apreciável», conclui. Uma decisão muito elogiada, dentro de uma estratégia de valorização dos talentos regionais «produzidos» pelas Universidades do Minho, Aveiro e Porto, foi a da lisboeta ChipIdea em localizar um centro de design tecnológico na Maia. «É uma atitude claramente a replicar», convida o professor.

Veja o caso da ChipIdea, uma das metanacionais portuguesas

Outros casos óbvios de aglomeração local na área das tecnologias de informação são o já baptizado «Silicon Valley» de Braga e a fileira empreendedora em torno da Universidade de Aveiro e da PT Inovação, a que o Expresso oportunamente se referiu e que inauguraram o Portugal que Mexe, iniciativa promovida pela janelanaweb.com. Um dos projectos que está a ser desenvolvido é o de localização de um parque tecnológico nas Taipas, no eixo Guimarães-Braga, refere Martins Soares, da Associação dos Municípios do Vale do Ave.

Vitrina eólica

Finalmente, surge na lista de prioridades o aproveitamento das enormes potencialidades em energias renováveis da região Norte, e em particular o desenvolvimento de um forte parque eólico que funcione como «vitrina» portuguesa do sector. O Norte litoral e interior português concentra 71% do potêncial eólico do nosso país.

No entanto, trata-se de uma área em que a Galiza também está mais adiantada. «Estão à frente um ano e meio a dois anos», lamenta João Antas Botelho, director geral da Protermia, uma empresa de projectos industriais térmicos e ambientais. Este especialista sublinha que há capitais portugueses a envolver-se nesta área e que se deu como que um «boom» de projectos, na sequência da legislação publicada em 1999. «Contudo, o tiro de partida está dependente do plano de obras da rede eléctrica nacional a implementar em tempo útil, de modo a aproximar a rede dos locais onde o potêncial eólico tem mais expressão», comenta para sublinhar a urgência de clarificação.

CHIPIDEA
Localização de RH no Norte
Dada a dificuldade de mobilidade de recursos humanos entre regiões em Portugal e a falta de oferta de quadros na região de Lisboa com as competências tecnológicas específicas que precisava, a ChipIdea, uma das PME metanacionais do «high-tech» de origem nacional, decidiu abrir um Centro de Design Tecnológico no Norte, no designado «TecMaia», um parque empresarial a funcionar nas antigas instalações da Texas Instruments (e mais tarde da Texas/Samsung) naquela cidade nortenha. A ChipIdea, nascida no Instituto Superior Técnico (IST), na capital, e sedeada no Taguspark, em Oeiras, adoptou, recentemente, uma política empresarial de «descentralização», visando criar «um grupo de competências tecnológicas autónomo da Região Metropolitana de Lisboa», como nos referiu José Epifânio da Franca, o professor do IST e fundador do «spin off» universitário. Esta decisão é apontada no Norte como uma opção que pode ser «copiada» por outras empresas de base tecnológica do Sul.
Operacional desde Maio, o Centro tem como um dos primeiros projectos o desenvolvimento em circuito integrado de um «modem» para comunicação sobre rede eléctrica residencial para aplicações para pequenos escritórios ou escritórios em casa (na gíria do «informatiquês» conhecidas por SOHO - small office home office). Este tipo de projectos requer engenheiros com competência em VLSI (integração em muito larga escala de «chips») digital, que a região de Lisboa não dispõe em número adequado. «Uma vez que não é fácil trazer as pessoas para o pé de nós, decidimos nós ir ter com elas», sublinha Epifânio da Franca. «Penso que é, aliás, a única estratégia correcta no acesso aos recursos humanos qualificados», salienta aquele cientista-empreendedor, colocando a tónica na política de «localização» de quadros, o que levará a ChipIdea a abrir, em breve, outros Centros, nomeadamente fora de fronteiras, na Polónia e na Ásia.
Para reforçar a oferta nortenha de quadros especializados naquela área, este «spin off» académico assinou um protocolo com o Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, no âmbito do qual está a financiar o desenvolvimento de um laboratório VLSI de ensino.

Nasce B2B de componentes
No âmbito da estratégia de consolidação de um «cluster» automóvel em Portugal, foi criada uma empresa para promoção e desenvolvimento de um portal de B2B na área de componentes que poderá estar operacional em 2002, estando previstos testes ainda este ano. Baptizado Niugarit envolve a Fast-Buyer.it (que detém 30% do capital social da Niugarit, Promoção e Desenvolvimento de Actividades Industriais em Cooperação Lda), um portal italiano de B2B para compra de matérias primas e produtos em formas primárias ligado ao grupo Fiat, a Inteli (com 28%), uma empresa portuguesa de consultoria, dirigida por José Rui Felizardo, a Escom (Espírito Santo Comercial com 21%), do Grupo Espírito Santo, e o Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel (com os restantes 21%). O estranho nome de baptismo é um «compósito» de Garit, a primeira cidade de comércio fenícia outrora situada no que hoje se designa por Síria, ligada à tradição histórica euro-mediterrânica, e «niu» sublinha o novo conceito de comércio trazido pela plataforma da Web.
Niugarit posiciona-se como um portal «neutral», que não está ligado em particular a nenhuma das grandes empresas de componentes portuguesas, mas que poderá vir a envolver, no futuro, uma entidade representativa desse sector. Vai arrancar com funcionalidades ligadas ao aprovisionamento (designado na gíria do B2B por «e-procurement») e conta, em fases subsequentes, abarcar a gestão integrada da cadeia de fornecedores (o chamado «supply chain management», na linguagem de gestão) e o trabalho cooperativo à distância e em rede nas áreas de design e engenharia. O portal pretende atrair as empresas portuguesas de estampagem de produtos metálicos, de componentes plásticos e todas as que desenvolvam actividades ou detenham tecnologias com sinergias com o sector de componentes automóvel.
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