Silicon Valley testa protótipos em Portugal

Os casos do uso do AutoCad na Expo 98 e do interesse da TVCabo pela WebTV
foram referidos pela líder da Autodesk e por responsáveis da WebTV Networks/Microsoft

Jorge Nascimento Rodrigues em Cupertino

Carol Bartz Portugal está a ganhar visibilidade como banco de ensaios de soluções inovadoras da economia digital. Dois casos recentes que envolveram empresas do Silicon Valley e projectos no nosso país ilustram esta tendência, que, a ser devidamente explorada, pode transformar-se num factor de diferenciação competitiva, como pudemos constatar nas visitas que fizemos à Autodesk e à WebTV Networks, a convite da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

A utilização pioneira de ferramentas de design para grandes projectos de arquitectura, engenharia e construção transformou a EXPO 98 num caso de estudo internacional para o 'portfolio' da Autodesk, a empresa californiana líder na área do desenho assistido por computador (CAD). O exemplo pegou e a obra do Metro do Porto em curso seguiu também a mesma metodologia de digitalização e utilização destas ferramentas.

Noutro registo diferente, o recente interesse da TV Cabo portuguesa pelas soluções de WebTV (uma tecnologia de convergência entre a televisão e a Internet e a Web, desenvolvida por uma empresa do Silicon Valley que foi comprada pela Microsoft) pode originar um projecto de implementação deste tipo de serviços que estará entre os dois primeiros a nível europeu.

O herói invísivel da EXPO 98

Menos badalada mediaticamente, a utilização das ferramentas de CAD no projecto da EXPO 98 foi «um salto arrojado», refere-nos Carol Bartz, a presidente da Autodesk, que nos recebeu nas Torres Gémeas de Cupertino. «É um dos principais exemplos que temos de aplicação das nossas ferramentas a projectos daquela envergadura e foi o primeiro caso em termos de exposições mundiais», prossegue Bartz, que é considerada uma das cinco mulheres mais influentes da Bay Area de São Francisco, com assento na California Business Roundtable e na Comissão de Exportação do Presidente Clinton. «Foi a primeira Expo a ser desenhada totalmente em formato digital e a desenvolver todo o plano de urbanização, das infraestruturas e dos projectos de edificios, bem como todo o marketing e informação baseado nestas ferramentas modernas», acentua a nossa interlocutora, que sublinha ainda o facto desta experiência ter sido transformada já em «case study».

O pioneirismo da EXPO foi, aliás, agora ressaltado por um trabalho de reportagem intitulado 'A Tale of Two Cities' publicado na edição de Junho da Computer Graphics World (volume 22, nº6), a revista de referência internacional do sector.

 Visite aqui no 'site' da Computer Graphics World 
a edição de Junho 1999

«Os clássicos estiradores foram substituídos por estações de trabalho. Estávamos há seis anos atrás, o que provocou uma verdadeira revolução no modo de trabalhar típico deste sector e representou uma situação ímpar na história de grandes projectos no nosso país», adianta Jorge Horta, o responsável da Autodesk em Portugal. O homem no centro desta opção foi José da Conceição e Silva, um especialista do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), de Lisboa, requesitado para a Parque Expo para responsável pelo Departamento de CAD, GIS, Web e Multimedia.

A galáxia digital

A tentativa de massificação do uso da Internet e da World Wide Web tem aberto inúmeras oportunidades de negócio, impensáveis há alguns anos atrás. Atingir prioritariamente o público que não tem uma 'cultura PC' é um dos objectivos da WebTV Networks, uma empresa criada em 1995 por gente vinda da Apple e da General Magic.

Também, gerar um «plus» para os momentos em que todos estamos em frente da pantalha, foi o que motivou a criação de um écran onde se mistura a programação televisiva com o correio electrónico, a possibilidade de navegar na Web em assuntos correlacionados, mesmo fazer compras a propósito, criar a sua própria página na Web, ou entreter os miúdos com jogos.

A ideia de negócio era criar uma extensão natural da experiência televisiva mergulhando-a no novo mundo da Web então nascente. «É criar uma cultura do sofá com banda larga», ironiza Rita Brogley, directora para os negócios na Europa, que tem acompanhado o projecto com a TV Cabo portuguesa.

A empresa viria a lançar o primeiro terminal de WebTV em Outubro de 1996 e menos de um ano depois entrava para o universo Microsoft, que, entretanto, já havia feito a guinda estratégica para a Web. Percebendo a oportunidade de meter o digital nos lares por outra via que não o PC, a empresa de Bill Gates desenvolveu uma nova plataforma tecnológica de software, que anunciou esta semana (a 14 de Junho de 1999).

Denominada «TVPak» (TV Platform Adaptation Kit), ela junta à experiência pioneira da WebTV Networks uma oferta mais ampla que poderá ser adaptada à medida por operadores e outros actores dos media.

Na fila de interessados está uma das operadoras de cabo portuguesas. «O projecto com a TV Cabo vai ser um protótipo na Europa pois será uma das primeiras implementações de tecnologia Web no vosso continente. Acresce que partilhamos uma visão similar quanto ao desenvolvimento de serviços interactivos para os consumidores. Dada a expressão de mercado da TV Cabo poderá ser um banco de ensaio interessante para o teste de vários serviços», explica Rita Brogley, que nos recebeu em Mountain View.

 Se quiser fazer uma simulação de WebTV no seu PC 
clique aqui no WebTV Viewer

Luis Azeredo, director da área Internet na Microsoft em Portugal, reforça esta opinião, adiantando que a reacção da TVCabo à nova oferta tecnológica foi muito positiva e que tudo se prepara para que, no primeiro trimestre do ano 2000, a oferta de uma solução do tipo WebTV esteja nos lares portugueses.

Esta tendência para a 'invasão' da Web em todos os nosso electrodomésticos e aparelhos do dia-a-dia é o começo do que Don Normam, um visionário do Silicon Valley, arauto do design tecnológico centrado no Homem, pinta como uma galáxia digital. «Aquilo que até à data só se podia fazer com um PC passa a poder ser generalizado através de múltiplos aparelhos com funções específicas», diz este guru do 'movimento pós-PC', e que recentemente lançou um livro sugestivamente intitulado O Computador Invísivel (compra do livro).

Hewlett Packard dá nota «A+» ao Link (INESC Consultadoria)
Warren Greving Uma equipa do INESC (hoje rebaptizado Link, na área da consultadoria) ajudou a Hewlett-Packard (HP), no ano passado, a lançar, a tempo, no mercado uma solução da sua família «Chaì» baseada na linguagem Java. «A equipa portuguesa revelou-se a escolha certa e se a tivesse de classificar, dando notas, diria que o grupo de José Rogado no Link merece um 'A+' em termos internacionais», refere-nos Warren Greving, chefe do departamento da HP relacionado com o software embebido, que nos recebeu num dos 'campus' da empresa em Cupertino, no Silicon Valley.
No 'informatiquês' típico destes profissionais, a HP lançou em 1998 uma máquina virtual (Chaì VM) baseada em Java para sistemas embebidos. Trata-se de um software que permite executar operações, escritas naquela linguagem, em sistemas de pequeno porte, que usamos todos os dias, como impressoras, «routers», dispositivos fabris, telemóveis e agendas digitais (denominadas 'assistentes pessoais').
O especialista da HP ficou impressionado com «a notável capacidade de resposta em termos de prazos e na forma de trabalhar cooperativamente do grupo português». Muito do trabalho foi, naturalmente, feito à distância, entre Lisboa e Cupertino. Warren Greving refere que encontrou no Link a exemplificação do que são os factores de vantagem competitiva típicos numa equipa de investigação: «Primeiro, o cumprimento de prazos haja o que houver. Como sabe, o tempo de chegada ao mercado, na economia digital, é uma questão crítica. Em segundo lugar, a capacidade de manter os custos orçamentados sob um controlo estrito, sem derrapagens ao longo do projecto. E, finalmente, a estabilidade da equipa, o que nem sempre acontece neste meio do software em que há uma grande mobilidade de profissionais».
Por seu lado, para José Rogado, da Link, o envolvimento na máquina virtual da HP permitiu «uma projecção internacional do nosso 'know-how' na área e passarmos a ser considerados com capacidade de cumprimento de tarefas de elevado grau crítico dentro de prazos rigorosos e com estritas regras de confidencialidade».
Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal