CERN: Uma mão cheia de oportunidades tecnológicas para empresas portuguesas

Tecnólogos e investigadores lusos há 30 anos na Organização Europeia
para a Investigação Nuclear em Genebra.
Empresas portuguesas já facturaram mais de 21,5 milhões de euros
desde 1994.
Cinco "clusters" em alta com oportunidades para empresas portuguesas.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Dezembro de 2003. em visita
ao CERN em Genebra/Meyrin

Na última década, mais de 21,5 milhões de euros em contratos tecnológicos e de serviços de alto valor acrescentado com firmas portuguesas vieram da Organização Europeia para a Investigação Nuclear - mais conhecida pela sigla CERN - localizada na fronteira franco-suíça perto de Genebra. Por outro lado, no campo da formação de massa cinzenta, cerca de 100 jovens engenheiros estagiaram desde 1996 naquele laboratório em áreas de investigação tecnológica de ponta e os quadros do CERN contam com 37 portugueses, muitos há mais de dez anos.

Um dos empregados é mesmo conhecido como decano da presença lusa. Carlos Pinto Pereira, hoje com 60 anos, veio para Genebra há 30 «ver como se vivia fora de Portugal» e acabou por entrar no Laboratório de física de partículas, paradoxalmente, com uns estudos de economia na Faculdade no Porto. Começou como programador e a partir de 1994 envolveu-se na Web - recorde-se que foi no CERN que Tim Berners-Lee, o inventor da WWW, lançou o primeiro protótipo em 1989. Carlos é hoje um dos especialistas em gestão de base de dados nesta organização.

Apesar da adesão do nosso país se ter efectivado em 1986, o grande impulso na utilização do CERN como fonte de oportunidades de negócio e local de formação de engenharia de alto nível deu-se a partir de meados dos anos 90 do século passado, quando a Agência de Inovação, uma entidade oficial portuguesa, passou a desempenhar o papel de agente de ligação industrial com aquele organismo internacional.

Aquisições a firmas portuguesas
Em milhões de francos suíços
 Anos   Compras de Bens   Compras de Serviços 
 1994 0,450 -
 1997 1 0,5
 2000 3,2 1,6
 2001 3,4 6,2
 2002 3,7 4
 2003 (*) 1,4 2,9
 94-02 18,1 13,4
 Nota: Alguns anos seleccionados
 (*) 1º semestre
 Fonte: Divisão de Finanças do CERN

A nível de francos suíços facturados por empresas portuguesas, o ponto de viragem começou a sentir-se em 1997, com um pico, até ao momento, no ano 2001. As verbas envolvidas neste "retorno" empresarial mais do que quintuplicaram entre 1994 e finais de 2002.

"Clusters" tecnológicos em alta

Em particular na área de fornecimento de serviços, o disparo foi assinalável em 2001 - apenas em um ano, as firmas portuguesas quadruplicaram os seus serviços em áreas de alto valor acrescentado, com destaque para as inspecções de qualidade realizadas pelo Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ) e para a logística a cargo de uma empresa suíça detida em 40% pela Setrova, de Sines. Estas duas empresas criaram inclusive bases de localização próximas do CERN - o ISQ avançou recentemente com uma "start-up" no perímetro industrial de Meyrin (na fronteira francesa) e a Setrova localizou a DBS naquela região.

A nível tecnológico, as oportunidades têm sido imensas, estando a assistir-se à emergência de dois "clusters" promissores: o das tecnologias ligadas à criogenia e ao vácuo e o da electrónica e automação. A criogenia atraiu inclusive um núcleo de fornecedores portugueses - com destaque para a A. Silva Matos (que forneceu 10 depósitos para hélio e criou uma nova unidade industrial só para este segmento), Tuboplan (caixas de interconexão criogénicas) e Velan (válvulas criogénicas). Os especialistas em estruturas metálicas têm, também, ganho contratos, como são os casos da Euroiso e da Precisiomatic.

Cinco áreas tecnológicas de oportunidade
  • Na tecnologia: vácuo e criogenia, electrónica e automação,
    novas tecnologias de tomografia para aplicações médicas
  • Nos serviços de alto valor: inspecções de qualidade e logística
  • A Efacec Sistemas de Electrónica é outro dos campeões de contratos para Portugal na sua área de especialização. Fernando Lourenço, director da unidade de sistemas de energia, recorda o projecto de implantação de um sistema de gestão e supervisão da rede eléctrica de alta e média tensão do complexo de investigação - incluindo o acelerador de partículas - como o desafio mais interessante, desde que a empresa nortenha decidiu voltar a apostar em força nos contratos com o CERN. Novas áreas tecnológicas têm surgido mais recentemente, como tecnologias para tomografia aplicada à mamografia em que está já envolvido um projecto liderado pelo Taguspark.

    O actual período de montagem e instalação de um novo acelerador que dá pelo acrónimo de LHC - e que substituirá o anterior, conhecido por LEP - abriu um leque imenso de oportunidades de negócio para empresas que queiram aceitar desafios tecnológicos que lhes permitirão ganhar um selo internacional, como pudemos constatar na visita às fases de montagem das máquinas gigantes "ATLAS" e "CMS" onde trabalham José Carlos Silva, outro dos veteranos do CERN, e Ana Henriques, que nos serviram de cicerones a estes "monstros" equivalentes a prédios de cinco ou seis andares.

    Este período, que decorrerá até 2007, quando o LHC (que permitirá a colisão de umas partículas chamadas de "hadrões") começar a funcionar a 100 metros de profundidade, já proporcionou 17,5 milhões de francos suíços a fornecedores lusos. A equipa portuguesa de "ligação" aquela instituição, formada por Fernando Bello Pinheiro, delegado desde a adesão e actual presidente do Conselho de Concertação Social do CERN, e por Artur Travassos Ventura, tem mobilizado muitas empresas para estas oportunidades - este ano acompanharam as visitas da Edisoft, MIIT e Critical Software.

    CERN em breves
  • Oficialmente fundado em Setembro de 1954
  • Portugal aderiu em 1986
  • 37 portugueses trabalham nos quadros de investigação e administrativos
  • Portugal contribuiu em 2003 com 1,13% do orçamento
  • As aquisições a firmas portuguesas desde 1994 até ao final do primeiro semestre de 2003 ascenderam a mais de 35,8 milhões de francos suíços (mais de 21,5 milhões de euros ao câmbio actual)
  • O retorno económico da presença portuguesa aumentou desde 1997, e em 5 anos mais do que quintuplicou
  • Desde 2001 que as vendas de serviços tecnológicos e logísticos ultrapassaram as de bens de equipamento e outros produtos por firmas portuguesas
  • Cerca de 100 jovens engenheiros estagiaram no CERN desde 1996 até à data; 44 iniciaram ou viram renovada a sua permanência em 2003
  • Os principais fornecedores portugueses nos últimos anos foram a Efacec Sistemas de Electrónica, A. Silva Matos, Setrova (através da DBS), ISQ, Tuboplan e Velan
  • Duas start-ups já criadas com envolvimento português no perímetro industrial do CERN: a DBS na logística com 40% da Setrova e uma empresa do ISQ
  • Transferencias de Tecnologia disponíveis na Web: www.cern.ch/ttdatabase
  • Serviço de Compras na Web: http://spl-purchasing.web.cern.ch/spl-purchasing/
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