O Milagre de Brooklyn

De bairro decadente de Nova Iorque, transformou-se em pólo tecnológico e Meca do cinema. O pontapé de início desta revolução deve-se a um visionário que criou o «campus» do MetroTech.

Jorge Nascimento Rodrigues), editor de janelanaweb.com, em Brooklyn, NYC, Julho 2005, com George Bugliarello, o criador do conceito de «knowledge urban park»

«Em vez da ideia de parques tecnológicos na margem da cidade ou nos arredores rurais, optei pelo próprio tecido urbano central existente»

A Margem Esquerda da Wall Street entrou na moda, rivalizando com os lugares chiques de Manhattan. Já não é apenas a imagem de alguns nativos célebres - como Woody Allen ou Jerry Seinfeld - que fazem as honras da casa. Brooklyn "vende-se" no seu marketing territorial como o bairro que põe uma cereja nova no topo da cidade de Nova Iorque.

O frenesim imobiliário não pára do lado de lá da histórica ponte de Brooklyn, apimentado, agora, com o nome de Frank Gehry convidado a desenhar um novo complexo desportivo de basquete para os Brooklyn Nets que arrastará um investimento de 3,5 mil milhões e uma completa transformação de "vidro e aço" com condomínios e escritórios na margem do rio até 2011. O mais alto será baptizado de "Miss Brooklyn" e olhará com sobranceria para a baixa Manhattan. Gehry está, ainda, envolvido na remodelação do Teatro que se quer transformar até 2007 numa "incubadora de talento" e sopra pelos media da "Big Apple" que a filha se mudou para um apartamento bilionário no outrora inseguro e decadente bairro.

Esta transformação está a mudar o tecido social e económico de um bairro com 2,6 milhões de habitantes, com 55% de emigrantes e descendentes em vários "enclaves étnicos", que é maior do que cidades de referência como São Francisco, Boston e Atlanta.

Parque de conhecimento urbano

Na origem desta revolução urbana está um visionário que tomou conta da Universidade Politécnica entre 1973 e 2003. O italo-americano George Bugliarello teve um sonho que começou a pôr em prática em 1975 - criar no meio do tecido do bairro o que designou por "parque de conhecimento urbano", que fosse o catalisador de um renascimento da baixa de Brooklyn. "Em vez da ideia de parques tecnológicos na margem da cidade ou nos arredores rurais, optei pelo próprio tecido urbano central existente", explica Bugliarello, que se licenciou em Pádua, na Itália. Assim nasceu o "campus" do MetroTech, alavancado por aquele politécnico privado e com base numa parceria público-privada, que mobilizaria 1,4 mil milhões de euros, 75% dos quais capitais privados.

Ao longo das últimas duas décadas surgiram, do meio de um espaço degradado, 14 edifícios para onde Bugliarello atraiu utilizadores de tecnologia. Bugliarello não quis criar um Silicon Valley nem copiar o MIT, onde se doutorara nos anos 1950. "Em vez dos produtores de tecnologia, das start-up e das multinacionais, como âncora, pretendi aqui localizar a parte de dados e de segurança dos grandes utilizadores, como o sector financeiro ou o governo", afirma Bugliarello. Foram criados vinte e cinco mil novos postos de trabalho qualificados, particularmente do sector financeiro, "roubados" a Manhattan. Em 1996 a cadeia de centros comerciais Costco apostou na zona e mais recentemente abriu um luxuoso Marriott, dentro do "campus" do MetroTech.

Hollywood Ocidental

A última aposta de Brooklyn é o cinema. Com apoio público local e utilizando novos programas de incentivos fiscais (que podem ir até 15%) lançados pela cidade e pelo Estado de Nova Iorque, abriram, no Verão passado, os Studios Steiner, um investimento de 150 milhões de dólares, em 80% capitais privados da Steiner Equities, que está a revolucionar a antiga zona de estaleiros navais. Steiner entrou com o pé certo, com uma grande produção de Mel Brooks, um nativo de Brooklyn - o musical "The Producers" -, e vende-se como tendo, agora, o maior estúdio de toda a região de Nova Iorque. Em realização estão "Inside Man" de Spike Lee, um outro apaixonado do bairro, e "Fur" com Nicole Kidman, cujas cenas mais ousadas estavam a decorrer, à porta fechada, na altura em que visitámos os cinco estúdios.

A estratégia de Brooklyn é aproveitar a aposta de Nova Iorque em se transformar na "Hollywood Ocidental", multiplicando os 5 mil milhões de dólares e as 100 mil pessoas que o negócio das filmagens e produções já envolve, com estúdios de renome situados em outros bairros, como Queens, Long Island e Manhattan, que começaram já a sentir a mossa feita pelos novatos de Brooklyn.


Fontes de consulta

www.nyc.gov/html/film/html/news/092804_mayor_governor.shtml

www.poly.edu/administration/articles/urban_k_parks.cfm

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