Corredor Industrial de Aveiro em renovação
sob o signo dos componentes de automóvel

Quarenta minutos chegam para atravessar, sem stresse, um dos mais característicos «corredores industriais» do nosso país centrado na região
de Aveiro. Um dos seus pontos fortes é a aglomeração, num espaço geográfico contínuo e não muito longo, de um tecido industrial muito diversificado e animado por um forte empreendedorismo.

Jorge Nascimento Rodrigues numa mesa redonda organizada
pela Agência para o Investimento no Norte de Portugal

Entidades e empresas referidas
Revigres | Universidade de Aveiro

Outras regiões portuguesas visitadas
Reportagem anterior em Aveiro: O vício das tecnologias no sangue

Apesar destas condições quase únicas, «falta a este espaço um verdadeiro sentido de pertença, havendo importantes dinâmicas centrífugas quer para norte como para sul», refere-nos Jorge Alves, vice-reitor da Universidade de Aveiro e gerente do GrupUnave, uma entidade de génese universitária virada para a envolvente económica.

Este professor universitário considera que o "corredor" teria tudo a ganhar, no plano estratégico, se «os empreendedores e os quadros se revissem numa imagem de região e entendessem que a diversidade de especializações é a sua maior capacidade» e deixa no ar a necessidade de «uma estrutura regional de base empresarial».

Oportunidade histórica

A própria dinâmica de desenvolvimento com a Galiza de uma Euroregião abrangendo o Norte de Portugal, requer dos diversos espaços geográficos nortenhos existentes (alguns dos quais temos vindo a abordar noutras mesas redondas organizadas pelo Portugal que Mexe) a procura de uma individualidade e diferenciação. A oportunidade de Aveiro parece estar, agora, na afirmação de um papel estratégico no "cluster" ibérico do automóvel e na inovação sistemática como trunfo do "made in Portugal", como está a suceder ultimamente na cerâmica de revestimentos e louça sanitária e utilitária.

Repartido por diversas especializações históricas, como a cortiça (Santa Maria da Feira), o calçado (São João da Madeira), os moldes e plásticos (Oliveira de Azeméis), a cerâmica (Águeda e Aveiro) e as telecomunicações e electrónica (Aveiro - de que já falámos em reportagem anterior), o "corredor" nortenho está a sofrer uma profunda renovação em virtude de cinco movimentos:
- o impacto do emergente "cluster" português dos componentes de automóvel, que irá sediar o seu Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel (CEIIA) no Portus Park, um parque de Ciência e Tecnologia a nascer junto ao Europarque, em Santa Maria da Feira;
- o papel de alavanca da área de componentes do grupo Simoldes, localizado em Oliveira de Azeméis;
- a renovação do sector cerâmico, em que se destacam nomeadamente a Revigrés, de Águeda, ou a Vista Alegre nas porcelanas;
- a estruturação de uma rede de fornecedores locais da hoje designada PT Inovação (ex-CET);
- e, finalmente, o papel crescente da Universidade de Aveiro como polo dinamizador da renovação de talentos e de um ambiente de rupturas inovadoras (de recordar que o hoje famoso portal «Sapo» nasceu nesta universidade. A Universidade poderá inclusive desempenhar um papel importante no relacionamento com o Portus Park e o Parque Tecnológico de Cantanhede (na região de Coimbra).

Localizar a Norte

O signo do automóvel parece ir marcar os próximos cinco anos do sector de componentes português. «Entrámos numa terceira fase, depois da implantação da Renault nos anos 80 e do florescimento da Auto-Europa nos anos 90. Portugal necessita de dar agora um novo passo de consolidação de uma indústria de componentes, como já o fez a Espanha, e nomeadamente o nosso vizinho, a Galiza, e de ser capaz de atrair a fixação de centros de desenvolvimento de multinacionais», sublinha Bernardo Macedo, 43 anos, um industrial de componentes que é presidente do CEIIA.

«É fundamental que esses novos projectos se situem a Norte do país, que haja a vontade política de diversificação, como em Espanha. Estamos totalmente empenhados em que isso aconteça», acrescenta Rui Paulo Rodrigues, 33 anos, vice-presidente do grupo Simoldes, filho do fundador António Rodrigues. O grupo venderá, este ano, só na área de componentes 175 milhões de euros (35 milhões de contos) através da Simoldes Plásticos num segmento que factura globalmente 400 milhões de euros (80 milhões de contos) à escala nacional, estando 60% situado a Norte. O seu posicionamento no "cluster" europeu é já reconhecido internacionalmente. Rui Paulo frequenta os CEO das grandes construtoras mundiais, vai abrir em breve uma unidade em Barcelona e outra na Polónia e está à procura de adquirir um grupo na Alemanha.

As palavras dos nossos interlocutores ganham mais peso se tivermos em conta que esta semana (Setembro de 2001) Sérgio Pininfarina (o líder do grupo italiano de design e inovação automóvel) se reuniu em Sintra com o ministro da Economia português, Braga da Cruz, para realizar um balanço do andamento do designado projecto "P3", que visa a construção no nosso país de um veículo "híbrido" para vários nichos de consumidores, em que a participação de empresas portuguesas teria um peso importante nas áreas chave de design, desenvolvimento e engenharia de componentes. «Hoje em dia temos potencialidades para fornecer 50 a 60% dos componentes típicos de um automóvel», remata Rui Paulo.

Vício de inovar

A região, no entanto, não vive só deste élan criado pela dinâmica do automóvel. Os seus sectores históricos de especialização viram-se para «o vício de inovar», refere-nos, por seu lado, Ana Paula Roque, 36 anos, filha de Adolfo Roque, o fundador da Revigrés, uma das 50 empresas da região no sector da cerâmica.

Para se diferenciar num mercado de concorrência muito agressiva - e nomeadamente trazida pelos espanhóis no nosso próprio mercado doméstico -, a Revigrés adoptou uma estratégia de lançamento de novos produtos que atinge uma taxa de 30 a 40% por ano e lançou-se nomeadamente numa nova área, desde 1999, a do grés porcelânico, tendo criado uma empresa específica para esse segmento. «A cerâmica vale no corredor de Aveiro 300 milhões de euros (60 milhões de contos), mas a imagem do nosso país e da região ainda não está associada à cerâmica de qualidade e design, como em Itália», lamenta Ana Paula

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