As lições da Amazon

Carlos Quintas, fundador da Altitude Software/Easyphone

A Amazon não é só uma lição para a nova geração de empresários, é sobretudo um aviso para toda a classe empresarial que assenta nos modelos de gestão tradicionais. O mundo está a mudar muito rapidamente. As empresas tradicionais têm sido geridas numa óptica de maximização dos lucros, criação de riqueza para os accionistas, contenção de custos e crescimento sustentado. Ao contrário destas, as empresas da nova economia assentam na inovação, no crescimento acelerado, na globalização e na criação de riqueza para os empregados.

Um dos factores críticos de sucesso de qualquer projecto empresarial é a sua capacidade para atrair e reter recursos humanos de qualidade. As empresas que adoptam este novo modelo de gestão entram normalmente numa espiral de valorização que acoplada a uma politica de "stock options" agressiva (criação de riqueza para os empregados) faz delas um pólo de atracção de talentos. Por outro lado, empresas inovadoras, com uma óptica de globalização e crescimento, oferecem aos seus quadros condições de trabalho muito mais interessantes. O resultado é uma transferência acelerada dos melhores recursos humanos das empresas tradicionais para as empresas da nova economia, com consequências óbvias para ambas.

As empresas da nova economia são empresas com fortes recursos financeiros devido ao fácil acesso a capital de risco e que em pouco tempo estão em condições de aceder aos mercados de capitais. São normalmente empresas de base fortemente tecnológica, taxas de crescimento superiores a 100% ao ano e resultados negativos devido à grande aposta no crescimento. Outra das características desta nova geração de empresários é velocidade com que tomam decisões e assumem riscos. A prudência é o inimigo numero um do crescimento e normalmente é preferível tomar 10 decisões em que 3 estão erradas do que tomar apenas 3 decisões certas perdendo 4 oportunidades.

Ao contrário do que muita gente pensa, este modelo não se aplica apenas a empresas ligadas à internet, mais conhecidas por "dot.com", a internet apenas facilitou e acelerou a implementação deste novo paradigma empresarial. Hoje, sobretudo fora dos EUA, é comum associar-se a um conceito de nova economia todas as empresas que pertencem ao grupo normalmente designado por TMT (Technology, Media & Telecom), mesmo que estas sejam geridas segundo os modelos tradicionais. Na Europa este fenómeno tem gerado alguns excessos, onde empresas que não têm nada a ver com os modelos da nova economia atingem valorizações absurdas só porque actuam em sectores conotados com as novas tecnologias. É importante perceber-mos que a nova economia tem muito mais a ver com uma nova filosofia de gestão do que com um determinado sector de actividade. O negócio da Amazon pouco ou nada tem a ver com tecnologia, a tecnologia serve apenas de veículo facilitador do fenómeno de globalização.

Mesmo as empresas que, como a Amazon, começaram a desenvolver a sua actividade exclusivamente através da internet, estão agora a chegar à conclusão que a interacção directa é igualmente importante para manter um bom nível de serviço e fidelizar os clientes. O cliente que hoje compra através da internet amanhã poderá fazer a sua encomenda pelo telefone ou deslocar-se a uma loja. É por isso fundamental que o nível de serviço seja consistente ao longo dos vários canais.

Dentro de pouco tempo, estes dois tipos de empresas (tradicionais e nova economia) deixarão de existir, dando lugar a apenas um. Esta nova geração será o resultado de empresas tradicionais que reagiram rapidamente e implementaram o novo modelo de gestão explorando ao máximo os novos canais virtuais (internet), ou de empresas nascidas na nova economia que entretanto compraram as suas concorrentes que não reagiram a tempo. Isto porque as empresas que adoptaram este novo modelo de gestão estão a atingir capitalizações bolsistas que em muitos casos são superiores a 100x as vendas previstas para os 12 meses seguintes, permitindo-lhes facilmente adquirir outras empresas concorrentes que geralmente têm activos muito superiores.

Seria bom que os empresários europeus aprendessem com o exemplo americano onde este fenómeno começou mais cedo devido sobretudo à rápida proliferação do acesso à internet e à não existência de barreiras culturais e linguísticas. Se isso não acontecer as empresas tradicionais acabarão mesmo por desaparecer ou por ser absorvidas pelas nova geração de concorrentes.

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