Choque Tecnológico em França

Sob os auspícios do presidente Chirac, vai ser lançado um conjunto de "programas mobilizadores para a inovação industrial" que prometem um corte com os programas tradicionais franceses de apoio à investigação & desenvolvimento. Empresas de toda a Europa poderão participar

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Maio 2005

A França constatou que está mal na fotografia das indústrias tecnológicas se comparada com outros países europeus da OCDE, como a Alemanha, Reino Unido, Suécia e Finlândia. Ao fim de muitos anos de grandes programas nacionais - que agora designa por "históricos" -, uma equipa de Missão nomeada pelo presidente Jacques Chirac, e chefiada por Jean-Louis Beffa, PDG (presidente e CEO) da Saint-Gobain, deu de caras com um paradoxo. O hexágono tricolor recomenda-se em publicação de artigos científicos e em investigação & desenvolvimento público; o problema é o relacionamento com os sectores dinâmicos de hoje e a contribuição insuficiente dos privados para o que a Missão designou por "domínios tecnológicos do futuro".

Os projectos emblemáticos, conclui o estudo, não ajudaram a alterar significativamente a especialização industrial da França num claro sentido da alta-tecnologia. «A França sentiu inclusive, desde 2000, uma erosão nítida na competitividade dos seus produtos tecnológicos no plano internacional»

O balanço dos programas "históricos" é misto: sucedeu bem nos casos da Airbus e do aero-espacial, do TGV, da defesa e da microelectrónica e nanotecnologias, mas mal no Minitel (que se tornou obsoleto com a Web), na manutenção da Bull como campeã da informática, e no Concorde, entre outros. Contudo, estes projectos emblemáticos, conclui o estudo, não ajudaram a alterar significativamente a especialização industrial da França num claro sentido da alta-tecnologia. "A França sentiu inclusive, desde 2000, uma erosão nítida na competitividade dos seus produtos tecnológicos no plano internacional", escreve-se no relatório.

A única saída, conclui a equipa, é o corte com a lógica do passado, com os típicos "grandes programas à francesa", como refere o relatório "Por uma nova Política Industrial em França" agora apresentado. O choque tecnológico que recomenda focaliza-se em torno de cinco áreas de referência para o século XXI (ver quadro), em que a política pública se centra na criação de "um catalisador", uma Agência para a Inovação Industrial, e no lançamento de um conjunto de "Programas Mobilizadores para a Inovação Industrial" (PMII), coordenados por aquela entidade com um orçamento anual de 1000 milhões de euros para apoio à inovação que irá até à fase pre-concorrencial.

O fim da lógica de tríade

Outra intenção é o corte com a visão de "Maître Jacques" do Estado que se baseava numa lógica de tríade - dinheiros públicos a fundo perdido, empresas públicas recipientes (ou grupos industriais estreitamente associados ao "lobby" do Estado) e encomendas do governo.

A Agência contará com uma "célula de prospectiva" para apoiar a estratégia e obrigará os privados a se envolverem com 50% dos custos dos projectos. Também, contará com um "conselho" de supervisão em que participará o Parlamento, representantes do Governo, industriais, organizações sindicais e peritos nacionais e internacionais.

Pela primeira vez, estes programas nacionais abrirão à participação europeia de empresas. Inclusive admite o envolvimento de empresas não-europeias se em parceria e implicando a criação de postos de trabalho em solo europeu.

O especialista francês Ahmed Bounfour, numa apreciação crítica do plano, salienta, no entanto, que "a intenção está claramente virada para favorecer uma cooperação estratégica bilateral franco-alemã nas tecnologias" e que não é totalmente transparente em que medida as redes de PME serão envolvidas pelos pivôs dos programas, claramente definidos como grandes empresas ou grupos de grandes empresas.

APOSTAS TRICOLORES PARA O SEC. XXI
  • AMBIENTE: agricultura "limpa"; gestão da água; sequestro e captura do CO2; biodiversidade
  • ENERGIA: habitação "verde"; pilha de combustível e fileira do hidrogénio; nuclear de 4ª geração; gestão de lixos radioactivos; exploração de recursos a grande profundidade
  • SAÚDE: cancro; biofotónica; fertilidade; cirurgia não intrusiva; doenças infecciosas e degenerativas; qualidade alimentar
  • SOCIEDADE DE INFORMAÇÂO: redes de alta velocidade na computação e nas telecomunicações; RFID (identificação por rádio frequência); telemedicina; segurança de redes
  • TRANSPORTES: veículo inteligente e "limpo"; automatização do controlo aéreo; TGV de nova geração; metropolitano de nova geração; transporte marítimo rápido
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