Cibersobriedade
Precisa-se!

Para preservar a Democracia na Nova Economia

Um «paper» de lançamento de um livro sobre um tema candente da Web

Jorge Nascimento Rodrigues com Richard E. Sclove, fundador e director do The Loka Institute

Deixar a Web desenvolver-se ao sabor dos interesses de acumulação
de capital por parte do mundo dos negócios vai conduzir a um efeito negativo sobre a sociedade e a democracia.
À cibereuforia do neo-riquismo é preciso contrapor uma atitude
de cibersobriedade e de equilíbrio entre os interesses fundamentais
da cidadania e os do mundo dos negócios ou mesmo dessa entidade abstracta que o marketing endeusou como «consumidor».
Richard E. Sclove é a voz americana mais prestigiada neste campo
de reflexão. Vive em Amhesrt, no Massachusetts, e dirige um Instituto
que tem por fim tornar a Investigação, a Ciência e a Tecnologia responsável perante as questões sociais e ambientais.

Entrevista publicada também na Executive Digest

«Paper» 'Counter the Cybernetic Wal-Mart Effect'
 Democracy & Technology (livro anterior) | The Loka Institute | FASTnet 

Uma discussão acesa já está em curso nos Estados Unidos e cedo chegará à Europa. Deverá o fabuloso mercado de comércio electrónico que poderá valer 1,4 triliões de dólares em 2003 sofrer impostos mais baixos ou mesmo ser isento para facilitar a sua consolidação como íman de atracção de clientes «online» e mecanismo de acumulação inicial de capital?

O debate tem movimentado políticos, homens de negócio e ideólogos da Web. Tem sido analisado de diversos ângulos, com destaque para os argumentos em torno do período de transição actual entre a «velha» e a «nova» economias, ou do que se designa por óptica do benefício ao consumidor e até do ponto de vista terra-a-terra dos inefáveis colectores de impostos ávidos de encher o Tesouro com mais uns trocos.

Todos os ângulos têm sido abordados...excepto o do cidadão e da sociedade democrática, acusa Richard Sclove, fundador em 1987 e director de investigação do The Loka Institute, uma organização sem fins lucrativos sedeada no Massachusetts que se dedica à abordagem do futuro da democracia e da sociedade civil nos novos contextos dos desafios trazidos pelo ambiente e a terceira vaga.

Sclove, de 46 anos, engenheiro nuclear e cientista político pelo MIT, é um veterano destas temáticas. Fundador da FASTnet (Federation of Activists on Science & Technology Network), uma Federação das Redes de Activistas em Ciência e Tecnologia, viu premiado em 1995 o seu livro Democracia e Tecnologia (em inglês - compra do livro), publicado pela Guilford Press.

Richard Sclove Voltou, agora, a terreiro com uma experiência literária interessante. Um artigo lançado na Web, panfletariamente intitulado «Contra o efeito cibernético de tipo Wal-Mart», serviu de balão de ensaio para um estudo que vai publicar sob o título de «Cibersobriedade».

A sua tese central é que o «e-commerce», tal como está a ser orientado, conduzirá a «externalidades negativas» que afectarão profundamente a vida local e o exercício da cidadania. Os seus argumentos, ao longo desta entrevista, merecem uma pausa na euforia actual e uma reflexão com a «sobriedade» que se impõe.


ENTREVISTA EXCLUSIVA JANELA NA WEB / EXECUTIVE DIGEST

O ponto mais polémico deste seu livro em construção é a reclamação da imposição urgente de impostos no comércio electrónico, o célebre «e-commerce». Mas será que os negócios na Web dirigidos ao consumidor deverão sofrer impostos? Isso não será atrofiá-los, num período em que eles precisam de margem de manobra para se expandir? Não seria mais benéfico nesta fase inicial de acumulação de capital, aplicar na Web uma espécie de «zona franca»?

Pelo contrário, eu penso até que deveriam ser mais altos que no mundo real - pelo menos, em relação ao b2c («business to consumer», na linguagem técnica). Não penso que seja necessário qualquer regime de «zona franca». Qualquer negócio que se lança sabe à partida que tem de pagar impostos - isso faz parte das regras do jogo. É uma coisa normal. Porque razão é que a Web deveria estar isenta? Para os novos capitalistas do «e-business» faria jeito obviamente, mas do ponto de vista social seria muito negativo. O problema é que muitos governantes e homens de negócio ignoram o impacto de uma tal medida - se fosse tomada - sobre a sociedade civil democrática.

Mas não está a erguer um espantalho?

Não. A minha lógica é a societal, no sentido de quais seriam os impactos de um «e-commerce» não taxado sobre a própria vida económica local, comunitária e cívica. O âmago do meu «paper» e do livro em preparação é justamente esta avaliação.

E no caso do «business to business» aplicaria a mesma regra?

Nesse caso, é preciso uma análise mais aprofundada. Não posso, ainda, responder. De qualquer modo, o problema é o mesmo: as pessoas continuam a olhar a questão apenas do lado dos negócios e do lado do consumidor.

Mas o que é que há de errado em querer abordar estes problemas do lado do consumidor? Falando francamente, a cidadania não é hoje alimentada em grande parte pelo consumismo?

Essa é a pior doença da nossa época! A definição do «consumidor», como categoria na disciplina económica, não é a do ser humano - é o de uma «máquina» que gasta dinheiro em troca de produtos e serviços. Mas nós somos mais do que isso! Essa ideologia de que só tem significado a relação que é medida por uma transação monetarizada não faz sentido. Isto pode parecer palavreado de um 'extremista' - provavelmente ainda mais 'extremista' aqui nos Estados Unidos do que na Europa. Ou, de um modo mais benigno, pode parecer conversa de uma lunático doido. Mas é preciso que alguém diga que cidadania NÂO É consumismo!

De qualquer modo, a Web já não é mais apenas um instrumento de comunicação entre os humanos, a caminho de uma nova utopia universal, agora virtual, como a sonharam os fundadores. Criou um espaço económico. Isso alterou tudo, não?

Quando Tim Berners-Lee inventou a Web não estava a pensar no que depois se seguiu, é claro. A Web é parte da Internet, um espaço ainda mais largo, que passou por uma fase idealista entre 1990 e 1995, onde se casaram e sucederam várias culturas - a dos 'hackers', a dos libertários, a ciberpunk, a dos universitários e estudantes, a de uma cultura democrática nova, e mesmo de um novo «medium» cívico. Mas, de 95 para cá, tudo isso se eclipsou. A Web é hoje dominada por uma dinâmica económica. Eu antecipei essa mudança e começei a estudar o impacto do problema na sociedade. Não sou idealista, nem creio que aquela imagem ingénua do ciberespaço baseada no tipo vivendo no virtual todo o tempo à frente do PC seja sequer recomendável. Isso também seria completamente tonto!

Porque é que insiste que a nova economia ameaça os fundamentos da democracia? Isso não é um exagero de linguagem, uma certa tentação pelo efeito panfletário?

Não. É o tema que estou a aprofundar neste trabalho de investigação. Eu não digo que a Nova Economia seja só «má». É um complexo de efeitos e está a emergir. A questão central é que haverá, certamente, um largo espectro de implicações sociais e cívicas. O meu sentimento é que a cultura hoje imperante nos «media» só vê o que é «bom». Mesmo que se sintam alguns aspectos negativos, o argumento é que é preciso «aceitá-los», porque o bolo é bom no seu conjunto. É a velha abordagem que a tecnologia tem sempre os dois lados e que há que aceitar isso.

Mas não é assim? A tecnologia, como tudo, não tem sempre duas faces?

Não. Essa abordagem dúplice, certamente muito cómoda, é ignorante do essencial sobre a tecnologia. Através do design, logo no início da concepção da tecnologia, ou por meio de intervenções sociais, podemos alterar a relação entre os malefícios e os benefícios da tecnologia. É, por isso, que eu estou hoje interessado em focalizar nos aspectos negativos e chamar à atenção para se actuar sobre eles.

Esta Nova Economia não é libertadora das energias do mercado e isso não é bom para a democracia?

Pois, pois. Bill Gates é um dos arautos do chamado «capitalismo sem fricções». Diz que a Web vai eliminar as «fricções» no capitalismo, tornando-o mais eficiente. Mas isso é completamente ingénuo do ponto de vista histórico e social. Todas as eficiências têm um lado negro e mesmo ridículo quando levado ao extremo. Veja o caso mais simples: uma paragem para o café para uma amena cavaqueira entre colegas, pois nós não somos robôs. Isso acontece porque há algumas «ineficiências» que nos permitem fazê-lo. Se vivessemos num capitalismo sem fricções, não havia campo para «desperdício» de tempo. Acabávamos todos escravos do tempo paranóico. Já começa a haver muita gente na América contra essa velocidade louca da vida. Não me parece que esse elogio da paranóia seja saudável.

No fim de contas, isso é uma crítica à velha mentalidade do «laissez faire» em política...

Sempre que as sociedades chegaram ao extremo dessa mentalidade, tornaram-se muito destrutivas. Nós vamos, agora, no mesmo caminho. Os Governos perderam capacidade política e estão irracionalmente a alimentar políticas públicas ingénuas. A tecnologia e os negócios são hoje dominantes e são os próprios privados que estão a criar infraestruturas de utilidade pública. Onde está a intervenção dos cidadãos nesse campo? Sabemos das coisas depois do facto consumado. Os cidadãos e os governos estão dois a três anos em atraso em relação a esse movimento privado. Aspectos centrais da nossa sociedade estão hoje nas mãos dos privados. A democracia é a participação na governação e não a quieta observação do que se está a passar.

Refere no seu artigo «externalidades negativas» do «e-business» de que ninguém se preocupa em falar e do perigo de repetição na Web do efeito negativo dos «mall» (como o Wal-Mart) na vida local. Quer explicar?

«Externalidades negativas» é o jargão dos economistas. O que eu digo é que o «e-commerce» deixado ao arbítrio da sua dinâmica actual vai provocar na economia e sociedade locais um efeito idêntico ao que o Wal-Mart provocou. A dinâmica de mercado que se gerou significou o engordar progressivo do «mall» e o esvaziamento da vida local. Para os cientistas sociais isto é um problema de «acção colectiva», em que pequenas decisões individuais ganham massa crítica e conduzem a um efeito global arrasador. Não julgo que se deva deixar «repetir» este efeito.

Para além do chamado efeito «Wal-Mart» (que na Europa designaríamos por «efeito Centro Comercial»), que outras externalidades negativas apontaria?

Por exemplo a questão das comunidades virtuais. Podem ser coisas óptimas - e são-no - para determinados segmentos da população, como os deficientes ou os velhos. Abrem as portas de um mundo de convivência, que lhes estava negado. Mas o problema é quando se torna num círculo de socialização cada vez maior e absorvente, em que tudo o que é face-a-face é cada vez mais ínfimo, se perde. As pessoas são empurradas para o «online» cada vez mais e a ficar fora do mundo real. Ora, o face-a-face é o essencial da democracia.

Mas o virtual não pode reforçar a própria expressão pessoal da democracia?

A questão não é se o virtual pode ser usado ou não, a questão é que para uma sociedade democrática saudável o face-a-face é essencial. Porquê? Porque nós vivemos numa sociedade que é um mosaico. A Europa criou as célebres «praças» no mundo urbano onde se misturavam todas as classes sociais e todo o tipo de indivíduos. No ciberespaço, a tendência é outra - estão a reforçar-se cada vez mais comunidades homogéneas. Está a perder-se a «mistura», a interacção entre diferentes tipos de pessoas. Está a afunilar-se o círculo. E isso não é bom sinal para a democracia.

Outra das suas propostas polémicas é a de sugerir a criação de impostos especiais para a Web à semelhança dos impostos «verdes» pró-ambientais. Mas é legítimo igualar Web a poluição? Será que este mundo novo é etiquetável de «e-poluído»?

Não puxarei a minha análise até aí (Risos). O que eu digo é que, tal como no caso ambiental, há externalidades sociais negativas. Os impostos «verdes» foram uma forma de atacar as externalidades ambientais do industrialismo. Quando falo de impostos web estou a falar de um instrumento do mesmo tipo. É um mecanismo regulador como outros. Os libertários da Web não gostaram nada deste meu discurso - eles são, naturalmente, contra o aumento da colecta de impostos. Mas o meu ponto de vista não é o de «encher» a barriga do Estado, é o de criar um efeito regulador. No caso destes impostos web ganharem um volume apreciável até poderemos defender que diminuam outro tipo de impostos. Pode fazer-se um certo equilíbrio.

Para concluir, o título que tem em vista para o seu estudo é, no mínimo, original. O que quer transmitir exactamente com ele?

Em alternativa a toda esta cibereuforia eu falo de que é tempo de alguma sobriedade. Tão simples quanto isso.

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