Comércio Electrónico
O Grande Bolo de Final de Século

Jorge Nascimento Rodrigues em São Francisco

Os cinco mamõesOs 300 mil milhões de dólares estimados para o comércio electrónico só entre empresas no ano 2002 agitados pelo célebre Relatório sobre a Economia Digital Emergente (www.ecommerce.gov) lançado no final do mês passado pelo Secretariado para o Comércio Electrónico da Administração Clinton agitou ainda mais o debate sobre a verdade ou a poesia em torno das oportunidades que se abrem a quem se posicionou ou quer posicionar estrategicamente na Internet e na World Wide Web.

No entanto, o comércio electrónico é, ainda, "uma tecnologia «bébé» que não conseguiu passar a barreira para o mercado, pois mesmo os pragmáticos ainda hesitam", diz-nos Geoffrey Moore, do grupo de consultoria The Chasm (www.chasmgroup.com), sedeado em São Mateo, no início do corredor do Silicon Valley, e que escreveu recentemente The Gorilla Game - An Investor’s Guide to Picking Winners in High Technology (compra do livro), editado na HarperBusiness, que comentaremos desenvolvidamente oportunamente (o livro tem um «site» próprio já em actividade em www.gorillagame.com.

Ao contrário do que acontece com as tecnologias para a Internet e a Web que já entraram numa fase de verdadeiro "tornado", de proliferação, pelo menos nos Estados Unidos, e indiscutivelmente na Califórnia, o comércio electrónico ainda tem de passar por uma prova dos nove, em que se verão que aplicações e segmentos passam à etapa de penetração no mercado.

Para Geoffrey Moore, o modelo dos "portões" de entrada na Web (a que nos referimos mais adiante) apoiados em publicidade conseguiu passar a prova dos nove, bem como certas funções de suporte ao comércio electrónico, tais como o marketing prévio às vendas e o apoio ao cliente após a venda. Ele acha, por outro lado, que as microtransações estão a morrer no fosso que separa a infância do salto para o mercado, o que contradiz o entusiasmo que nos manifestaram na Digital a propósito do MilliCent, como grande alavanca dos micropagamentos na Web (ver mais à frente).

A fase do pioneirismo esgotou-se?

No entanto, paradoxalmente, afirma Moses Ma, o visionário japonês da BusinessBots («site» em fase experimental em http://businessbots.com), localizada no Multimedia Gulch de São Francisco, a primeira geração de soluções de comércio electrónico lançada pelos pioneiros já não está mais ao alcance de qualquer um que o deseje. "Já não é mais possível duplicar as condições iniciais que levaram ao êxito em termos populares de novas empresas criadas a partir do zero, como a Amazon (www.amazon.com) nos livros, a E*Trade Securities - The New Financial Community (www.etrade.com) na área financeira, a CDNow (www.cdnow.com) na música e a Virtual Vineyards (www.virtualvin.com) nos vinhos", refere-nos, para salientar que esta janela de oportunidade se fechou, pois as grandes marcas dos sectores não digitais estão a entrar em força na Web, para ocupar o seu lugar ao sol.

A mesma opinião é-nos manifestada por Dean Fernandes, um descendente de açoreanos, consultor da Studio Archetype (www.studioarchetype.com), uma das melhores agências de marketing e webdesign de São Francisco. Esta empresa tem justamente convencido os seus grandes clientes dos sectores não digitais a vencerem as resistências iniciais e o período de hesitação, nalguns casos prolongado, e a entrarem na Web, alavancando as vantagens que lhes advém da anterior experiência no segmento concreto de negócio e da própria infraestrutura física montada.

Ele cita-nos o caso da cadeia de livrarias do The Borders Group, referindo que ela poderá "complementar a experiência que se tem na consulta e encomenda «on line» com um espírito de comunidade e de vivência local a nível da livraria de cidade ou de bairro que você frequenta". Aliás, o grupo conta abrir o seu «site» na Web durante o mês de Maio e a partir daí atacar a posição de liderança da Amazon (ver história na Wired em www.wired.com/news/news/business/story/12100.html).

Mas mesmo os tubarões parecem ter-se enganado na primeira ronda do comércio electrónico e deixaram caminho aberto aos novatos. Os chamados "centros comerciais virtuais" da primeira geração, do tipo dos criados pela IBM e depois pela Microsoft, meteram água. Por isso, agora, diz-nos Walid Mougayar, um especialista canadiano da rede da CommerceNet (www.commerce.net), sedeada em Palo Alto, "a solução é a construção de portões de entrada abrangentes" onde se misturam os conteúdos com as compras inteligentes e outras funcionalidades e utilidades para o utilizador comum.

Ele cita-nos os casos do Visa Shopping Guide situado no Yahoo (http://shopguide.yahoo.com), o motor de pesquisa sedeado em Santa Clara, ou o Shopping Channel do Excite (www.excite.com/channel/shopping), sedeado em Redwood City, ambas «start ups» filhas do Vale.

A própria Point Cast (www.pointcast.com), que muita gente já tem personalizada no écran do seu PC, recebendo a informação do seu agrado oriunda de uma série de fornecedores de conteúdos, se começou a encarar como uma plataforma ideal, dentro da empresa, para a publicidade, o marketing directo e a venda por impulso. "Nas empresas o que existem são, em regra, computadores, e não televisões, nem mesmo muitos rádios. Por isso, não há melhor que o nosso espaço para vender directamente ao trabalhador no seu local de trabalho", afirma-nos Ranah Edelin, o gestor de produto para o resto do mundo (fora dos Estados Unidos), que nos recebeu na sede da empresa em Sunnyvale.

Nesta ideia de que qualquer um, grande, pequeno ou médio, pode abrir a sua loja na Web ou mais do que isso criar um verdadeiro "chapéu" de serviços de comércio electrónico, está posicionada a Intershop (www.intershop.com), uma empresa criada por Stephan Schambach, um alemão de Jena, na ex-RDA, que acabou por em 1996 vir sedear a sua empresa no Multimedia Gulch de São Francisco. A empresa vende um «kit», chave na mão. "Não acredito na separação entre os segmentos do comércio electrónico entre empresas e destas com os consumidores. A nossa solução baseia-se num modelo genérico de vendedor-comprador", refere-nos.

A revolução dos micropagamentos

As oportunidades para novas ideias de negócio virtual parecem não ficar por aqui. A chama de esperança vem dos lados da Digital, que tem em curso um sistema revolucionário de micropagamentos seguros na Web, o MilliCent, criado em Palo Alto, nos Laboratórios da empresa.

A sua versão beta, ainda não monetarária, foi colocada gratuitamente na Web (veja a demonstração com animação em «shockwave» e faça o teste em www.millicent.digital.com) no início do ano e já movimentou 70 milhões de dólares por 5000 utilizadores que passearam por 26 fornecedores de conteúdos. Em breve, estes últimos serão 100 e Russ Jones, autor de diversos livros sobre a Net, e director de Marketing do MilliCent, garantiu-nos que a versão monetarizada irá para o ar no segundo semestre. "Isto vem permitir um passo em frente na venda de conteúdos e no retalho, pois permite pagamentos seguros de muito pequenos montantes.

Passa a ser fácil a compra por impulso ou assinaturas não convencionais, como de um artigo concreto, de uma consulta a uma enciclopédia, ou de um jornal por um dia, ou de uma imagem, etc..", salienta Russ Jones. Oportunidades na venda directa entre consumidores é algo que fica também muito facilitado, como por exemplo, entre os amantes do coleccionismo ou para qualquer um que edite conteúdos pessoais na Web.

Mas o apetite pelos grandes números é o que mais interessa nos bastidores da cadeia de valor do comércio electrónico. Katherine Webster, gestora do grupo de Desenvolvimento do Mercado do Comércio Electrónico na Sun Microsystems, em Palo Alto, falou-nos do grande bolo do comércio electrónico no ano 2000. A maior fatia individual irá para os negócios empresa a empresa (34%), seguido dos fornecedores e operadores da infraestrutura (31%), dos fornecedores e intermediários de conteúdos (19%), dos serviços financeiros (12%) e finalmente do retalho (4%). Contudo, se somarmos as parcelas relativas aos três últimos segmentos verificamos que este tipo de comércio sobretudo dirigido ao consumidor será "a maior fatia e o motor mais visível da economia digital", afirma-se no relatório federal sobre comércio electrónico, o que reacendeu o debate sobre onde estão estas oportunidades viradas para o mercado não empresarial.

A voz comum cita sempre o caso dos livros - a famosa Amazon.com, que de 16 milhões de vendas «on line» em 1996 passou para 148 milhões no ano passado - ou da venda de hardware através do seu «site» pela Dell Computers, que já sobe a 6 milhões de dólares por dia. São exemplos típicos do retalho virtual com distribuição física, o que requer uma gestão muito complexa e fiável da rede de fornecedores e da logística de um circuito que tem de ser de distribuição muito rápida.

Os leilões de monos obsoletos e de stocks são também um nicho emergente, a ponto de se estarem a criar inúmeras empresas de software para a área, como a Mohai Technologies (www.moai.com), em São Francisco. Para Anne Perlman, presidente desta pequena empresa, o próprio método do leilão na Web poderá vir a transformar-se "no melhor sistema de fixação de preços dos produtos e serviços no futuro, a partir das reacções concretas dos consumidores".

No campo das vendas puramente digitais, as viagens (compra de bilhetes de avião, reservas de hoteis, aluguer de automóveis), o «download» de software e os serviços financeiros parecem liderar. Mas grandes expectativas estão a ser criadas em torno dos jogos «on line» com vários jogadores virtuais.

Alguns dos apetites mais vorazes parecem rondar a publicidade. Fala-se que a migração de publicidade dos meios impressos para a web poderá acarretar uma quebra de 50 por cento neste tipo de receitas nos próximos cinco anos, segundo um estudo da Newspaper Association of America, citado pelo relatório federal acima referido Se isso acontecer, a margem operacional dos jornais poderá baixar para 3 por cento, ou seja 1/5 da actual. No caso da TV, o outro meio tradicional, as estimativas ainda não são conhecidas.

A WebTV Networks (http://webtv.net), de Palo Alto, comprada há sete meses pela Microsoft, que já lançou duas versões de WebTV, mexe-se, aliás muito agressivamente, neste campo, querendo demonstrar ser a plataforma ideal para a distribuição de conteúdos, de entretenimento e de jogos à família, sensibilizando-a com a publicidade e a compra na ponta do dedo, bastando um «clique». Contudo, como nos frisaram na I/PRO (www.ipro.com), a líder da auditoria e da medição de impacto dos «sites», os anunciantes serão cada vez mais exigentes e as tomadas de decisão basear-se-ão no tipo de serviço que esta empresa de Redwood City presta.

Oportunidades na infraestrutura

A maior fatia do posicionamento estratégico está em torno da infraestrutura. A Sun, que tem procurado afirmar-se como a "Intel inside" do comércio electrónico (detém a maioria das plataformas que suportam os «sites» de sucesso e os cinco maiores vendedores de software para comércio electrónico), a Cisco Systems, de São José, nos «routers» (as suas vendas «on line» passaram de 100 milhões em 96 para 3,2 biliões em 97), e a Oracle, nas bases de dados, com as suas torres azuis em formato de disco em Redwood Shores, estão a dar corpo ao que aqui no vale se denomina a nova "indústria da rede", que está a defrontar a «velha» indústria dos «chips» na liderança do Silicon Valley.

Mas para Brian Reid, director do Laboratório de Sistemas de Rede da Digital, em Palo Alto, com a desregulamentação e a desintermediação galopantes, as oportunidades no campo das infraestruturas, surgem no domínio de Pontos de Permuta Regionais para a Internet, em operadores de interface a nível local, e nos fornecedores de serviços comerciais na Net. Explica-nos Brian Reid: "Os Pontos de Permuta Regionais são fundamentais em termos geo-estratégicos. Veja o caso de Barcelona que está a criar um por iniciativa da Telefonica e de Kuala Lampur, na Malásia. Por outro lado, o global é óptimo, mas é o local que é crucial, por isso os futuros operadores de interface a nível local vão ser uma oportunidade decisiva para liderar o desenvolvimento económico no terreno. Há casos interessantes na Suécia e no Chile. Quanto aos Fornecedores de Serviços Comerciais, o nosso MilliCent vai dar uma grande ajuda".

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