Observatório de HIGH-TECH da janelanaweb.com

Balanço de 2004 e Perspectivas para 2005

Por Jorge Nascimento Rodrigues, editor janelanaweb.com


«Blog» - a palavra do ano 2004

O Dicionário Merriam-Webster's declarou-a o termo mais popular em 2004. Por baixo desta "verborreia" digital, está uma revolução juvenil e feminina.

O dicionário em inglês "online" Merriam-Webster's elegeu a palavra "blog" como o termo do ano, à frente de outras muito procuradas no seu significado como incumbente ou insurgente. "Blog" (blogue) é uma derivação de "web log", atribuída a um tal Peter Merholz - autor de www.peterme.com - que em 1999 passou a soletrar "we-blog", alterando o termo criado dois anos antes por Jorn Barger, editor de "Robot Wisdom". Barger baptizara desta forma original um novo tipo de media digital entretanto emergente e cujo primeiro formato é atribuído a um sítio pessoal criado por Dave Winer em 1996.

Com menos de 10 anos, o jovem medium é hoje um híbrido de diversas formas de comunicação de autor, desde os tão clássicos diários ou panfletos em papel aos sítios pessoais na Web. De uns milhares galgou o ponto crítico em 2001 desde que se massificaram os softwares livres que tornaram a criação de "blogs" uma proeza acessível a "totós". O crescimento desta forma de conversação na Web parece estar a responder a uma "lei" - de cinco em cinco meses duplica, segundo as estatísticas da Technorati.com, que já rasteia mais de 5 milhões de "blogs". A Pubsub.com alega ter sob olho mais de 6,5 milhões e a Perseus Development estima 10,3 milhões no final desta semana.

A este universo já se designa por "blogosfera" e o seu poder de atracção advém de dar voz a milhões de desconhecidos e a outros tantos que os comentam mesmo que em pequenos ou micro-segmentos de público (alguns falam de "nano audiências), numa dimensão jamais vista na história dos media. Para alguns analistas, este tipo de media tornou-se prisioneiro de um excesso de verborreia - "blogorreia", diz Fernanda Bertini Viégas, uma especialista brasileira a trabalhar no MIT Media Lab (criado pelo pioneiro do digital, Nicholas Negroponte) em Cambridge, perto de Boston.

A reportagem e a política penetraram em força neste mundo e as noticias alternativas a partir do terreno (como os "blogs" de militares na Guerra do Iraque) ou a vaga panfletária nas campanhas eleitorais ou nos movimentos políticos de base, catapultaram o "blog" para a celebridade. Dan Gillmor escreveu há dois anos "We The Media", um manifesto sobre este novo tipo de jornalismo (o jornalismo é, no entanto, apenas uma das variantes dos "blogs"), e o livro "Blog", de Hugh Hewitt, é já um "best seller" em termos de encomendas, mesmo antes de estar nos escaparates, o que só acontecerá em Janeiro. A importância eleitoral deste medium foi coroada com o convite aos "bloggers" por parte das duas convenções partidárias norte-americanas nas últimas eleições.

A revolução social

O facto social mais curioso é, no entanto, escondido por muitas reportagens nos media - que fazem eco sobretudo dos "millblogs" (dos soldados), dos fazedores de opinião pública, ou dos "voyeurs" de escândalos (que mantém o anonimato ou não). A demografia dos "blogs" é dominada por 53% de "bloggers" entre os 10 e os 20 anos e a maioria são escritos no feminino como meio de "divagação pessoal", segundo os estudos da Perseus. O impacto desta revolução social na comunicação é motivo de estudo de muitos investigadores, como Fernanda Viégas, uma carioca de 30 anos que trabalha há seis no MIT Media Lab. É uma das investigadoras do Sociable Media Group daquele laboratório em Cambridge, perto de Boston, que analisa a transição do que é ainda, esmagadoramente, um "hobby" para uma dimensão educacional e profissional no futuro. Fernanda dedica-se ainda ao tema da privacidade "online" e da liberdade de expressão envolvidas nos blogues.

"Cada vez mais nos veremos perante uma diversidade de motivações e de usos de ferramentas de 'blogging'. Imagine que já há escolas em que os alunos - geralmente crianças - têm de criar ou interagir com blogues como parte do trabalho para casa. E que há investigadores que usam este meio como ferramenta de trabalho", explica Fernanda Viégas. Inclusive os blogues invadiram já o universo empresarial, quer na relação com o exterior, como em veículos internos de gestão do conhecimento ou de afirmação da voz dos "corredores" pelos empregados. "Os blogueiros internos das empresas têm hoje a possibilidade de construir reputações dentro das suas empresas e consciencializar os seus colegas sobre quaisquer problemas ou oportunidades que outros não tenham percebido", acrescenta a investigadora.

No plano externo, o marketing começa a cavar as suas trincheiras neste universo. Diz Fernanda Viégas: "Os blogues e os blogueiros podem transformar-se em armas de marketing. Há vários casos de blogueiros famosos que são constantemente abordados por empresas para que falem positivamente de certos produtos". Mas, como todos os media, são uma arma de dois gumes - muitos empregadores já rasteiam o mundo dos blogues para averiguar se os candidatos aos lugares são "blogueiros" críticos. Como salvaguarda contra esta discriminação, há já espaços para publicação anónima em formato blogue, como o permitido em http://invisiblog.com.

Demografia dos Blogues
 Escalões etários   % do total de blogues 
10-12 1,3
13-19 51,5
20-29 39,6
30-39 5,8
40-49 1
50-59 0,4
60-69 0,4
Sexo
 Autor masculino 44
 Autor feminino 56
 Fonte: www.perseus.com/blogsurvey/


De olho nas TICs emergentes para 2005

A autenticação através da sua impressão digital, a identificação de um produto por via de rádio frequência sem usar código de barras, e o software "livre" são as tecnologias de informação e comunicação mais promissoras até 2010, segundo um estudo do Deutsche Bank Research.

As três tecnologias de informação com maior probabilidade de crescimento até 2010 são a biometria - identificação e autenticação segura, por exemplo através do nosso indicador direito -, a identificação de produtos através de rádio frequência (RFID, no acrónimo) substituindo o já famoso código de barras, e o software de código aberto (conhecido pela designação de "open source"). Este prognóstico está incluído nas conclusões de um estudo recente do Deutsche Bank Research (DBR), que se debruçou sobre 10 tecnologias "quentes" para esta década e avaliou o seu real potencial de crescimento em comparação com a euforia jornalística em torno delas.

Só no caso das aplicações biométricas - cada vez mais mediáticas nas reportagens de televisão ou na publicidade da forma de pagamento por exemplo em gasolineiras - é de esperar, segundo cálculos da Frost&Sullivan, um mercado mundial de 6 mil milhões de euros em 2010, 40 vezes superior ao actual, apesar das reticências dos cidadãos. A aplicação biométrica com maior impacto será a ligada à impressão do indicador, com mais de 59% do mercado potencial, segundo dados do International Biometric Group. Seguem-se os reconhecimentos da face com 13% e do contorno da mão com 11%.

Em relação ao RFID, só na União Europeia, o mercado poderá, no final da década, atingir os 4 mil milhões ou seja decuplicar em relação ao nível actual, apesar dos problemas com a potência de corrente muito baixa autorizada na Europa (1/4 da nos EUA) e da reacção negativa de associações de consumidores. O RFID (Radio Frequency Identification Transponder, na terminologia técnica) deverá ter um impacto significativo na logística e na distribuição. Trata-se de uma etiqueta inteligente a colocar em paletas de produtos intermédios ou em bens de retalho que pode ser "lida" sem contacto físico com um terminal, apenas através de rádio frequência.

Julga-se, também, que o impacto do software livre poderá ser enorme, pelo menos na administração pública. Por exemplo, na Ásia, a iniciativa conjunta do Japão, China e Coreia do Sul irá criar uma onda de adesão muito significativa ao "open source", segundo o relatório do DBR.

Desilusões de mercado

O estudo dá um balde de água fria em duas tecnologias tidas como "killer applications" (como se diz na gíria) na literatura especializada - o telefone baseado na Internet (VoIP - voice over the Internet Protocol, na designação técnica) e a computação em "grelha" (grid, na terminologia técnica). Quando aqui se refere o VoIP, não se está a pensar no seu uso gratuito através de ligações de computador para computador, mas na sua utilização em chamadas a pagar para telefones fixos ou móveis.

Apesar de terem perspectivas de crescimento de mercado, o relatório considera-as com "potencial moderado". Stefan Heng, relator, explica-nos: "Obviamente que o VoIP tem potencial comercial. O problema é que actualmente há um grande exagero nos media sobre o assunto. É uma utilidade adicional interessante, mas não é a tal 'killer application' para o mercado de massa. Quanto ao 'grid' ainda sou mais pessimista. Diga-me: onde estão as aplicações comerciais para empresas?".

As limitações do VoIP para uma massificação de mercado derivam do ritmo de expansão da rede de banda larga no meio empresarial e particular e da lentidão na mudança de atitude dos gestores e quadros na sua relação com clientes, fornecedores e colegas que conduzam ao uso rotineiro do telefone através da Internet, particularmente para os negócios internacionais. A computação em "grelha", por seu lado, ainda só mobiliza os meios académicos e os entusiastas da tecnologia envolvidos no voluntariado em projectos transnacionais usando os recursos "adormecidos" dos computadores dos participantes. Um passo recente significativo no envolvimento empresarial foi o apoio da IBM ao projecto World Community Grid.

TOP 3 DO CRESCIMENTO
(Forte probabilidade de desenvolvimento de um mercado de massa)
1. Biometria (6 mil milhões de euros em 2010)
2. RFID/identificação por rádio frequência (4 mil milhões de euros em 2010 só na União Europeia)
3. Software de código aberto

MAIS FUMO QUE FOGO
(Excesso de expectativa; menor probabilidade de criação de um mercado de massa)
1. Telefone através da Internet (VoIP)
2. Computação em "grelha" (Grid)

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