No coração da bio-revolução

A Genómica dá um empurrão à Biotecnologia e o Silicon Valley posiciona-se como principal «cluster» mundial do sector, apesar da enorme publicidade
em torno da Celera Genomics, situada em Maryland, na costa atlântica.

Jorge Nascimento Rodrigues em San Francisco

Patrocínio da PriceWaterhouseCoopers e apoio do ICEP de San Francisco

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

A polémica sobre a «clonagem» humana
Artigo da Nature sobre Genoma Humano
Artigo da Science sobre Genoma Humano
Site da BioVenture Consultants de Cynthia Robins-Roth
Artigo de 2000 sobre o tema no Ardina na Web


 Sites das empresas visitadas 
Genentech | Affymax | Exelixis


Tudo sobre Genómica
História da Genómica | The Genomics Lexicon | BioPortfolio | Pharma Genomics

O célebre momento da cerveja em 1976 entre Swanson e Boyer numa mesa do Churchill's em Masonic, na Bay Area, imortalizado em bronze na esplanada do edifício principal do «campus» da Genentech
O célebre momento da cerveja em 1976 entre Swanson e Boyer numa mesa do Churchill's em Masonic, na Bay Area, imortalizado em bronze na esplanada do edifício principal
do «campus» da Genentech

A «gaffe» memorável do antigo presidente norte-americano George Bush falando de gnomo («gnome», em inglês) em vez de genoma («genome») certamente não se repetirá com o filho, o actual inquilino da Casa Branca.

A asneira de suprimir o primeiro «e» deu-se ironicamente numa cerimónia em 1989 em que Bush-pai medalhava Stanley Cohen e Herbert Boyer pela invenção da tecnologia de ADN recombinante. Foi esta criação de 1973 que levaria Bob Swanson (já falecido) a desafiar Boyer, no meio de duas cervejas, num bar do Silicon Valley, para a criação da Genentech (abreviatura, em inglês, de tecnologia de engenharia genética) em 1976.

A criação desta «start-up» foi o acto fundador do nascimento de uma nova indústria, à revelia da farmacêutica. A posterior entrada da Genentech na Bolsa de Nova Iorque (NYSE, onde é cotada com a curiosa abreviatura DNA) em 1980 viria a servir de alavanca do interesse dos investidores por este novo sector então emergente. Essa ida ao mercado de capitais representou, nos anos 80, o papel que o IPO da Netscape desempenhou em 1995 para a emergência da Web.

A caçada anunciada pela Nature

O genoma tornou-se motivo de conversa de café e mesmo os jornais «populares» norte-americanos falaram euforicamente no assunto, na sequência da divulgação dos dois artigos científicos nas revistas «Nature» (nº409, 15/02/2001) e «Science» (volume 291, nº 5507, 16/02/2001) sobre o primeiro balanço da sequênciação do genoma humano.

O artigo da «Nature» concluía dizendo que «há muitos tesouros por descobrir 'sentados' nos dados actuais, apenas à espera de serem encontrados pela intuição, trabalho duro e verificação experimental», e terminava assim: «Boa sorte e boa caçada!».

Os meios de negócio ligados às ciências da saúde estão a levar a sério o desafio para esta «caçada», que poderá dominar completamente a próxima retoma económica nesta década. «A bio-revolução dominará completamente a revolução da informação. O mapa do genoma, logo que concluído, é um primeiro passo num longo caminho. Tempos muito excitantes estão à nossa espera», afirma-nos Cynthia Robbins-Roth, que fez carreira na Genentech nos anos 80 e que é considerada hoje uma das consultoras de referência no sector. O seu livro From Achemy to IPO, publicado no ano passado (compra do livro), que narra a primeira vaga da biotecnologia desde final dos anos 70, é um dos «best-sellers» no Silicon Valley.

«Estamos à beira de uma ruptura de enormes proporções na tecnologia. Vamos assistir a um salto quântico. A sequênciação do genoma humano vai criar condições para um novo disparo da biotecnologia. Creio que é uma ideia dos anos 70 que finalmente encontra o momento certo para singrar», refere-nos, por seu lado, Tracy T. Lefteroff, o responsável mundial na PricewaterhouseCoopers pela área das indústrias ligadas às ciências da vida, que está baseada em São José, a «capital» do Silicon Valley.

Tracy LefteroffTracy Lefteroff

«Não me admiraria
se uma empresa
de biotecnologia
comprasse um dia destes
uma grande farmacêutica»

Abertamente polémico, Tracy arrisca dizer aquilo que «as farmacêuticas não irão gostar de ouvir - pode parecer um conceito muito radical, mas não me admiraria se vissemos, no futuro, empresas de biotecnologia, fruto das suas valorizações astronómicas, comprar grupos farmacêuticos, como sucedeu, na nova economia, com a operação da AOL sobre a Time-Warner».

Até à data, só a inversa tem sido verdadeira (por exemplo, a pioneira da biotecnologia, a Genentech, é detida em cerca de 59% pelo grupo Roche) e as biotecnológicas cotadas no NYSE, no NASDAQ ou no AMEX seguem ainda a música da quebra geral.

Empurrão oportuno dado pela genómica

A própria estimativa sobre o número de genes existentes no genoma humano - apenas entre 25 a 35 mil - foi a sorte grande para muitas empresas biotecnológicas que se especializaram na genómica comparada, com base na sequênciação de genomas de «organismos modelo», como da mosca da fruta (com 13600 genes) no ano passado ou da minhoca (com 19 mil) em finais de 1998.

Inicialmente, as estimativas rondavam os 60 a 140 mil genes humanos. O actual número «aproxima-nos» do genoma de outros seres vivos. Contudo, só em 2003 (50º aniversário da descoberta do ADN) será concluído o nosso mapa. Os próximos anos vão assistir, também, à sequênciação do genoma de outros vertebrados (como o rato) e logo se poderá constatar a maior ou menor «proximidade».

Uma das empresas que rejubilou com aquela estimativa foi a Exelixis, localizada na zona industrial do sul de São Francisco, e líder actual em genómica comparada. «Temos trabalhado, desde há seis anos, com organismos-modelo, na ideia de que seriam extremamente relevantes para o desenvolvimento de medicamentos para humanos.

Os artigos científicos agora publicados parecem validar a noção de que os humanos são geneticamente similares a tais organismos», sublinha Mary Callan, directora de desenvolvimento de negócios da Exelixis, uma empresa que se mantém independente, gerindo uma rede de parcerias com grupos farmacêuticos (Bayer, Pharmacia, Bristol-Myers Squibb) e agro-químicos (Dow). Esta empresa mantém uma colaboração com uma start-up portuguesa, a Biotecnol.

Biotecnol no Silicon Valley
A «start-up» portuguesa pioneira na nova vaga da biotecnologia em Portugal iniciou uma estratégia de relacionamento com empresas de ponta no sector da biotecnologia localizadas no Silicon Valley, na Califórnia. A Biotecnol, sedeada no Taguspark, em Oeiras, estabeleceu um protocolo de colaboração científica com a Exelixis e está a estudar uma relação com a Incyte Genomics, também localizada no Vale californiano.
Este relacionamento transatlântico vem na sequência da sua participação numa missão organizada em Outubro passado pelo ICEP a diversas empresas e instituições da área da biotecnologia na designada Área da Baía de São Francisco.
Ao abrigo da colaboração com a Exelixis, a Biotecnol colocou naquela empresa, desde o início de Fevereiro, um estagiário, Pedro Seada, inserido no Programa CONTACTO, também organizado pelo ICEP. «A recente colaboração científica da Biotecnol com a Exelixis, líder mundial em genómica comparada e sistemas genéticos de organismos-modelo in vivo, destina-se a uma troca de informação e ao desenvolvimento de tecnologia no âmbito de projectos que visam a reconstrução de vias metabólicas in silico em microorganismos de interesse industrial e em tecidos humanos cancerosos», referiu-nos Pedro Pissarra, o fundador da empresa.
Por seu lado, a aproximação à Incyte deriva da complementaridade da sua tecnologia.
Recorde-se que a Biotecnol é participada pelo grupo Mello em termos de «corporate venturing» e que ainda recentemente foi citada num artigo («Betting on Biogenerics») pela revista Nature Biotechnology (a publicação especializada da consagrada revista Nature para esta área - vol.19, nº2, Fevereiro de 2001) como uma das empresas europeias com grande potêncial nos bio-genéricos do futuro.

Segmentação ao rubro para um bolo de 4 mil milhões

Outro dos impactos da sequência do genoma humano é «o impulso que vai dar a segmentos de negócio como a terapia genética e o bio-diagnóstico», diz-nos o professor Barry Ross, o CEO e director científico do Affimax Research Institute, sedeado em Santa Clara, que é hoje um centro de «descobertas» para o grupo Glaxo Smith Kline. Um dos «spin-offs» mais antigos foi a Affymetrix (criada em 1991), uma das «estrelas» do segmento dos «bio-chips» de diagnóstico.

Para Barry Ross, a sequênciação abre agora a porta para o passo seguinte, de enorme impacto económico: «Podemos passar a focalizar-mo-nos na área das proteínas produzidas pelos genes e desenvolver tecnologia que o permita fazer à escala 'industrial'».

Um estudo da Lehman Brothers prevê que a biotecnologia atinja uma facturação anual de 4 mil milhões de dólares em 2005, começando já a desenharem-se os principais segmentos de negócio. Ainda que hajam divergências sobre a hierarquização da importância, algumas áreas assumem relevância neste novo mercado: o que se designa por proteonómica (em torno das proteínas); o diagnóstico; a bio-informática; a comercialização de bases de dados genéticos (a criação de portais b2b está na calha); e a terapia genética com o lançamento de bio-medicamentos.

Grande parte da maturidade do sector dependerá da sua capacidade em lançar vagas sucessivas de produtos farmacêuticos próprios, alternativos à farmacopeia estabelecida. Mais de 350 bio-produtos estão hoje em testes clínicos, incluindo um tratamento contra a anemia (pela Amgen, a líder do mercado biotecnológico, também californiana) e um tratamento injectável contra a asma (pela Genentech e a Novartis). É estimado que a Food and Drug Administration norte-americana venha a aprovar uma média de 20 a 30 novos bio-medicamentos por ano.

A Genentech, cujo imponente «campus» domina a Baía no lado sul de São Francisco (na foto encimando o artigo), desde 1996 que definiu a oncologia como a área estratégica, esperando em 2003 ter 50% da sua facturação em bio-produtos dirigidos ao cancro.

A Baía de São Francisco e o Silicon Valley são reconhecidos como a região de maior concentração de capital biotecnológico no mundo. Mais de 650 empresas empregam directamente 80 mil pessoas, envolvendo um tecido económico que emprega globalmente 250 mil empregados.

CLONAGEM HUMANA EM FOCO
Capa da edição de Fevereiro/2001 da revista WiredQuase em simultâneo com a publicação das primeiras estimativas sobre o número de genes humanos, o tema da «clonagem» humana reprodutiva foi subitamente catapultado para a ribalta - não em revistas especulativas de duvidosa idoneidade, mas na «Time» (capa da edição da semana de 19/02/2001, traduzido na revista portuguesa «Visão» de 15/02/2001) e na «Wired» (capa da edição de Fevereiro 2001). O marketing social de preparação da opinião pública para a «iminência» deste evento científico - potencialmente concretizável ainda este ano, segundo algumas declarações de que aquelas revistas se fazem eco - entrou no «sprint» final. A mensagem jornalística, com base nas diversas reportagens realizadas e opiniões recolhidas, é que «a clonagem humana se tornou inevitável, e será feita por alguém, nalgum lugar».
Quer a «Time», quer a «Wired» citam inclusive projectos mais controversos, como o da «Clonaid» ligada à seita dos raelianos, e referem múltiplos pedidos de «clonagem» reprodutiva humana por razões quase «à la carte».
A polémica que estalou tem confundido, por vezes, a «clonagem» humana terapêutica (que possibilita a replicação de células humanas adultas para «criação» de tecidos, orgãos e medicamentos para terapia genética ou para a área da proteonómica) com a «clonagem» reprodutiva de seres humanos, e muitos cientistas temem que, nessa confusão, se acabe por deitar fora o bébé com a água suja do banho.
Apesar da «linearidade» tecnológica que se pretende estabelecer, entre a «facilidade» que teria sido «clonar» a famosa ovelhinha «Dolly» na Escócia a partir de uma célula adulta de um mamífero e a «clonagem» humana reprodutiva, o problema experimental é complexo («Dolly» só saíu ao fim de 277 tentativas e parece estar a envelhecer precocemente) e as questões éticas e políticas são pertinentes, apesar da impressionante mudança ocorrida nas mentalidades.
O primeiro «bébé-proveta», fruto da fertilização humana artificial, era algo de inconcebível há 30/40 anos atrás, e, no entanto, Louise Brown nasceu por essa via em 1978 e o método massificou-se e resolveu dramáticos problemas de infertilidade. O partido do «sim» à clonagem humana reprodutiva argumenta que o mesmo se passará desta vez e que o método será rotina no futuro.
O prognóstico de Arthur C. Clarke do arranque de um projecto de clonagem humana para 2004 parece estar a ser ultrapassado. Mesmo o 50º aniversário da descoberta da estrutura do ADN (que ocorrerá em Abril de 2003) poderá ser «eclipsado» com um evento antecipado deste tipo.
James Watson, um dos cientistas que descobriu a «hélice» do ADN em 1953 e que ganharia o Nobel em 1962 por esse feito (em parceria com Francis Crick e Maurice Wilkins), escreveu em Maio de 1971 um ensaio premonitório na revista de Boston «The Atlantic Monthly» (volume 227, nº 5), intitulado «Moving Toward Clonal Man - Is this what we want?», onde previa uma primeira clonagem humana ainda no final do século XX. Watson terá falhado por quantos anos?
Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal