O berço da globalização

Um americano e um brasileiro apresentaram na Áustria a tese de que os Portugueses de Quinhentos lançaram a primeira vaga de "contracção" do planeta, apoiados em duas gerações de inovações tecnológicas e geo-estratégicas.

Jorge Nascimento Rodrigues em Laxenburg, Março de 2006

Modelski e Devezas em Laxenburg

A globalização foi uma inovação dos portugueses. Apesar das tentativas geo-estratégicas chinesas e mongóis dos séculos X a XV, foram os portugueses que inauguraram a globalização como um processo evolutivo de criação de um sistema mundial de 1415 até 1578.

Faltou "algo" aos projectos mongóis de "império mundial" e às expedições marítimas no Índico e Atlântico do almirante Zheng He, na dinastia Ming, entre 1405 e 1435, bem como às Repúblicas marítimas de Génova e Veneza que dominaram o Mediterrâneo nos séculos XIII e XIV.

Permanece, também, em muita literatura recente, a identificação errónea do "take off" da globalização com as viagens de Cristóvão Colombo às Caraíbas (1492-1503) e de circum-navegação de Fernão de Magalhães (1519-1521), ambas ao serviço de Espanha.

A tese dos portugueses como primeiros globalizadores foi apresentada em Março de 2006 pelo americano George Modelski e pelo brasileiro Tessaleno Devezas - professor na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã - no ambiente bucólico de um dos palácios de Verão dos Habsburgos, em Laxenburg, a 16 quilómetros de Viena, de Áustria. O castelo, onde viveu a jovem "Kaiserin" Elizabeth - mais conhecida por Sisi - é desde 1973 a sede do International Institute for Applied Systems Analysis (LINKAR http://www.iiasa.ac.at/). O estudo, intitulado "The Portuguese as system builders in the XVth-XVIth centuries: A case study in the role of technology in the evolution of the world system", foi um dos pontos altos da Conferência "Globalização como um processo evolutivo", apoiada pela Fundação Gulbenkian e que reuniu 25 investigadores de todo o mundo especializados no tema.

O ponto de vista de Modelski e Devezas é que a globalização "é um processo histórico longo de evolução do sistema mundial, que é multidimensional". É prejudicial, por isso, reduzi-lo apenas à vertente geo-económica (comércio de "commodities" e fluxos de investimento internacionais) ou datá-lo a partir do século XIX com o crescimento do imperialismo europeu posterior à Revolução Industrial. O primeiro uso do conceito "global" apareceu em 1892 nas páginas da revista Harper´s e em 1961 globalização entrou no dicionário Webster, acabando por destronar nos anos 1970 o termo francês "mundialização". Desde os anos 1980 tornou-se uma "buzzword" - há mais de 5 mil títulos publicados e no Google podemos encontrar, só em quatro idiomas (inglês, francês, castelhano e português), mais de 170 milhões de entradas.

Fractura histórica

Os dois investigadores argumentam que a globalização foi um processo de aprendizagem que emergiu e amadureceu ao longo de vários séculos e que tem o seu berço numa "fractura histórica" inovadora provocada pelos portugueses desde os tempos do monarca João I e do príncipe Henrique, o Navegador. O investigador John L. Casti, do Círculo vienense Kenos, atribuiu aos portugueses uma mudança de estado de espírito, de valores - um novo "mood" -, que conduziu à globalização como fenómeno social.

Mas a globalização só foi possível porque ocorreu uma "clusterização" de inovações tecnológicas e geo-estratégicas realizadas pelos portugueses. Modelski e Devezas, baseados numa recolha histórica feita por um grupo de alunos da UBI, verificaram que os portugueses geraram uma série de "descontinuidades", como a caravela, o princípio do nónio, a balestilha, a medição da altura, a nau e a rede de bases geo-estratégicas ao longo das duas rotas do Atlântico e do Índico, com capacidade de controlo exclusivo da navegação e de projecção de poder (desde os tempos da doutrina do "Maré Clausum"). Os dois especialistas classificam-nas de inovações "pré-schumpeterianas" que, no entanto, desenharam um padrão cíclico similar às vagas longas de Kondratieff (aplicadas à Revolução Industrial).

Henrique, o Navegador, lançou, provavelmente, o primeiro empreendimento de gestão do conhecimento de projecção global com a famosa "Escola de Sagres", a que se seguiram o "Regimento do Astrolábio e do Quadrante", a "Arte Náutica" e o "Livro da Fábrica das Naus". Os portugueses foram os primeiros a "colar" um empenho científico sistemático no processo geo-estratégico em que se envolveram, sublinha o estudo apresentado em Viena. Alex MacGillivray, autor da recente obra Breve História da Globalização, considera o projecto de Sagres como "o equivalente ao Cabo Canaveral da NASA nos anos 1960".

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