A década de todos os riscos - o consenso
de Bloomington

Cientistas dos ciclos longos económicos e geopolíticos antevêem 2030 como início de um período de "convergência" de várias turbulências

Jorge Nascimento Rodriguesem Bloomington, Estados Unidos, Maio de 2007

Tudo se encaminha para que um período crítico de turbulência económica e de aquecimento geopolítico em torno da definição de quem vai liderar o mundo até final do século XXI e durante boa parte do século XXII possa estender-se pela década de 2030.

Para essa data mágica estarão a "convergir" um recém-nascido ciclo longo tecno-económico que poderá atingir um pico (tal como ocorreu com os "choques" nos anos 1970) e um período de transição entre ciclos geopolíticos (à semelhança do que aconteceu nos anos 30 e 40 do século passado) em que confrontos entre grandes potências poderão gerar guerras e a mudança de protagonista na cadeira hegemónica.

Mais fricção

Esta "convergência" de riscos poderá ser baptizada como o "consenso de Bloomington", a cidade universitária do estado de Indiana onde se reuniram três dezenas de cientistas, especialistas nos ciclos longos económicos (chamados de "vagas de Kondratieff" pelo grande economista Schumpeter) e nos ciclos geopolíticos. "São demasiadas transições ao mesmo tempo num período que se pode estender entre 2030 e 2050. É de esperar um ambiente de mais fricção nas próximas gerações", sublinhou William Thompson, da Universidade de Indiana, o organizador desta conferência, que pretendeu fazer uma actualização das conclusões do encontro ocorrido no IIASA, na Áustria, no ano passado, então dirigido por George Modelski, da Universidade de Washington, e Tessaleno Devezas, da Universidade da Beira Interior. Thompson e Modelski são considerados os "pais" de uma metodologia histórica que permite estudar a sucessão de vagas de inovações tecno-económicas, a marcha da globalização económica e política, e a sua relação com a disputa entre grandes potências pela hegemonia do mundo.

Ainda que estejamos separados quase por uma geração em relação à década de todos os riscos, é óbvio o interesse prático sobre as investigações, por vezes áridas para um leigo. As tendências que marcarão esse futuro próximo já estão em curso, ainda que o formato do que possa ocorrer esteja em aberto. Provavelmente a "certeza" mais badalada é a da "mudança real do centro geopolítico para a Ásia", referiu Jacek Kugler, da Faculdade de Ciências Políticas e Económicas da Claremont Graduate University, da Califórnia. E "a evidência cristalina da China" como o novo protagonista, rematou Ronald Tammen, director da Escola de Administração Pública da Universidade de Estado de Portland. A China motivou, naturalmente, uma acalorada discussão (ver caixa).

Rasteiras por terceiros

O recuo temporário da globalização económica (como alguns alegam ter ocorrido entre os anos 20 e 50 do século passado) e o risco de um período de guerras mundiais (como o sucedido entre 1914 e 1945) agitou o debate no tranquilo "campus" de Bloomington, onde pouco mais se ouve que o chilrear de pássaros coloridos e nos distraímos com os esquilos. "O conjunto, a coincidência de vários aspectos ligados à evolução dos ciclos, aumenta o risco de guerra", referiu John Vasquez, um barbudo professor de ciências políticas da Universidade de Illinois, que desenvolveu uma teoria sobre "passos" que podem conduzir a uma tal situação, na base do estudo da história passada.

A tendência imediata por muitos presentes foi para apontar o dedo à China como o "desafiador" que poderá criar as condições para um conflito directo com os Estados Unidos, o actual líder hegemómico. Taiwan ou o Tibete poderão ser achas pela sua carga simbólica, ou um inesperado incidente na navegação de "commodities" energéticas nalgum estreito estratégico (os chamados "chokepoints"), segundo uma corrente de sinólogos americanos. Mas Vasquez retorquiu: "Pode não haver guerra directa. O caminho pode ser indirecto, através de terceiros, conflitos de outros actores em torno dos quais, depois, as grandes potências se vêm arrastadas para alinhar. É preciso olhar para todos os contendores, não só para um par deles, os dois maiores".

A multipolaridade regional da Ásia

Steve Chan, da Universidade do Colorado, desenvolveu, aliás, uma reflexão curiosa: o confronto de grandes proporções pode ocorrer entre dois "desafiadores", um que se sente em declínio e que teme a inexorável ascensão de outro. Os alinhamentos das outras potências, incluindo do "incumbente" hegemónico (EUA), virão depois.

Os candidatos para esta situação são muitos e pululam no mundo asiático, diz Chan. "Tal como a Europa do final do século XIX e do início do século XX (recordem-se, então, sete grandes potências irrequietas: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Império Austro-Hungaro, Rússia, Império Otomano), a Ásia tem, hoje, demasiadas grandes potências à procura de protagonismo" - China, Índia, Rússia, Japão, Estados Unidos, a que se podem adicionar potências mais pequenas, como a Indonésia ou a Coreia do Sul.

Na sequência do consenso de Bloomington ficaram várias questões a acompanhar:

- Se a Ásia é hoje a região do mundo onde há mais grandes potências potencialmente irrequietas (como foi o caso da Europa no passado), o debate estratégico deve centrar-se aí e não no Médio Oriente, onde aparentemente todos os recursos geopolíticos estão a ser colocados por força das questões Palestina, Iraque e Irão?

- Poderá a Rússia projectar-se como um "challenger", retomando ambições hegemónicas antes contidas, na linha da emergência no tempo do Império Russo e depois com o projecto hegemónico da União Soviética (que implodiu)?

- Poderá o Japão, um "challenger" derrotado na IIª Guerra Mundial, retomar o seu caminho de ambição geoestratégica, depois do fracasso do seu projecto globalizador no plano económico e financeiro nos anos 1980?

- Será que a China cortará com a sua tradição histórica milenar de afirmação no âmbito do softpower, e avançará para uma postura de "challenger", ou continuará com a estratégia de passos na "sombra", aproveitando o enfraquecimento do hegemonista e a debilidade de outros concorrentes?

- Conseguirá a China convencer os Estados Unidos e evoluir para uma solução política inovadora que resolva pacificamente a questão de Taiwan e do Tibete?

- Será que a Índia conseguirá conter a sua ambição geoestratégica e evitar "rasteiras" na complexa situação da Península Hindustânica?

- Quais são os pontos geográficos a monitorar, susceptíveis de desencadear guerras locais ou regionais, que possam, em cascata, implicar alinhamentos de terceiros?

China: a maior das incógnitas

Apesar de a China ser o suspeito número um que logo ocorre a muitos sinólogos americanos, William Thompson, o organizador da conferência, deitou água na fervura, reclamando que há muito exagero em torno da ascensão daquele país, e que a transição de poder hegemónico ainda não está eminente: "Provavelmente será muito mais tarde do que se julga".

A favor desta ideia de que a China ainda não está "preparada" militam muitas circunstâncias, segundo os especialistas dos ciclos. O problema mais crítico da potência emergente asiática, disse Peter Hugill, um geógrafo da Universidade do Texas, é "faltar-lhe um ambiente propício a um contágio de inovação", algo que é fundamental para retirar os Estados Unidos do pódio tecno-económico e do domínio absoluto em matéria de defesa.

Outros alegam que a "mão militar" (nomeadamente o irrequieto e difícil de controlar Exército Popular de Libertação da China, ainda recentemente envolvido num teste de destruição de um satélite) não tem ainda força para dominar a "mão diplomática", que continua a defender a visão de uma "ascensão pacífica".

Há ainda uma outra antevisão: a China já foi, no passado, a maior economia do mundo (medida em paridade de poder de compra, lugar de que só foi desalojada no final do século XIX), o berço da economia de mercado (no século X) e uma potência hegemónica, pelo menos entre os séculos X e XII, em que o principal trunfo era o "soft power", alega Richard Ned Lebow, especialista em geopolítica da Universidade de Dartmouth. No regresso, paulatino e paciente, ao pódio, a China poderá querer repetir o mesmo estilo do passado.
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