AVEIRO O vício da Tecnologia nas veias

Desde há muito referenciada no mapa da tecnologia e da massa cinzenta nacional pelo CET de Aveiro (hoje ligado à Portugal Telecom) e pelo SAPO, o primeiro apontador português (por ironia do destino, hoje também nas mãos da PT), nascido na Universidade local, a cidade da Ria, dos moliceiros, dos ovos moles e das faianças da Vista Alegre, volta a estar na ribalta mostrando o que vale o seu vício pela tecnologia

Jorge Nascimento Rodrigues com o Noticias de Aveiro e a GrupUNAVE e a presença dos jornalistas aveirenses Júlio Almeida, editor do Noticias e João Oliveira do Semanário Litoral

2ª Iniciativa do «O Portugal que Mexe» (Abril 2000) pelo Ardina na Web

Versão reduzida publicada no Expresso de 15/04/2000

Empresas Participantes
Byblos, parceiro da Janela na Web
 Ciberguia | Netual | Medialink | Micro I/O | CET de Aveiro 

Incubadoras em Aveiro - Informações
ANJE-Aveiro, Artur Curado
 Gabinete Universidade-Empresas da Universidade de Aveiro 

Mesa Redonda em Aveiro

Destaque Fora de Portas
 Cantanhede na Rota de um Parque Tecnológico 

O vício da Tecnologia corre nas veias de Aveiro, é o mínimo que se pode concluir de uma mesa redonda com sete empresas ligadas ou nascidas com a vaga da nova economia desde meados dos anos 90, organizada pela Janela na Web em colaboração com a GrupUNAVE, uma empresa ligada à Universidade de Aveiro, e o Noticias de Aveiro, um projecto jornalístico local exclusivamente na Web.

Esta pequena amostra representava um universo de 30 empresas directamente ligadas aos novos negócios e que envolverá mais de um milhão de contos de facturação no final deste ano, incluindo, nestes números, o «keiretsu» local da Portugal Telecom Inovação que dá contratos no valor de 400 mil contos a 16 empresas na região.

Tal como a Ria, o moliceiro, a faiança da Vista Alegre e os ovos moles, o que se convencionou chamar de «novas tecnologias» também está no «ADN» desta cidade litoral.

Os mais recentes feitos no campo da Internet e da Web, com o pioneirismo do «ex-libris» que foi o SAPO - o primeiro serviço de apontadores português - nascido da carolice e das noites de insónia de estudantes na Universidade de Aveiro, são filhos deste «clima».

 Veja aqui a história do nascimento do SAPO contada pelo Ardina na Web 

O facto da cidade ter sido, também, o núcleo piloto do projecto de cidades digitais do nosso país reforçou esta imagem de marca.

A convergência aveirense

«Há aqui uma etiqueta de Novas Tecnologias», diz Luís Rola, um forasteiro residente em Ovar mas que resolveu «fundear» logo à entrada da cidade a sua livraria física e virtual, a Byblos-Arte, atraído por esse «clima». Rola é o sénior do grupo - quase cinquentão criou esta sua pequena «Amazon.com» para atingir todo o mundo de língua portuguesa.

O terreno obviamente não era virgem. A tradição industrial e empresarial de todo o distrito é conhecida. São vários os «clusters» industriais da hoje chamada «velha» economia que floresceram na região. «Aveiro sempre foi um distrito muito empreendedor. Estas gentes nunca foram acomodadas. Nas últimas décadas houve uma convergência de situações que permitiram, depois, despoletar esta última vaga ligada à Net e à Web em que a média de idades é hoje inferior, em regra, a 25 anos», acrescenta José Domingues, director de Marketing da PT Inovação aqui sedeada.

Nessa «convergência» estão dois pilares básicos da criação de massa crítica em termos de quadros e de empreendedores ligados ao vício da tecnologia: o Centro de Estudos de Telecomunicações (CET), hoje integrado na PT Inovação, e onde José Domingues fez a sua carreira de quadro, e a Universidade de Aveiro que nasceria dentro das instalações do CET e em que grande parte do corpo docente nas áreas tecnológicas era oriundo daquele centro que foi uma das «escolas» tecnológicas mais importantes do país.

O próprio Centro - hoje PT Inovação - é responsável pela alimentação de um verdadeiro «keiretsu» de jovens empresas locais em que se conta a Netual, criada por Eduardo Jardim e um colega, que tendo-se celebrizado nomeadamente no segmento dos quiosques multimédia, procura hoje uma «expressão nacional à altura do seu 'konw how'».

A tradição académica, por seu lado, «desenvolveu-se mais recentemente com o arranque de uma estratégia explícita de fomento ao empreendedorismo de alunos e professores», salienta Luís Maurício, gestor de projectos da GrupUnave. A Universidade arrancou com uma incubadora de empresas que é gerida por esta entidade e onde estão hoje instaladas sete empresas, duas das quais à volta desta mesa da nova economia.

Modelos de incubação

A Micro I/O é porventura o modelo mais típico de «spin off» académico, criada por quatro professores do Departamento de Electrónica e Telecomunicações da Universidade e por um mestrando, Fernando Santos, que posicionou a empresa como um «fábrica» muito sólida em termos de robótica e sistemas de controlo. Uma das iniciativas em que esta empresa se celebrizou é o Concurso do Micro-Rato, cuja edição deste ano irá decorrer a 17 de Maio de 2000.

 Veja aqui o Concurso do Micro-Rato 

O outro género de incubação universitária é bem representado pela Medialink, fruto de um concurso de ideias de negócios promovido pela Universidade. Liderada por Artur Curado, um ex-finalista, hoje é um pequeno grupo de empresas focalizado no desenvolvimento de portais ligados ao comércio electrónico e com uma estratégia que abrange nomeadamente a Galiza e as Astúrias.

Curado é, também, o líder da delegação local da Associação Nacional dos Jovens Empresários e anunciou «o lançamento de uma incubadora de projectos virtuais em ligação com a incubadora industrial a sedear em Oiã». Garantiu que dos 280 jovens associados locais, cerca de 1/3 já está abertamente «interessado no comércio electrónico».

O regresso do filho pródigo

O célebre «clima» de Aveiro é, também, responsável pelo regresso de filhos pródigos. João Tomás Parreira estava em Lisboa na banca e resolveu despedir-se e regressar a casa para criar com familiares a Ciberguia em finais de 1997, que viria a tornar-se conhecida pelos diversos directórios regionais na Web que lançou. A empresa é hoje, entre as 'start ups' nascidas nesta última vaga, uma das que atingiu um nível de facturação apreciável que rondará os 350 mil contos no final do ano, tendo, pelo caminho, injectado capital de risco (da PME Capital) e realizado uma parceria estratégica com a Jazztel. Os caminhos de Espanha são, também, um dos seus objectivos estratégicos, tendo criado recentemente a Ciberguia España.

Sem papas na língua, Tomás Parreira lamenta que o ex-libris da terceira vaga aveirense, o SAPO, tenha fugido da terra, e espera que os novos empreendedores retirem lições desse facto: «O que decididamente não gosto é que venha alguém ganhar bom dinheiro com as nossas ideias» e alerta para a necessidade dos líderes locais da nova economia não se deixarem «cegar» pela entrada do grande capital no tornado digital. «Algumas entidades avaliam de um modo leviano as novas empresas e isto induz uma certa pressão negativa em negócios que não estão ainda estabilizados, gerando uma enorme confusão entre valorização bolsista e solidez do negócio», conclui a fechar esta mesa redonda, a segunda de uma ronda pelo Portugal que Mexe em termos de Nova Economia.

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 BRAGA Capital do Software 

Destaque Fora de Portas

Cantanhede na rota de um Parque Tecnológico e Cultural

Ficava no caminho de regresso. Entre Aveiro e Coimbra, Cantanhede tem um presidente de Câmara em sintonia com os novos tempos e um consultor, Victor Cardeal, um histórico da robótica, que quer a cidade no hi-tech. Para além do Bairrada (bom vinho como o leitor sabe), a pequena cidade quer ficar no mapa da massa cinzenta nacional

Jorge Nascimento Rodrigues em Cantanhede (Abril 2000)

Victor Cardeal com o presidente da C. M. de Cantanhede A pequena cidade na Rota da Bairrada quer posicionar-se no mapa da massa cinzenta nacional. O projecto é o arranque ao longo do próximo ano e meio de um Pólo Tecnológico e Cultural em Cantanhede, designado de «Beira Atlântico Park», envolvendo um espaço superior a 60 mil metros quadrados e um investimento global, para esta primeira fase, até final de 2001, de cerca de 2 milhões de contos. O parque prevê a localização de uma incubadora, de edifícios para PME, de empresas que adquiram terreno disponível para construção própria, de um parque desportivo contíguo, de facilidades para eventos culturais e científicos, de um «health club» e de zonas administrativas e de serviços. O objectivo a cinco anos é a instalação de 10 empresas no parque e de 25 'start ups' para incubar, bem como a atracção de uma Escola de Pós-Graduação e de Centros tecnológicos e de design ligados às áreas estratégicas definidas para o tipo de «indústria» a localizar.
A região tem pergaminhos. Outrora foi célebre pela importância da pedra de Ançã no sector das cantarias (o nome de Cantanhede deriva daí) e da estatutária decorativa, associada a nomes quinhentistas como o de João de Ruão. Foi, também, o berço dos ourives ambulantes, os célebres homens da «mala verde», pequeno baú de folha de Flandres onde ía a joalharia. O concelho com cerca de 40 mil habitantes quer, agora, às portas do século XXI, retomar essa «centralidade» na região litoral beirã, explorando nomeadamente a quase equidistância em relação a Coimbra e Aveiro.
Segundo Jorge Catarino - um economista e empresário de um grupo familiar que se considera em «comissão de serviço» como presidente da Câmara - «a par de uma dinamização cultural muito intensa, já em curso, a cidade pretende desenvolver um novo tecido social e empresarial». Recusando a perspectiva de «selva urbana», o objectivo é «a atracção de jovens quadros saídos das universidades de Coimbra, Aveiro e Figueira da Foz que possam encontrar neste espaço urbano um bom nível de qualidade de vida e no parque tecnológico o local ideal para lançar 'start ups'» ou integrar equipas dinâmicas em segmentos ligados à nova economia ou à fileira da saúde, sem descurar os produtos típicos do território local (como o vinho) e a reanimação da tradição na ourivesaria e joalharia.
«Algumas empresas já incubadas noutros locais poderão encontrar aqui o espaço para o seu desenvolvimento», defende, por seu lado, Victor Cardeal, o presidente da Associação para a criação do Parque, que garante que «não vamos estar à espera de ter tudo construído para começar a instalar quem queira vir para cá». Empresas de ponta, como a Critical Software, de Coimbra, já reconheceram «as características interessantes» do projecto e a agilidade com que a Câmara se mexe.
No começo desta viragem esteve a elaboração de um Plano Estratégico de Desenvolvimento Económico e Social do Concelho por parte da Câmara Municipal que colocou na ordem do dia o reposicionamento estratégico do concelho no sentido de «ir para além da atracção do investimento industrial» tradicional - área em que os objectivos têm sido alcançados, com uma previsão até final de 2001 de mais de mil empregos directos criados e mais de 10 milhões de contos de investimento de empresas em quatro parques industriais. «Apesar desse sucesso recente, de que é simbólica a implantação da fábrica da Roca Torneiras, queremos complementar com um desenvolvimento de novo tipo para Cantanhede», remata Jorge Catarino. No ar paira o sentimento de que alguns investimentos de vulto no sector da fileira automóvel nas extremas do concelho, no Parque Industrial da Bairrada, e bem visíveis da auto-estrada, com a implantação da Cofap e da Ronal, «não tiveram o efeito estruturante e de desenvolvimento no concelho» que se esperaria.

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