BRAGA Capital do Software

Ir ao encontro da Nova Economia no país real vai ser o propósito de uma série de artigos no «O Portugal que Mexe». O objectivo é perceber onde a «acção» está e qual o perfil dos seus protagonistas. Não se trata de radiografias locais ou regionais exaustivas, mas de casos soltos que ilustram um novo tecido económico e um novo paradigma de gestão e de empreendedorismo.
A primeira «escala» da volta foi Braga, numa saborosa mesa redonda no Cruz Sobral, um dos restaurantes típicos da cidade Capital do Software luso

Jorge Nascimento Rodrigues com o apoio organizacional da Vector XXI e o estômago reconfortado no Restaurante Cruz Sobral no Campo das Hortas, em Braga

1ª Iniciativa do «O Portugal Que Mexe» (Março de 2000) pelo Ardina na Web em colaboração com a rede de correspondentes e parceiros da Janela na Web
Versão reduzida publicada no Expresso em 25/03/2000

EMPRESAS PARTICIPANTES
Eticadata | Primavera Software | Softlab | Sensoria | Vector XXI
 Participação Especial do Centro de Informática da Universidade do Minho 

Jantar no Restaurante Cruz Sobral no Campo das Hortas, em Braga

DESTAQUE
 O caso da Primavera Software 

Nos meios da especialidade - que poderemos designar por comunidade dos 'informáticos', para simplificar - o «Made by Braga» não causa estranheza.

O espanto, entre estes entendidos, vem da «overdose» - o facto de tudo «o que cheire a software português para empresas e profissionais vir daqui de cima», diz-nos a abrir José Gonçalves, 51 anos, um dos seniores da Nova Economia bracarense, que ao negócio original da contabilidade associou a informática, agarrando depois a oportunidade da concepção de software de gestão, tendo criado a Eticadata.

A mesma opinião sobre este «ex-libris» da cidade minhota é sublinhada por Jorge Batista e José Dionísio, a dupla que criou, com menos de 30 anos, em 1994, a Primavera Software, provavelmente a empresa de 'fabrico' de pacotes de software luso de gestão actualmente mais conhecida no nosso país e no mundo de língua portuguesa. «O problema é que o público em geral e os utilizadores empresariais não ligam o uso destes softwares a Braga», comentam estes dois fundadores.

«Muitos empresários nesta área chegam a ocultar o facto de que estão sediados aqui, a omitir que é em Braga que têm o seu núcleo duro de desenvolvimento. Há, ainda, uma barreira psicológica que chegou a hora de vencer. Braga tem de ser colocada no mapa do 'high-tech' português. As autoridades têm de ser sensibilizadas para a urgência deste marketing da cidade, que é uma cidade de massa cinzenta», conclui Luís Novais, o responsável da Vector XXI, que se celebrizou, no final do ano passado, pelo projecto mediático de uso exclusivo de comércio electrónico para efectuar compras e de teletrabalho durante 33 dias num veleiro ancorado na marina do Parque das Nações (ex-Expo 98), em Lisboa.

O reconhecimento desta realidade local é tanto mais urgente quanto esta Nova Economia bracarense centrada na criação 'high-tech' já movimenta cerca de 800 quadros distribuídos por umas 40 empresas, que no conjunto facturam uns 8 milhões de contos. Nomes, que não ouvimos nesta ronda rápida, como a Caso, a Cel-Cachapuz, a Escripovoa, a Inforap, a F3M, a Global Soft, a MinhoMedia e a Sidra Multimedia fazem parte desta galeria.

A fábrica de RH

A origem desta 'especialização' bracarense está numa opção estratégica tomada na Universidade do Minho «na altura certa». Quem conta a história é Alberto Proença, um dos professores do Centro de Informática da Universidade do Minho, que viveu esta visão por dentro. «Houve um grupo de professores, liderados por Machado dos Santos, que resolveu ancorar a Universidade então criada nos anos 70 em cursos novos no país, como foi o da engenharia de sistemas», diz o nosso interlocutor.

Esta estratégia permitiu atrair à Universidade bons professores que dedicaram a sua carreira em exclusivo à formação de várias levas de alunos que transformaram aquela instituição numa 'fábrica' de canudos de 'informáticos' reconhecidos como recursos humanos altamente qualificados disputados pelas empresas de todo o país. Dos três cursos existentes nesta área - engenharia de sistemas e informática, matemática e ciências da computação, e informática de gestão - já saíram mais de mil e cem licenciados, refere, com indisfarçável orgulho, Alberto Proença.

«A partir de certa altura, estes professores desempenharam um papel 'informal' fundamental na mudança do tecido económico da região», acrescenta Luís Novais. O seu apoio foi essencial para despertar o empreendedorismo de muitos alunos e recém-licenciados e crucial nos primeiros passos de muitas empresas que nasceram da amizade entre colegas com vontade de correr o risco de serem patrões da sua própria carreira.

«O incentivo dos 'profs' foi fundamental para vencer as pressões no sentido de optar por uma carreira num 'bom' emprego. Foi decisivo para nos empenharmos a fundo naquilo em que acreditávamos», refere Luís Barros, conhecido em mais novo como «o cientista», hoje com 30 anos, um dos fundadores da Softlab, que, nas suas próprias palavras, é um dos «testemunhos vivos desse apoio e incentivo».

As vagas de empreendedores

Este movimento empreendedor nas novas áreas então nascentes, ligadas às chamadas «novas tecnologias», começou com o nascimento dos «pais» desta mudança silenciosa de Braga. «Casos como a Datamatic (que já não existe) ou a Infologia tornaram-se verdadeiras 'escolas' de onde brotaram inúmeros 'spin offs' de quadros que lançaram, depois, as suas próprias empresas, como aconteceu connosco», referem os fundadores da Primavera Software, que foram os primeiros a descobrir a oportunidade de criar software de gestão 'made by' portugueses, particularmente para as PME. «Uma quota importante do mercado português deste software nasceu aqui em Braga», sublinham.

A vaga mais recente centrou-se em torno do multimedia e da web «explorando o negócio da sua geração», como refere Luís Novais da Vector XXI, que veio de «fora» da informática, tendo cursado história, o que, garante, lhe permitiu desenvolver «um pensamento estratégico que é basicamente um pensamento histórico».

A Sensoria é uma das 'start ups' típicas desta última geração. Criada por dois «rapazes dos bonequinhos», Pedro Portela e Dionísio Monteiro, ainda hoje com menos de 30 anos, especializou-se na área multimedia e do design e teve uma das âncoras nos trabalhos realizados para a Porto Editora.

A maioria destes casos revela um perfil similar. Nasceram da comunhão de ideias e da amizade entre colegas de curso. Todos começaram em condições precárias, num quarto de casa vago ou numa sala de jantar apertada, com mesas de cozinha ou mesmo de plástico de jardim, com caixotes de papelão com PCs em cima.

Para todos «é um projecto de vida». Não criaram as empresas na lógica rápida de engordar o porquinho para venda e não estão embasbacados com a euforia das aquisições milionárias. «Querem ser patrões de si próprios fazendo aquilo de que gostam», dizem-nos Portela e Monteiro, os «benjamins» deste grupo de empresários da Nova Economia que ouvimos em Braga, no meio de um jantar de comida típica minhota.

Todo este movimento deu origem a um tecido económico novo que «tem já massa crítica», opina Jorge Batista, da Primavera Software, que é também responsável na Associação Industrial do Minho (AIM) pela ideia de 'vender' Braga como um «cluster» de novas tecnologias. Entre os projectos da AIM está o projecto de criação de um Parque Tecnológico em Braga e de uma dinamização cultural forte em torno da Nova Economia.

PRIMAVERA ... DE BRAGA
 José Dionísio e Jorge BatistaBraga encontrou espontaneamente um dos seus nichos de especialização - o do software de gestão. Na mesa redonda realizada pela Janela na Web em parceria com a Vector XXI três dos presentes ocupam posições importantes neste segmento - a Primavera Software, a Eticadata e a Softlab que entretanto criou uma «joint-venture», a Matitec, com o grupo holandês Maticon para a distribuição europeia.
A Primavera Software é o caso de referência mais conhecido hoje em dia. Foi pioneira ao descobrir uma «falha» do mercado português no princípio dos anos 90: «Faltava em Portugal software de gestão que corresse sobre o Windows. Pegámos no carro e fomos a Espanha e a França ver o que lá se passava e vimos que havia uma explosão de produtos para aquela plataforma da Microsoft. Bill Gates já ía dizendo, então, que o DOS era para acabar», relembra Jorge Batista, um dos dois fundadores da empresa.
Acreditando teimosamente na ideia, os dois amigos saíram da Infologia, onde tinham iniciado a carreira, e desenvolveram o ContaLib (um software de contabilidade para profissionais liberais) que lhes abriria a porta para um sucesso inesperado.
Tudo nasceu num quarto de casa do Jorge com uma mesa de plástico de jardim e um PC, a que se somou a sorte de uma avaliadora do IEFP que apostou no projecto de «Iniciativa Local de Emprego» apresentado por eles - numa altura em que aquela instituição chumbava a maioria dos projectos de informática. «Nós explicámos que não éramos mais uma empresa para vender computadores e acreditaram em nós», refere José Dionísio.
Apostando numa postura cosmopolita posicionaram o marketing do seu produto ao nível do que de melhor se fazia lá fora. «Um dos nossos primeiros clientes ficou admirado de vendermos o software numa caixa com um aspecto de pacote internacional. Não era hábito nos portugueses», continua Dionísio. Com uma estratégia agressiva, conseguiram manter uma situação de monopólio temporário durante quatro anos. Hoje têm 16 produtos à venda e terão 20 até final do ano. Alimentam uma comunidade de 20 mil utilizadores.
A Primavera Software internacionalizou-se também em países africanos de língua portuguesa. «Fala-se da Primavera em bares; temos verdadeiros fãs em Cabo Verde e Moçambique», diz Jorge Batista. A abordagem de Espanha começará este ano e «com a estandardização contabilística europeia e do euro, abrem-se novas oportunidades», refere a dupla.
A empresa prepara-se agora para não deixar o pioneirismo por mãos alheias - o software de gestão em plataforma Web é o novo desafio.
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