Case Studies portugueses

Reportagens do Ardina na Web com cientistas e empreendedores
da tecnologia portuguesa. O Made in Portugal na Ciência e Tecnologia

Report Nº 1 - Janeiro/Fevereiro de 2008

Por Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com

Palavras-chave: tintas ecológicas; computação gestual; terapêutica à base de monóxido de carbono; CORM; design de software; human computer interaction; nanotecnologia.

Sumário de cinco casos:
1. O Pioneiro das tintas 'verdes': o caso da Euronavy. O empreendedor em foco: Mário Paiva. Na Web em www.euronavy.net;
2. O computador sem rato e sem teclado: um projecto do Instituto de Sistemas e Robótica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. O cientista em foco: Paulo Peixoto. Na Web em www2.isr.uc.pt/home.php;
3. Transformar um gás maldito em remédio: o caso Alfama. O empreendedor em foco: Nuno Arantes-Oliveira. Na Web em www.alfama.com.pt;
4. Humanizar o design de software: um projecto do Departamento de Matemática e Engenharias da Universidade da Madeira com a Carnegie Mellon University (EUA). O cientista em foco: Daniel Siewiorek. Na Web em http://mhci.dme.uma.pt;
5. Tecnologias no Invisível: uma área emergente da Universidade do Minho. Cientistas em foco (por ordem de entrada em cena): João Pedro Alpuim, José António Covas, Mikail Vasilevskiy, José Higino Correia, Miguel Gama, Rui Reis e Nuno Miguel Peres. Na Web em www.uminho.pt/Default.aspx?tabid=7&pageid=41&lang=pt-PT.

1. O Pioneiro das tintas 'verdes'

Muitos ironizaram que Mário de Paxiuta de Paiva queria fazer a quadratura do círculo nas tintas. Estávamos em 1981 e o engenheiro químico, então com 34 anos, teimava em querer desenvolver uma tecnologia nas tintas que integrasse quatro vectores: qualidade, custo, respeito pelo ambiente e protecção da saúde de quem as aplicava.

A multinacional norte-americana de tintas onde trabalhava recusou o "sonho ecologista" e Mário partiu sozinho, criando um pequeno gabinete de investigação & desenvolvimento na própria casa, na Margem Sul do Tejo. "Foi uma autêntica aventura. Mas eu ainda era novo. Deixei um excelente emprego de director técnico na líder mundial, para prosseguir uma visão", cofia a barba, e ri-se.

Depois de ter as primeiras tintas ´verdes' para aplicar em clientes, saídas do seu laboratório, esbarrou com a muralha das dúvidas, lá fora, sobre a credibilidade tecnológica de algo 'made in Portugal'. "Disseram-me na cara: 'mas se o vosso país não tem tradição tecnológica de ponta, como é que nos garante o que está a dizer'?", recorda Mário Paiva, que, então, descobriu, que tinha de viver com o anátema de ter criado, nos anos 1980, uma "start-up" de alta tecnologia no "sítio errado". Uma pequena vingança viria mais de uma década e meia depois: a revista Business Week incluiria a empresa no lote de "Portugal in the Age of Technology". A vantagem destas tintas pode ser, assim, resumida em linguagem técnica: têm maior aderência nas arestas, não usam abrasivos, mas água, na decapagem de preparação da superfície, podem ser aplicadas em ambientes húmidos, mesmo debaixo de água, sem necessidade de desumidificação e sem paragem de operação das plataformas petrolíferas.

No limiar da extinção quase diária

Percebeu, também, rapidamente que, ainda por cima, santos da casa não fazem milagres - os clientes em Portugal não abraçaram a novidade, "com honrosas excepções, como a Soponata, onde em 31 de Janeiro de 1987 foi feita a primeira aplicação de vulto". A Euronavy, entretanto criada, ainda, foi tentada pelo vício muito português da "diversificação", para jogar em vários tabuleiros, procurando que o "cash" venha sempre de algum lado. Foi o pior período da aventura: "Tive de romper com a estratégia dos meus sócios. Esse ano de 1995 foi o momento crítico de todo este projecto de mais de vinte anos. Optei claramente pela focalização num nicho, e propus o abandono da diversificação. Tive de arcar com as consequências dessa decisão. Vivemos no limiar da extinção quase diária".

Alguns manuais de gestão (pois o "management" divide-se entre os que pugnam pela bondade da diversificação em geral e os que a criticam ferozmente) e a realidade dariam razão à opção deste químico-empreendedor. A aposta num nicho de tintas diferentes para a área marítima e industrial revelar-se-ia em dez anos um êxito. Só nos últimos cinco anos, a empresa cresceu 300%. "Continuamos a dominar a 100% esse nicho", sublinha.

Único caminho: o mundo

Não porque o mercado doméstico tenha empurrado Mário Paiva para a capa de revistas de negócios em Lisboa, mas porque se decidiu por outra aventura, a globalização. "Num nicho deste tipo, não havia outro caminho, senão o mundo, e pudemos aproveitar o "boom" do "offshore"", recorda. Desde 1999, havia ocorrido a inversão nos preços do barril, e a área dos navios e plataformas ligadas ao ouro negro disparou. A venda doméstica é hoje inferior a 5% (ainda que havendo bons clientes em Portugal) e as cores azuis do logótipo da Euronavy tanto podem ser encontradas numa lata em cima de uma plataforma da Petrobras nos estaleiros em Singapura, como em aplicações na marinha de guerra dos Estados Unidos ou da China, ou em outros clientes em 18 países. O grupo tem hoje 7 empresas, cinco das quais sucursais no Brasil, na China, nos Estados Unidos e em Singapura - "onde estão os clientes", o que faz disparar as milhas no cartão de viajante frequente da equipa da Euronavy.

Os colaboradores da empresa dizem que o segredo desta aventura nem são tanto as fórmulas químicas que Mário protege da concorrência: "É o estilo de liderança do fundador. Resiliência, perseverança, e desassossego contagioso", diz João Azevedo, que dirige a Euronavy Coatings, em Singapura.

BRICs de estimação
Singapura foi escolhida como plataforma inicial de globalização. Os estaleiros da cidade-Estado estão a abarrotar e a Euronavy instalou-se com as tintas e os técnicos em Tuas. Este ano aplicou o seu recorde: um milhão de litros no Settebello, a plataforma 53 da Petrobras (um navio que havia sido concluído na Setenave, nos anos 1980). Mas há plena consciência que há dois BRIC que estão em efervescência: a China e o Brasil.
"A China dominará o futuro em termos de reparação naval e construção de plataformas", sublinha João Azevedo, que dirige a empresa em Singapura. A Euronavy criou, por isso, uma outra sucursal, em Beijing, e vai subcontratar, com um controlo muito estreito, duas fábricas para a produção de tintas, em Nantong e perto de Xangai. A Petrobras, no Brasil, é um dos clientes-chave. Em São Paulo está a funcionar a Euronavy Brasil e programou-se abrir uma fábrica própria em 2009. "Vamos investir 5 milhões de euros no Brasil até 2010", comenta Mário Paiva.
E há, ainda, dois outros países emergentes muito promissores nas contas de exportação da empresa de Setúbal: o Vietname e o Dubai.

2. Usar o computador apenas com gestos

Os movimentos da mão podem substituir o "rato", o teclado ou o toque, em aplicações interactivas e colaborativas na área dos conteúdos e, no futuro, a nível da vida empresarial.

Imagine-se navegando, sem "rato" e sem teclado, de Lisboa a Calecute, na Índia, quinhentos e dez anos depois num mapa-mundo digital. Os seus gestos fazem o mapa disponibilizado pela NASA girar em menos de um minuto ao sabor do trajecto que Vasco da Gama levou quase um ano a fazer. A novidade é que está a interagir com um computador apenas com base em gestos, que a máquina vê, reconhece e interpreta, sem qualquer toque seu no ecrã ou sem auxílio de teclas ou de um "rato" ou caneta digital. O novo sistema de interface gestual foi, agora, demonstrado por uma equipa do Instituto de Sistemas e Robótica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, liderada por Paulo Peixoto, de 41 anos, um doutorado do Departamento de Engenharia Electrotécnica e Computadores. A equipa pioneira envolve ainda um estudante de doutoramento, um bolseiro e um estudante de licenciatura.

Segmentar a mão

A ideia é interagir naturalmente através do gesto com o computador que faz o reconhecimento gestual baseado na visão. O que parece simples, já leva mais de dois anos de investigação, e deverá terminar no final deste ano. Existiam problemas que tiveram de ser resolvidos: a mão, que parece algo trivial, exige, em termos de computação, ser bem "segmentada", para depois um conjunto pré-definido de gestos ser reconhecido pela máquina. Também foi necessário, diz Peixoto, "encontrar uma representação digital daquilo que é um gesto e incorporar nessa representação alguma invariabilidade às diferentes concretizações de um mesmo gesto por diferentes utilizadores".

A maior satisfação da equipa foi quando conseguiu percorrer o Lisboa-Dakar comandando com gestos o trajecto no ecrã. Também, se entusiasmaram com um "passeio" digital pelo Grande Canyon, nos Estados Unidos. "Vimos que poderíamos navegar até qualquer local do planeta apenas com gestos das mãos - esse foi o momento em que, pela primeira vez, sentimos o controlo total sobre a nossa aplicação de demonstração baseada nos mapas do NASA World Wind", entusiasma-se Paulo Peixoto. Por ora, esta tecnologia é distinta da abordagem pelo reconhecimento de voz, que é ainda limitado em cenários em que o ruído ambiente é significativo. Contudo, acrescenta Peixoto, "pode ser complementar ao nosso sistema".

Aplicações futuras

Olhando para a demonstração (também disponível no sítio do projecto), percebe-se que as aplicações futuras não são ficção. Peixoto refere que, a curto prazo, a tecnologia pode ser adaptada a sistemas de representação interactiva de conteúdos (nomeadamente conteúdos multimédia), sobretudo em situações onde o uso de um "rato" não é de todo viável em termos práticos.

A médio prazo, o principal cenário de aplicação será o domínio da vida empresarial. É o ideal para ambientes de colaboração em que os movimentos "naturais" são preferíveis ao uso de interfaces tradicionais com os computadores - o grupo de Coimbra fala, por exemplo, de reuniões de executivos, projectos de engenharia e de equipas de CAD/CAM, gabinetes de design e de arquitectura. Coimbra tem tido tradição na geração de novas empresas tecnológicas a partir da investigação de professores e alunos da Universidade. "Contudo, ainda é cedo para falar de um 'spin-off' empresarial", conclui Paulo Peixoto.

3. Magia no Laboratório: Transformar um gás maldito
em remédio é o negócio da Alfama

Em conversa com Nuno Arantes-Oliveira, 33 anos, doutorado em genética, CEO da jovem empresa de biotecnologia de Oeiras e Boston: em 2005 a empresa focalizou-se no segmento do monóxido de carbono.

A investigação sempre fez destes 'milagres' ao longo da sua história: transformar veneno no seu oposto.

No caso concreto, a dialéctica da contradição inspirou os cientistas, desde há 20 anos, para olharem o monóxido de carbono - com a fórmula química CO, não confundir com o hoje famoso C02 (dióxido de carbono) responsável pelo aquecimento global - noutra perspectiva.

O que à primeira vista parece uma aventura de risco - o CO apresenta-se com péssimos atributos: inodoro, inflamável e altamente tóxico, mesmo letal, a partir de certa quantidade. Mas os cientistas descobriram o outro lado não maldito: na dose certa e devidamente direccionado para o órgão ou tecido humano que esteja doente, o gás surte efeitos terapêuticos, funcionando como arma cirúrgica.

"E como existe no nosso organismo, o corpo já está habituado a ele, e é mais vantajoso para a criação de medicamentos", explica Nuno Arantes-Oliveira, 33 anos, CEO da Alfama, uma das poucas jovens empresas no mundo que se acantonou neste novo negócio biotecnológico. O segmento é conhecido por CO-RM (acrónimo anglo-saxónico para Carbon Monoxide Releasing Molecules) e na Europa conta, ainda, com a HemoCorm Ltd, de Londres.

Reviravolta estratégica

A Alfama nasceu em 2002, aparentemente no "sítio errado", num país onde não há "cluster" biotecnológico. Surgiu da convergência de interesses científicos entre Werner Hass que acreditava na utilidade terapêutica do CO, e Carlos Romão, que detinha uma colecção destas moléculas, a que se juntou o empreendedorismo de Nuno, então um jovem doutorado em genética com uma passagem de quatro anos pela Califórnia.

Em 2005 resolveram entrar de cabeça nos CO-RM. Focalizaram-se. E passaram a jogar no tabuleiro metanacional. Criaram uma "holding" no Delaware, nos Estados Unidos, e montaram um sistema de talento bicéfalo, com laboratórios em Portugal (Oeiras e Lisboa) e na região de Boston, pátria de um dos grandes "clusters" biotecnológicos da América. "Esta dualidade é virtuosa: reúne o rigor americano com a flexibilidade e improviso organizacional luso. E junta o enorme conhecimento americano com as condições excepcionais que algumas instituições científicas portuguesas nos dão", refere Nuno.

Da aventura nasceu o desenho de uma colecção de moléculas - já acima de 450 - que libertam C0. A originalidade portuguesa é o facto de este portefólio assentar numa lógica de plataforma comum que permite "o re-desenho e manipulação de acordo com o objectivo terapêutico", sublinha o CEO da Alfama, que adianta: "O momento mais gratificante aconteceu em 2003 quando verificámos que o primeiro composto que enviámos para a Serono, na Suíça, demonstrou logo um efeito anti-inflamatório fortíssimo. A nossa estratégia deixou de ser uma 'ideia peregrina' e passámos a nos dedicar de corpo e alma ao projecto".

Financiar capital intelectual

Este tipo de "start ups" biotecnológicas que pegam em áreas de elevado risco onde o complexo farmacêutico não se mete, vive de valorizar um activo: o seu tesouro é o capital intelectual (CI), no caso ligado à colecção de moléculas, e as patentes que vão colocando para proteger novas abordagens terapêuticas.

Valorizar esse CI, de modo a criar valor para os accionistas e prosseguir a investigação, atraindo mais investimento privado e de capitais de risco especializadas, é o modelo de negócio destas empresas que se ficam por uma fase antes do mercado, deixando a outros, em parceria ou por licenciamento as etapas seguintes. Uma parceria com a Ikaria, uma empresa de Seattle que domina o mercado mundial do uso de gases para fins terapêuticos, vai permitir desenvolver, a nível pré-clínico, algumas das moléculas da Alfama.

Para a construção do portefólio, a Alfama contou com 5 milhões de euros de investimento, angariados em 2005 e 2007, envolvendo uma aposta inicial de 3 milhões da parte da PME Investimentos (capital de risco portuguesa) e mais recentemente a entrada de cientistas de renome (como a bióloga molecular Cynthia Kenyon) e de referências do investimento tecnológico na América, como Tucker Andersen. Em 2008, Nuno prepara-se para uma nova ronda, agora junto de investidores institucionais internacionais. Um outro trunfo que a Alfama tem jogado é o facto de se estar a tornar num espaço "federador" de cientistas da área dos CO-RM quer a nível internacional como nacional. Ainda recentemente, um projecto com o Instituto de Tecnologia Química e Biológica, de Oeiras, teve repercussão mediática nacional.

4. Humanizar o design de software

Uma equipa oriunda de 11 nacionalidades ensina no Funchal uma nova abordagem da computação em colaboração com a Universidade de Carnegie Mellon nos Estados Unidos.

É conhecida a piada criticando os programadores e designers de software como sendo "marcianos" enquanto o utilizador comum é de Vénus. O resultado são produtos e serviços que pecam por falta de usabilidade, simplicidade, ergonomia, e outros atributos mais "humanos".

Mas há quem ache que não se deve alimentar este fosso entre extraterrestres e para tal desenvolveu-se desde os anos 1980 a área de investigação da "interacção homem-máquina", cujo berço é atribuído a três professores da Universidade de Carnegie Mellon (UCM), em Pittsburgo, a antiga "cidade do aço" dos Estados Unidos, hoje considerada um dos pólos mundiais da robótica. O Wall Street Journal, por graça, rabaptizou-a de "Roboburgo".

Um mestrado original

Nessa universidade seria criado em 1994, o Human Computer Interaction Institute (HCII). Dirigido por Daniel Siewiorek, de 61 anos, um dos gurus americanos da computação móvel, o HCII, ao abrigo do protocolo entre a UCM e Portugal, organiza um programa de mestrado profissional comum com o Departamento de Matemática e Engenharias da Universidade da Madeira (UM) desde meados de 2007. Daqui a dois anos poderá evoluir-se para um programa de doutoramento.

A ideia básica desta formação avançada é reunir equipas multidisciplinares de 3 a 5 alunos, em que se misturam, por exemplo, psicólogos, designers e informáticos. O objectivo é dar a volta à cabeça dos profissionais da computação, mas, como diz Nuno Jardim Nunes, o responsável do Departamento da UM e principal entusiasta, o programa abre "hipóteses de uma nova carreira para gente proveniente de todas as áreas das ciências sociais". No caso da Madeira, sublinha o jovem professor de 37 anos, o enfoque estará nos serviços, o que fará a diferença em relação a outros pólos europeus (virados para o automóvel, a aeronáutica ou o sector militar).

Este tipo de formação avançada pretende-se revolucionário: "O ponto de partida é que os profissionais de tecnologia podem aprender a pensar como utilizadores. O que queremos é dar-lhes ferramentas conceptuais simples que os levem a focalizar no que faz a gente comum quando usa tecnologia. Não queremos transformar marcianos em venusianos, mas damos-lhes melhores telescópios e mapas", explica, com alguma ironia, Larry LeRoy Constantine, 62 anos, autor do "best-seller" 'Software for Use'. Larry é o primeiro "fellow" em Portugal da Association for Computing Machinery, escolhido, este ano, pelas suas contribuições para o design de software por aquela Associação histórica norte-americana. Larry veio em 2006 para a 'Pérola do Atlântico' como professor convidado na UM, tendo abandonado a ideia de ir para o famoso MIT. Ele veio liderar o grupo de investigação em interacção homem-máquina, pois considera que pode "fazer a diferença", ajudando a criar um centro de excelência mundial onde já há 11 nacionalidades entre os investigadores. Pelo meio, o bom clima e comida deverá inspirá-lo para o seu segundo romance.

Projectos com empresas

O objectivo é formar 70 mestrandos até 2012. A primeira leva, que já completou o primeiro semestre de estudo na UCM, está já a trabalhar em projectos com a Outsystems e o grupo Portugal Telecom. A Outsystems, segundo Carlos Alves, vice-presidente, pretende identificar "factores humanos e de ergonomia que influenciem a produtividade dos seus programadores". A jovem empresa tecnológica que trabalha nos dois lados do Atlântico Norte vai envolver 12 pessoas entre estudantes e investigadores da UCM e da UM e engenheiros da própria empresa.

No caso da PT, os três mestrandos madeirenses que já concluíram em Pittsburgo o semestre americano, vão desenvolver um estudo com os utilizadores do serviço do MEO (um serviço triplo de televisão de alta definição, internet e telefone) e depois desenhar um novo protótipo.

FAST INTERVIEW
3 PERGUNTAS A DANIEL SIEWIOREK
Director do Human Computer Interaction Institute, Universidade de Carnegie Mellon, EUA
P: Por que razão a Madeira como pólo europeu de um programa de mestrado do vosso Instituto?
R: Na Universidade da Madeira havia já um grupo a investigar o processo de desenvolvimento de software que engrenava muito bem com os interesses de investigação do nosso Instituto. Além disso, a dimensão da ilha oferece-nos uma excelente oportunidade para criar um "laboratório vivo" para avaliar no terreno a interacção com novas tecnologias por parte de utilizadores.
P: Qual é a ideia principal do vosso mestrado?
R: O nosso instituto tem um dito: "O utilizador não sou eu". Os nossos estudantes aprendem a envolver o utilizador desde o momento zero. Em certo sentido, o nosso ponto de vista é que o utilizador se torna parte da equipa de desenvolvimento. Os estudantes aprendem um conjunto de técnicas para envolver os utilizadores ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento de um produto ou serviço.
P: Quais são os principais atributos da interacção homem-computador?
R: Trata-se de uma disciplina muito ampla que valoriza os objectivos do conforto, usabilidade, eficácia, prazer, comunidade, e interesses pessoais e sociais naquilo que se desenha.

5. Tecnologias no invisível

Os Cientistas do mundo do invisível também falam português. Ferramentas e técnicas não observáveis a olho nu estão a invadir os dispositivos médicos, a electrónica, o têxtil, o automóvel, a energia, a embalagem e a cerâmica. A Universidade do Minho é um dos pólos de vanguarda na área dos materiais do futuro.

Com o lançamento da primeira pedra do futuro Laboratório Internacional de Nanotecnologia no centro de Braga, aquando da última cimeira luso-espanhola agora em Janeiro, o novo palavrão técnico começou a ter honras nos "media".

Nanotecnologias significa técnicas e ferramentas a uma escala nano (mil milhões mais pequena que a unidade de medida, o metro), que, é claro, não se vê, a olho nu - cerca de novecentas vezes mais pequena que um cabelo humano!

Algo inimaginável para o cidadão comum, mas a que as gerações do século XXI se irão familiarizar em áreas tão distintas como os dispositivos biomédicos, os tecidos inteligentes, os novos revestimentos cerâmicos, os novos materiais para o automóvel, novos processadores para a informática, um novo tipo de painéis solares com células ultra-flexíveis, a simples embalagem ultrafina ou a obtenção de energia a partir de diferenças de temperatura que, por exemplo, alimentem o seu relógio de pulso.

É uma área emergente em Portugal no investimento de projectos envolvendo cientistas e algumas empresas, e despoletando inclusive a criação de "spin-offs" de investigadores e alunos de doutoramento. A Universidade do Minho (UM) é uma das traves desta nova estratégia, prevendo um investimento total entre 2005 e 2008 na ordem dos 16 milhões de euros em projectos já em curso, refere-nos Manuel Mota, um dos históricos da biotecnologia portuguesa, vice-reitor desta universidade que tem um desenho bicéfalo, com dois "campus", um em Braga e outro em Guimarães.

Fertilização cruzada

A atracção pela nanotecnologia está a provocar um 'casamento' duradouro entre físicos e químicos, e a permitir a áreas como a microelectrónica, a biotecnologia ou a ciência dos polímeros migrar para novas oportunidades de investigação científica e aplicações empresariais. Os cientistas chamam-lhe "fertilização cruzada" entre diferentes abordagens, o que leva o físico João Pedro Alpuim, de 50 anos, um dos envolvidos numa nova geração de células fotovoltaicas que se podem dobrar com os dedos, a acreditar, entusiasmado, "na hipótese de tecnologias disruptivas", que, como o próprio nome indica, provocarão uma nova revolução tecnológica.

Por isso, abundam, naturalmente nos corredores da academia e de algumas empresas mais ousadas, os "projectos futuristas mas não de ficção" - como frisa José António Covas, de 51 anos, um especialista do Instituto de Polímeros e Compósitos, envolvido em projectos que vão desde as fibras têxteis "carregadas de tecnologia" a materiais nanoestruturados aplicáveis eventualmente aos aviões-espiões, o que é matéria classificada.

Tal como a genómica ou a clonagem humanas, esta é uma das áreas que está a empolgar a comunidade científica particularmente ligada à indústria. O físico Mikail Vasilevskiy, de 47 anos, um russo radicado há 11 anos na UM, chama a atenção para um dos materiais "invisíveis" recentemente descobertos, o grafeno (ver caixa), isolado a partir da grafite.

Dos nanotubos às nanomalas

Uma das áreas de aplicação destas tecnologias do invisível mais em destaque hoje em dia é a biomedicina.

José Higino Correia, de 43 anos, um especialista em microelectrónica industrial, na vanguarda da criação de dispositivos (com o formato de uma touca de banho ou de um boné) com eléctrodos para analisar as ondas cerebrais, vai 'fabricar', com colegas do Porto e de Espanha, um micro-sistema neuronal com nanotubos de carbono que possa ser implantado no cérebro sem riscos e sem grande aparato externo (ver fotografia). A aplicação no diagnóstico e monitorização de doenças neurodegenerativas (por exemplo, Parkinson, epilepsia e Alzheimer) é óbvia.

Por seu lado, o biotecnólogo Miguel Gama, de 44 anos, espera, a partir de celulose produzida por bactérias (diferente da celulose vegetal, usada na fabricação de papel), criar vasos sanguíneos artificiais, de baixo calibre, que estarão em testes em animais em 2009.

Finalmente, Rui Reis, de 40 anos, desenvolve com a sua equipa o que ele chama, por piada, de "malas", uma espécie de nanopartículas injectáveis no corpo do paciente, carregadas com um determinado fármaco, que "só se abrem, como uma mala, e descarregam o que levam, quando encontram o alvo".

A nova estrela dos materiais
Dá pelo estranho nome de grafeno. E obtém-se a partir da grafite (a mina que os lápis têm e que nos permite deixar algo escrito numa folha de papel). Foi isolado por uma equipa do Centro de Mesociência e Nanotecnologia da Universidade de Manchester liderada por Andrey Geim, que divulgou o facto na revista Science há pouco mais de três anos.
Isolá-lo era considerado algo impossível no estado livre, sendo descrito como um "material académico". Aconteceu quase que por um acaso, com a ajuda de uma trivial fita adesiva e da esfoliação de cristais de raspas de grafite - colada ficou uma camada de carbono cristalino totalmente plana, dando origem ao material mais fino existente no nosso universo (pois as lâminas têm a espessura apenas de um átomo), invisível ao olho humano, mas com uma estrutura curiosa em favos de colmeia que logo deslumbrou quem a observou, pela primeira vez, ao vivo.
Este novo nanomaterial dispõe de uns "electrões esquisitos" que lhe dão um conjunto de propriedades quase mágicas, como a "condução balística", ou seja correm como uma bala, pelo caminho que mais lhes convém, sem colidir com o que quer que seja, permanecendo estáveis e condutores. Espera-se que venha a revolucionar, em breve, os materiais compósitos, e num horizonte de 10-20 anos a electrónica de alta velocidade, sucedendo, neste campo, ao famoso silício.
Portugal tem um cientista no grupo de ponta desta "corrida ao ouro" - como ironiza Geim - de novos materiais. Fruto da investigação nesta área, o físico da Universidade do Minho, Nuno Miguel Peres, de 40 anos, é já o investigador português mais citado entre os autores portugueses baseados em Portugal que publicam artigos científicos.

© Janelanaweb.com, Jorge Nascimento Rodrigues, 2008

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