Cábula para o Gestor prevenido
(em tempos de mudança de ciclo)

Uma síntese de Jorge Nascimento Rodrigues
Gráficos de Paulo Buchinho (c) 2000

Projecto para a revista Dirigir

O final de século trouxe algumas surpresas ao gestor mais ligado à baptizada Nova Economia.
O ano de 2000 trouxe um filme inesperado - a ascensão meteórica seguida de um trambolhão prolongado da Bolsa de referência mais mediática para as áreas das «novas tecnologias»: o NASDAQ.
Eis uma sigla norte-americana que se tornou familiar durante o ano que findou e que marca hoje o imaginário do executivo e até do investidor «popular».
O novo ano de abertura do século XXI continua a dar-nos de «presente» a chamada volatilidade do NASDAQ e a inversão do clima psicológico dos investidores, dos decisores e dos analistas.
Contudo, ainda que seja o aviso da inversão de um ciclo financeiro que se arrastava desde o final dos anos 80 e o prenúncio de maturidade de um novo tecido económico que atravessa um inevitável processo de «limpeza» darwiniana, é necessário ver para além da conjuntura.
Eis algumas «dicas» da Dirigir para uma cábula do gestor prevenido, complementadas com duas entrevistas a pensadores económicos de referência, como James Cortada, um dos teóricos da IBM, e o futurista francês, Joel de Rosnay

Entrevista com o futurólogo Joel de Rosnay | Entrevista com James Cortada

Uma primeira lição do ano que fechou o século XX foi a imprevisibilidade. Anote na sua agenda esta palavra mágica e adapte a sua forma de pensar ao que ela implica. Nos tempos que correm o IMPREVISÍVEL tem muita força.

Quem poderia imaginar no princípio de 2000 que o NASDAQ, depois de uma eufórica corrida até aos 5132 pontos, iniciaria uma correcção prolongada das extravagantes cotações atingidas pelas jovens «start-ups» do «dot.com» e pelas irmãs mais velhinhas das áreas da informática, das telecomunicações e dos media?

Muito pouca gente.

Apenas quem estava friamente munido de uma visão ciclíca do mundo da finança poderia arriscar, correndo a ignomínia de ser gozado e vaiado, esta sentença comezinha: tudo o que sobe descerá. Pelo menos, historicamente, no capitalismo, sempre foi assim.

É claro que no calor da euforia toda a gente pensou que, depois da ameaça da brevissima crise financeira de 1987 - entre as férias de Agosto e o «Pai Natal» -, teríamos entrado num longo disparo financeiro sem fim à vista.

De facto, os sinais do dia-a-dia eram ultra-optimistas.

A revolução financeira

Com a massificação da World Wide Web, a partir de 1998 deu-se uma inesperada revolução financeira, mais importante ainda do que o «capitalismo popular» de meados dos anos 80.

Só nos Estados Unidos, o «pai» do jornalismo da Nova Economia, Kevin Kelly, contabilizou a entrada de 7 milhões de investidores debutantes, que colados ao «browser» do seu écran no PC e com a ajuda de intermediários «on-line» passaram a comprar e vender na bolsa, e em particular no NASDAQ. Sem moverem uma perna, sem sequer conhecerem onde fisicamente são as Bolsas - só com a ajuda do «rato», como diziam então os anúncios.

Segundo Peter Cohan, um dos analistas norte-americanos de referência, a percentagem de famílias norte-americanas que passaram a investir em bolsa foi de 45%, ou seja três vezes mais do que há 20 anos atrás.

Houve uma transferência impressionante de capitais para a Economia Digital então emergente. A psicologia da valorização das novas empresas do mundo «dot-com» e das velhas ligadas às telecomunicações, aos ‘media’ e à informática atingiu a estratosfera. Tudo o que cheirava a Terceira Vaga valia milhões... muitas vezes, mesmo sem um centavo de lucro à vista, ou mesmo sem um produto ou serviço na rua (apenas na ideia). A esta crença no futuro chamou-se o «intangível».

Richard Harriman, outro analista, calculou que a capitalização no mercado bolsista americano rondaria, no princípio de 2000, qualquer coisa como 200% do Produto Nacional Bruto (nominal) dos Estados Unidos. Trocado por miúdos - as valorizações em papel de bolsa das empresas cotadas somavam duas vezes mais que a riqueza criada pelo país. Inacreditável, clamavam os economistas mais sensatos.

Jamais se havia atingido um valor assim - inclusive durante a «bolha» anterior do final dos anos 20, em que a capitalização não ultrapassou os 80 a 100%. Mais próximo de nós, nem mesmo na euforia do Japão nos anos 80 se havia atingido uma tal percentagem - 130% foi a quanto a capitalização nipónica chegou.

Exuberância irracional

Uma das primeira vozes a levantar-se contra uma visão idílica do ciclo financeiro foi um professor de Yale, Robert Shiller, que, no auge da euforia, publicou em Nova Iorque um livro sugestivamente intitulado «Exuberância Irracional» - uma frase roubada a uma célebre declaração de Alan Greenspan, o patrão do banco central norte-americano.

O professor Shiller argumentou com a matemática para derrubar os mitos do boom sem fim. Analisando a história desde 1901, mostrou como depois de crescimentos extraordinários das valorizações bolsistas sempre ocorreram, mais tarde ou mais cedo, «correcções» mais ou menos dolorosas - algumas dramáticas, como a de Outubro de 1929.

Analisando a evolução do PER - um indicador importante para avaliar a «performance» no mercado de capitais, e que quer dizer, em inglês, «price earnings ratio» - que, em linguagem, mais popular se chama de «múltiplo», Shiller mostrou, sem grande margem para dúvidas, que a seguir a subidas impressionantes se deram correcções abissais.

Os números falam por si (ver Gráfico «Evolução do PER ao longo do século XX») para só citar dois casos - de Junho de 1920 a Setembro de 1929, o PER multiplicou por 6,5 vezes (algo jamais repetido, até à data), mas depois do «crash» (Outubro «negro») foi «corrigido» em 83% ao longo de quase três anos; de Junho de 1932 a Janeiro de 1966, o indicador multiplicou por 4, e a correcção seguinte que durou até Janeiro de 1982 (dezasseis anos!) foi da ordem dos 69%.

Shiller abordava, depois, o que se havia passado nos anos 80. Depois de um crescimento de 2,5 vezes do PER, assistiu-se, entre Agosto e Dezembro de 1987 a um «crash» curto, que a Terceira Vaga conseguiu engolir e evitar o pior. Segundo o analista Adam Hamilton, Greenspan e as novas tecnologias ligadas à Internet «adiaram», então, a crise financeira... por treze anos.

O crescimento do PER entre 1988 e o ano 2000 foi impresionante - três vezes (mesmo assim inferior a outros crescimentos anteriores) e fez-se a par e passo com a emergência de um novo tecido económico, o da Economia Digital, como o baptizaria Don Tapscott em 1996.

O PER atingiu o seu máximo histórico, no século, em finais de 1999 - 44,52. Shiller verificou, logo depois, que ele começou a «moderar» logo no início de 2000. E alertou que, a partir daí, a «correcção» estaria na ordem do dia, podendo levar vários anos e atingir uma percentagem dramática.

Por ironia, o pico do NASDAQ ocorreria no princípio do 2º trimestre de 2000 e a correcção, a que muitos já chamam de «crash», conduziu a uma quebra de 52% até final do século. Em termos anuais, o trambolhão daquele mercado já atingiu os 27% (entre Dezembro de 1999 e Dezembro de 2000). O PER em Janeiro de 2001 situava-se nos 36,30 - oito pontos abaixo do pico de finais de 1999.

«E não acabou ainda», sublinha Adam Hamilton, referindo-se à correcção em curso. Aliás, o comportamento deste mercado na primeira quinzena do ano é esclarecedor. Depois de um «rompante» no dia 3 de Janeiro (por efeito das medidas tomadas por Greenspan), voltou ao comportamento de queda. O que significa que já nem morfina modifica o estado psicológico dos investidores.

O «crash» ainda não bateu no fundo. Baterá, quando os descrentes ultrapassarem os ainda crentes, diz-nos Christopher Carolan, um antigo «trader» da praça financeira de São Francisco, na Califórnia.

Conclusão: o ciclo financeiro mudou. Comporte-se com a frieza necessária.

Mudança de ciclo económico

Contudo não assistimos só a uma mudança de ciclo financeiro. A economia atravessa uma viragem mais «estrutural». É uma «coincidência» que ocorreu, também, ao longo dos anos 40 e 50, depois da correcção de 1929 a 1932.

Aos gestores é hoje útil uma visão histórica de longo prazo.

Para isso, há analistas que recorrem a um obscuro economista russo que descobriu ciclos económicos longos (de cinco a seis décadas) na história do capitalismo industrial associados a revoluções tecnológicas. Os seus seguidores alcunharam tais ciclos de «ciclos de Kondratyev» (de seu nome, Nikolai Dmyitriyevich Kondratyev).

CICLOS DE KONDRATYEV
1º ciclo: ponto de arranque - 1708 com electricidade; indústrias motrizes da 1ª Revolução Industrial: algodão e ferro fundido
2º ciclo: ponto de arranque - 1827 com alumínio; indústrias motrizes: caminhos de ferro e aço
3º ciclo: ponto de arranque - 1887 com rádio; indústria motriz da 2ª Revolução Industrial: automóvel
4º ciclo: ponto de arranque - 1947 com transístor; indústria motriz da Terceira Vaga: electrónica
5º ciclo: ponto de arranque - 1999 com cromossoma 22 ?

Até à data foram evidenciados quatro ciclos a partir das investigações de estudiosos como W.W.Rostow, G.Mensh e Cesare Marchetti: um primeiro em torno da primeira revolução industrial desde a descoberta da electricidade no princípio do século XVIII; um segundo a partir do princípio do século XIX e que desencadearia a revolução do caminho de ferro e do aço; um terceiro a partir da descoberta do rádio e que geraria a segunda revolução industrial muito associada ao automóvel dos princípios do século; e um quarto que teria nascido com a descoberta do transístor em 1947 e que ficaria associado à emergência da informática e da Terceira Vaga, como a caracterizou Alvin Toffler.


(clique aqui para ver o gráfico em versão ampliada)

Foi este quarto ciclo de Kondratyev que vivemos activamente neste meio século, e no qual nos deteremos um pouco mais.

Os economistas dos ciclos longos apontam a demonstração do efeito do transístor nos Laboratórios Bell em 1947 pelo trio William Shockley, John Bardeen e Walter Brattain como o ponto de viragem tecno-científico, como o momento de «passagem» do capitalismo industrial para a emergência de um novo capitalismo, que nasceria, cresceria e amadureceria ao longo de um novo ciclo de Kondratyev, primeiro associado à informática e depois à World Wide Web.

A consciência desta mudança por parte dos intelectuais mais avançados levou algum tempo. Alguns factos muito internos à comunidade científica e tecnóloga eram premonitórios: o primeiro «chip» (circuito integrado) era criado por Jack Kilby e Robert Noice em 1958; Ted Nelson em 1965 apresentaria publicamente o conceito de «hipertexto» (o fundamento da Web actual); os primeiros nós da Arpanet (a avó da Internet) seriam lançados na Califórnia entre 1965 e 1967.

Em 1969, Peter Drucker escreveria «A Idade da Descontinuidade» e avisaria da eminência de uma «fractura histórica» em que ficaria visível a passagem do capitalismo industrial para algo diferente em torno do conhecimento e não mais do capital. Alvin Toffler intuiria magistralmente no «O Choque do Futuro», em 1970, essa mudança e sociólogos como Daniel Bell e Alain Touraine começariam a falar da «sociedade pós-industrial».

Os anos 70 foram particularmente impressivos: Ted Hoff, da Intel, desenharia o primeiro micro-processador em 1971, em 1972 nasce o hoje célebre @ (com o «e-mail»), em 1973 Vinton Cerf e Robert Kahn escrevem o protocolo TCP (fundamento da Internet), o primeiro computador pessoal é criado (o hoje desconhecido «Altair 8800») e Bill Gates e Paul Allen comercializam o software para esse computador. Entre 1973 e 1975 dá-se o primeiro choque petrolífero, em que o barril de crude chega aos 40 dólares (a preços actuais).

A aceleração do tempo histórico sente-se, depois, nos anos 80 e 90. A ideia de que cada ano vivido vale por sete começa a generalizar-se (o tempo na Terceira Vaga mede-se por anos-cão, diz-se por piada).

Em 1983, o computador pessoal é eleito «homem do ano» pela revista Time. Um investigador, tido como «louco», lança um novo conceito - a multimedia. O «louco» era Nicholas Negroponte, dez anos depois adorado como o herói digital. Em 1987, Chris Langton lança a ideia de «vida artificial» e altera o paradigma da investigação em torno da inteligência artificial - ficava mais perto a possibilidade de «sintetizar» o humano. O ano de 1990 veria o jovem inglês Tim Berners-Lee criar no CERN, na Suíça, a Web e três anos depois dois americanos desconhecidos, Marc Andreessen e Eric Bina, surgiriam com o primeiro «browser» comercializável (o Mosaic).

O lançamento do Netscape em 1995 permitiria, depois, a massificação do uso da Web no écran do seu computador pessoal e as veleidades de todo o comércio electrónico a que hoje assistimos. Ted Nelson, o inventor do «hipertexto» (em que se baseou a ferramenta de Berners-Lee), disse-nos mesmo que «a verdadeira Web, a que viria a popularizar-se, foi criada por Marc». Um ano depois, Tom Zimmerman, da IBM, demonstra o funcionamento de uma rede pessoal baseada no corpo humano.

Novo ponto de viragem

«Este ciclo do transístor chegou, no entanto, ao fim», escreveu o economista Paul Romer, ainda antes de sermos surpreendidos pelo facto mais perturbador das últimas décadas - a descodificação do primeiro cromossoma humano (o 22) em 1999, logo seguida da descodificação de um segundo (o 21) em 2000.

Os economistas dos ciclos longos falam, agora, de um novo momento de viragem, tal como aconteceu em 1947.

Momento de viragem a que está associada uma nova indústria, a genómica, que poderá provocar nas duas próximas décadas uma revolução económica e tecnológica ainda mais profunda do que a Terceira Vaga. Estar atento às oportunidades que poderá abrir é a missão dos empreendedores do futuro.

E, de novo, se acumulariam sinais críticos - correcção no NASDAQ e no Dow Jones Industrial e noutras bolsas; novo choque do petróleo; crescimento de novos movimentos políticos transnacionais (anti-globalização).

QUATRO DATAS A SEGUIR
Alguns analistas apontam quatro datas a merecer a nossa atenção nesta década, e com as quais fechamos este artigo:
2004: Arthur C. Clarke antevê o arranque oficial de um projecto de clonagem humana reprodutiva;
2006: A informação em suportes digitais (on-line, off-line e na Web) ultrapassará, pela primeira vez, a informação em suportes analógicos (papel, filme e video), segundo um estudo da IBM;
2006 (de novo): Assistiremos ao pico histórico na produção mundial do petróleo (que cairá 60% em termos de oferta mundial até 2040), segundo um estudo de Richard Duncan;
2008: Ano de inversão do peso da OPEP na produção mundial do crude - passará a dominar 50% e chegará aos 90% em 2040 (actualmente ronda os 30%).
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