O abalo anunciado no B2B

Referências do pioneirismo no comércio electrónico inter-empresas nos Estados Unidos, como a Covisint, a VerticalNet, a Ventro e a FreeMarkets, iniciaram movimentos de reposicionamento estratégico.
Os modelos de negócio de «business to business» da primeira geração parecem estar a ficar obsoletos, ao fim de dois anos.
Computação distribuída, portais entre «pares», «e-especuladores», «preparadores especializados» de transacções, «B2b» (focalizados nas pequenas empresas) e tantos outros nomes para o mesmo jogo – o de se ganhar dinheiro na Web – surgem na literatura especializada.
Tome Nota, pois eles vão marcar 2001.

Uma análise de Jorge Nascimento Rodrigues

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

Os 10 Mais da facturação no B2B (segundo Jupiter Research para 3º trimestre de 2000)
Tendências emergentes para 2001
Artigo de Richard Wise na Harvard Business Review de Nov/Dez 2000 - «Beyond The Exchange:The future of B2B»
Dossier da revista Red Herring sobre Computação Distribuída (Briefing: Peer-to-Peer, 4/12/00
Outros artigos na Mini-Enciclopédia sobre Modelos de E-Business na Janelanaweb.com
Entrevista com Richard Wise no Radar de Tendências nº3
Entrevista com Gene Kan, líder da InfraSearch e do Gnutella, nos Alquimistas do Digital nº 9

A primeira geração de modelos de negócio no comércio electrónico entre empresas - designado no calão por «business to business», ou abreviadamente B2B - está sob o fogo cerrado da avaliação dos seus resultados na América do Norte, apesar de ainda estar na adolescência.

Alguns especialistas arriscam já considerar obsoleta uma boa parte desses modelos, ao fim de, apenas, dois anos de vida (quatorze, em tempo Internet). Tudo indica que não chegarão à «Idade da Razão».

O panorama dos «eMarketplaces» está em mudança muito rápida e anunciam-se para 2001 novos modelos que foram baptizados com nomes estranhos, à primeira vista, como «e-especuladores», «originadores de transacções», «portais entre pares», e outros, como mais adiante se verá.

Vaga de reposicionamento

Um dos casos recentes que tem despertado mais curiosidade é o da Covisint LLC, a «joint-venture» entre os grandes construtores mundias de automóvel (DaimlerChrysler AG, Ford, GM, Nissan e Renault) para o fomento do B2B no seu sector.

Ideia-chave: Lucro deitado para o caixote do lixo

Apontada como o modelo de «eMarketplace» vertical (focalizado numa indústria ou sector) por excelência, os analistas detectam o começo de um reposicionamento estratégico em que a função lucro está a ser deitada para o caixote do lixo.

«Os patrocinadores deste tipo de projectos começaram a verificar que a possibilidade de margens de lucro interessantes e sustentadas são muito remotas. Estão a virar-se para a transformação destas mega-plataformas em estruturas colaborativas sem fins lucrativos, orientadas para a resolução dos problemas do sector», refere-nos Richard Wise, da Mercer Management Consulting, que acaba de publicar, com o seu colega David Morrison (o consagrado autor de Profit Zone em 1998, Profit Patterns em 1999 e How Digital is your Business? em 2000), um artigo na última edição de 2000 (Novembro/Dezembro, volume 78, nº 6) da prestigiada revista Harvard Business Review que caíu como uma bomba.

Artigo de Richard Wise e David Morrison - «Beyond the Exchange: The Future of B2B», Harvard Business Review, November/December 2000, volume 78, nº 6
MUITO RECOMENDADO

Ideia-chave: Falhas estruturais no B2B de primeira geração

«Há falhas estruturais na concepção dos modelos da primeira geração do B2B», prossegue Wise, que adverte: «O tempo das desilusões começa agora». E, com ele, a hora de decisões difíceis quando se constata que não haverá «rendas ricardianas» (expressão oriunda do célebre economista inglês do virar do século XVIII para o XIX David Ricardo) a prazo geradas por estes cibernegócios.

DEZ MAIS NO B2B
(segundo volume de facturação no 3 trimestre de 2000)
1 -  Onvia.com - B2b (small business exchange)
2 -  VerticalNet.com - multi-sectorial (14 áreas)
3 -  VirtualChip.com - vertical na electrónica
4 -  Ventro.com - portfolio de mercados nas ciências da vida (em refocalização)
5 -  FreeMarkets.com - evolução para «preparador especialista»
6 -  eSpeed.com - vertical na electrónica
7 -  SciQuest.com - vertical para equipamento científico
8 -  GlobalSources.com - agregador de procura de grande volume
9 -  TestMart.com - vertical de equipamento científico
10 -  Neofarma.com - vertical para a área da saúde
Fonte: Jupiter Research, in www.nmm.com, Net Market Maker

TENDÊNCIAS NO B2B
  • Impacto da computação distribuída no B2B com o surgimento de «portais de 'pares'» baseados no conceito de «B2P» (business-to-peer), uma plataforma sem agregador ou facilitador central
  • Surgimento de fornecedores de serviços de alocação de recursos computacionais disponíveis numa rede distribuída para sectores com exigências de supercomputação, como biotecnologia, serviços financeiros, motores de pesquisa, CAD
  • Secundarização do papel mediático dos B2B generalistas, reposicionamento em mercados verticais
  • Transformação dos B2B verticais patrocinados por grandes grupos em estruturas colaborativas do sector sem fins lucrativos
  • Percepção de que a política de esmagamento do preço junto do fornecedor é estrategicamente «liquidacionista»
  • Surgimento de plataformas focalizadas no segmento do pequeno negócio - emergência do B2b («business to small business»)
  • Aparecimento de quatro novos modelos de negócio no B2B: especulativo; fornecimento de soluções; optimizadores de activos em mercados de oferta fragmentada; especialistas «preparadores» e «encaminhadores» de transacções
  • Decisão dolorosa foi o que aconteceu na semana passada com a Ventro.com, um dos «chapéus» do B2B de referência em áreas como a das ciências da vida, e que se encontra entre os lugares cimeiros da facturação este ano (ver quadro). A Ventro anunciou a reestruturação das suas operações no comércio electrónico, decidindo fechar até Março de 2001 o conhecido «eMarketplace» Chemdex.com (que acabara de receber um prémio) e um outro menos badalado, o Promedix.com, até princípio de Janeiro de 2001.

    O fornecedor de soluções - O mais espantoso foi o reposicionamento anunciado – a Ventro.com (que ainda conserva no seu portfólio quatro outros mercados especializados) reorientar-se-á para o modelo de negócio de fornecimento de serviços e soluções aos «eMarketplaces», em vez de lançar e operar essas plataformas.

    Richard Wise sublinha inclusive que esse é um dos novos quatro modelos de negócio no B2B em clara ascensão – o dos fornecedores de soluções, em que se destacam os orientados para as pequenas empresas, que já foram apelidados de «B2b» (em que o segundo b, em minúsculas, significa «small business»), e os recém-nascidos em áreas tão complexas como a financeira.

    Neste útimo caso, saliente-se, esta semana, o lançamento, na Europa, do www.efundbox.com (do grupo Farrods), virado para o fornecimento de soluções para plataformas «on-line» de negociação de Fundos (20% das vendas totais serão feitas via Web em 2003) entre entidades do sector.

    Não será de estranhar, também, que o B2B que mais facturou em 2000 até à data (vide os «Dez Mais»), segundo a Jupiter Research) seja a ONVIA, um mercado electrónico que se auto-cognominou de «small business exchange».

    Estranha forma de vida

    O reposicionamento estratégico noutros casos ainda surpreende mais. Surgem estranhas formas de ganhar dinheiro no B2B.

    O «e-speculador» - O que se está a passar com a Enron, na área energética, é um sinal do que outros grandes grupos poderão vir a fazer. Com o lançamento da Enrononline.com, o grupo meteu-se na área da pura especulação com o «trading» via Web entre empresas. Segundo Wise, transaccionam-se 1,5 mil milhões de dólares em derivados por dia através desta plataforma!

    Em suma, os «e-speculadores» (como os baptizou Wise no artigo da Harvard Business Review) fizeram o seu aparecimento em força no palco do B2B. São um óptimo «braço armado», autónomo, dos mega-mercados para ganhar dinheiro, revela Wise.

    O «encaminhador especialista» - Por outro lado, FreeMarkets.com, um outro conhecido «eMarketplace» para a indústria, está a mover-se para uma posição de «especialista» que «origina» e «prepara» transacções em sectores onde a procura de produtos é tecnicamente muito complexa e em que os montantes envolvidos por unidade são altos. O movimento é no sentido de deixar de considerar vital a operação dos leilões e «exchanges» que promove e de se concentrar em ganhar dinheiro «encaminhando» os seus clientes para outros «eMarketplaces» com quem negoceia acordos preferênciais.

    Este «encaminhamento» com a «papa já feita» rende, naturalmente, honorários pagos por «eMarketplaces» e vendedores.

    O optimizador de activos - Um outro modelo emergente é o de procurar resolver problemas em mercados em que a oferta está muito fragmentada - como o dos transportes, o dos moldes e o da construção, nomeadamente - agregando-a numa plataforma electrónica fechada, no sentido de optimizar os activos dos seus participantes (por exemplo: espaço de carga nos TIR).

    Entrevista com Richard Wise sobre as mudanças no B2B
    na secção «Radar de Tendências» da janelanaweb.com

    O terramoto do B2P

    Ainda sem se conhecerem os contornos do impacto que vai ter no B2B, a literatura especializada começou a lançar mais uma «buzzword» - o «business to peer» (ou B2P), fruto do efeito da emergência da computação distribuída, tida como uma das «tecnologias de ruptura» em 2001 e 2002. Esta possibilidade técnica de facilitação directa e permanente a conteúdos ou produtos e serviços residentes em qualquer ponto de uma rede, sem um filtro centralizado, promete reduzir de 1/10 a 1/20 os custos em computação e um crescimento exponêncial da produtividade.

    Portal entre pares (peer portal) - «É o regresso ao espírito inicial da Web de interacção pessoal entre os utilizadores, pessoa-a-pessoa», escrevem os mais entusiastas. Andrew McAfee, da Faculdade de Tecnologia e Gestão de Operações (Faculty of Technology and Operations Management) da Harvard Business School, referiu recentemente na Harvard Business Review (na já referida edição de Novembro/Dezembro 2000, na secção «Forethought», numa nota intitulada sugestivamente: «The Napsterization of B2B»), o surgimento de um novo tipo de portal na área do B2B, que designou de «portal entre pares» («peer portal»). Trata-se de uma plataforma electrónica sem agregador ou facilitador centralizado.

    A atenção para estas possibilidades surgiu com o efeito do Napster (o famoso programa de troca de ficheiros de música em formato MP3). Os programadores entraram, então, numa rota mais ambiciosa e um dos movimentos mais fortes no campo da computação distribuída é o Gnutella (com um portal em www.gnutella.wego.com). «A nossa tecnologia não é uma ferramenta de piratear música», sublinha-nos, com ênfase, Gene Kan, de 24 anos, um dos gestores do portal e um dos empreendedores pioneiros no Silicon Valley no lançamento de «start-ups» para esta nova área.

    Gene Kan, líder da InfraSearch, apenas criada há seis meses, vai lançar até final do ano um motor de pesquisa dinâmico «absolutamente revolucionário» e cujas «implicações» para o B2B vão ser óbvias em 2001. Um lote de empresas no vale californiano criadas em 1999 e 2000 estão já nesse mesmo trilho - OpenCola, Kalepa, LightShare e Flycode.

    Entrevista com Gene Kan na secção Alquimistas do Digital na Janela na Web
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